Carlota em dois tempos

19/06/2010

 

Alguns restaurantes têm seu tempo, outros conseguem transcendê-lo.

Quando o Carlota abriu, uns quinze anos atrás, virou uma febre. Tudo ali parecia novidade. A tal da culinária contemporânea mostrava sua cara, embora ninguém soubesse exatamente a que a etiqueta se referia.

Havia, porém, certeza quanto ao talento e à técnica de Carla Pernambuco, ao acerto das combinações e fusões de sabores, procedimentos e ingredientes.

Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades.

De uns anos para cá, as críticas ao Carlota só cresceram nos meios gastronômicos. Explicações de toda ordem para o declínio da casa foram formuladas.

Parecia que o tempo do restaurante havia se encerrado. Só quem não sabia disso era o público, que continuava a ocupar regularmente os salões, agora mais amplos, da casa da rua Sergipe.

Apesar de nunca ter escrito sobre o Carlota, confesso que compartilhei silenciosamente muitas críticas: fui lá três vezes nos últimos dois anos e, em todas, saí decepcionado.

Ontem minha mulher e eu resolvemos voltar.

Cautelosamente, pedimos uma porção de bolinhos de mandioca com camarão de entrada. Sequinha, crocante, recheio cremoso, pimentinha interessante ao lado. A mandioca, agradabilíssima. O camarão, sem gosto.

Os pescados prevalecem no cardápio; fora eles, há apenas seis opções de carnes, sendo cinco de boi. Achamos melhor ficar com os peixes.

Por isso, nossos principais foram um linguado ao molho de “queijo de cabra dourado” acompanhado de fettuccine de pupunha e cogumelos, e lulas grelhadas com riso de camarão e brie.

O sabor de queijo de cabra era quase imperceptível na cobertura do linguado e as lulas chegaram à mesa um pouco mais rijas do que deveriam.

Os acompanhamentos dos dois pratos estavam, no geral, superiores: bom fettuccine de pupunha, ótimo riso de camarão e brie (o camarão, nesse caso, era bastante saboroso).

Para a sobremesa, pudim de fruta do conde. Apresentação feia, de cores apagadas, mas gostoso e leve.

Conclusão? Creio que o Carlota não acabou, nem transcendeu seu tempo. Talvez a fórmula surpreendente de quinze anos atrás tenha sido decifrada e a concorrência melhorado significativamente.

Hoje é uma casa que consolidou seu lugar e onde se pode comer razoavelmente bem. Não empolga, nem se compara ao que São Paulo tem de melhor em gastronomia. Mas tampouco pode ser jogado — seja por seu passado, seja por seu presente — na vala comum da restauração ultrapassada.

Carlota

Rua Sergipe, 753, Higienópolis, São Paulo

Tel. 11 3661 8670

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Carlota



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30 Respostas to “Carlota em dois tempos”

  1. Luiz Says:

    Alhos, como vai ?
    Post que resume bem a sensação que eu tive nas duas últimas vezes que fui ao Carlota.
    Não tenho mais vontade de ir lá, sinceramente.
    Sentimento oposto de uns sete, oito anos atrás quando era programa certo.
    A concorrência o tem superado. Para aquelas bandas prefiro o Così e o Sal.
    Abraço,
    Luiz

  2. alhos Says:

    Luiz,
    tudo bem?
    Sal, Così, Ici, AK… Higienópolis tem opções muito boas e, infelizmente, o Carlota não está no nível deles.
    Torçamos para que a casa, que tem público fiel, ganhe fôlego de novo.
    Abraços!

  3. Joaquim Says:

    Alhos ,não vou ao Carlota de S.P há muito tempo e a última vez que eu fui não lembro mais da sensação.No entanto ,o do Rio fui recentemente e minha impressão é de um restaurante desgastado que não surpreende mais.Sobre o Sal eu não conhecia ,mas como as críticas sempre foram muito boas fui lá no mês passado e achei a comida “suja” ,isto é ,tem ingredientes demais e ervas numa quantidade insuportável.Lembro de uma massa com cogumelos cujo sabor era afetado pela quantidade de coisas joagadas no molho,ervas em profusão.Depois um robalo com farofa de granola ,alcachofra ,banana,e ervas ,ervas ,muitas ervas cobrindo o peixe.Se o chefe tirasse metade do que ele coloca nos pratos tudo melhoraria mais.

  4. Lucas Braun Says:

    Alhos, eu sou um pouco mais complacente com a culinária do Carlota – acho bem gostosa, principalmente as entradinhas – mas o que me chama atenção lá são os preços elevados. Se não me engano, ambos pratos que você pediu estão na faixa de R$ 50 ou 60. Nada justifica essa inflação, senão o status “moderno” do restaurante.

    Ou seja, ainda que eu goste da comida, prefiro ir em um dos outros restaurantes que você citou acima e comer mais por menos…

  5. alhos Says:

    Joaquim,
    tudo bem?
    Não conheço o Carlota do Rio. Por seu comentário parece-me que tem padrão equivalente e padece da mesma ambiguidade do de São Paulo.
    Curioso seu comentário sobre o Sal. Nunca senti isso. Ao contrário, acho os pratos normalmente bem equilibrados e considero a casa uma das melhores relações custo-benefício da cidade. Fui lá ainda na semana passada e novamente confirmei a impressão. Sugiro que o revisite na próxima vinda a São Paulo para conferir.
    Abraços!

    Lucas,
    tudo bem?
    As críticas que fiz ao Carlota vêm da comparação com outras casas que cobram na mesma faixa ou um pouco menos. Minha conta nessa visita, que incluiu duas águas e um vinho (92 reais), ultrapassou os 250. Caro demais mesmo.
    Abraços!

  6. Joaquim Says:

    Alhos ,concordo com vc. o Sal não é caro e tem uma carta de vinhos muito interessante e certamente o restaurante é moderninho com boas sacadas.Comi um bom ceviche de prego e boas sobremesas e os outro pratos não eram ruins,mas acho em demasia a quantidade de ingrdientes num mesmo prato.O ponto do robalo estava perfeito ,vinha encima de uma cama de alcachofras ,ao lado um farofa de migas ou granola ,por cima uma banana cortada no comprimento ,salsa por cima e cobrindo o peixe uma corbetura de salsa e ainda um molho,se não me falha a memória.Sinceramente ,as coisas não casavam bem ,era tudo muito over,da mesma forma com a massa ,parecia alegoria de escola de samba,tinha cebola ,sálvia ,salsa ou coentro ,no final o gosto não era agradável.Não sei se essa é a tendência dos moderninhos,mas não acredito que seja o melhor caminho. Abs,Joaquim

  7. alhos Says:

    Joaquim,
    tudo bem?
    Essa receita do robalo, se não me engano, era antes feita com filhote, e eu gostava muito. Mas não havia tantos elementos.
    Abraços!

  8. henrique fogaça Says:

    Oi Joaquim tudo bem? Concordo em parte com a sua critica, realmente em alguns pratos ponho varios sabores….a intenção não é ruim..é que sou muito intenso em certas coisas que faço .. e por incrível que pareça são poucas as reclamações que tenho desse tipo…..enfim …gosto é que nem C.. cada um tem um!!alias o termo que usou para muitos ingredientes “suja” é desnecessário…e outra coisa : pessoas que seguem a moda, são pessoas sem personalidade ….voce se equivocou achando que sou moderninho … pois os verdadeiros moderninhos são aqueles que lhe servem um prato com quase nada de comida …sem gosto …deve ser assim que gosta!Lhe desejo boas experiências gastronômicas em sua vida espero que não passe por essa decepção novamente!
    Henrique

  9. fernanda Says:

    O Robalo do sal vai com molho de coentro (azeite e coentro), acompanhado de alcachofra e uma farofa de miga com xerem e banana. Feito para quem gosta de coentro
    A massa é o papardelle com molho de cogumelos, cebola roxa, tomate e sálvia crocante.

  10. alhos Says:

    Henrique & Fernanda,
    obrigado pelo esclarecimento.
    Abraços!

  11. Jose Luiz Says:

    Desnecessária a grosseria do Henrique Fogaça. Quanto ao Carlota, tive há alguns anos uma experiência no mínimo inusitada. Ao final de um jantar, em que tomamos duas garrafas de vinho, perguntamos ao maitre se poderíamos tomar um vinho de sobremesa que acabara de ganhar. Qual foi a resposta? NAO…. Insisti, disse que pagaríamos a rolha, e ele, novamente, NAO. O que fizemos, fomos tomar em casa e nunca mais voltamos ao Carlota.

  12. alhos Says:

    José Luiz,
    tudo bem?
    Curiosa essa história. Será que não aceitam que se leve vinho? A carta, inclusive, é bastante limitada.
    Abraços!

  13. o avestruz Says:

    Oi, alhos. Tudo bem?
    Sobre o Carlota, concordo 100%. Já foi “o” programa certo. Hoje, é apenas caro e fracativo.
    Mas resolvi escrever depois de ler o comentário deselegante do Fogaça.
    Ao ler os comentários anteriores, deu uma baita vontade de revisitar o Sal. Mas eis que o chef criticado, que deveria ser também um bom anfitrião, trata um comensal de maneira desrespeitosa e deselegante. Ficou um gosto ruim…
    Este narciso merece a maldição do espelho quebrado e das mesas vazias.
    Já vc, meus sinceros parabéns pelos belos textos, que só melhoram.
    Grande abraço
    d’O Avestruz

  14. henrique Says:

    Liberdade de expressão……Democracia …..
    aquele velho ditado……Fala o que quer…….!!!!!!

  15. José Luiz Says:

    Curiosa e desagradável. Ocorreu há alguns anos, talvez a casa esteja mais acostumada, hoje em dia, com clientes que levam suas garrafas. E não é que levamos para tomar. Eu ganhei de uma amiga, no próprio jantar, o vinho de sobremesa. No final, até para agradecer o presente, perguntei se não poderíamos tomar naquela noite mesmo…. Acabamos a noite em casa e nunca mais voltei ao Carlota. E a Carla estava no restaurante e nada fez.

  16. alhos Says:

    Avestruz,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Abraços!

    Henrique,
    sim, prós e contras publicados.
    Abraços!

    José Luiz,
    vou verificar se atualmente aceitam que leve o vinho e aviso aqui.
    Abraços!

  17. henrique Says:

    Sou a favor do OLHO NO OLHO , falar pela internet é muito facil,recebo criticas eventualmente de clientes e isso me ajuda a evoluir….diferente de uma pessoa que faz criticas ofensivas..(donos da razào)…tudo isso acaba gerando essa situaçào..Avestruz lhe desejo em dobro o que me deseja!!!e quando quiser apareça por la!! nào passe vontade em revisitar!!
    PUNK RULES!!

  18. alhos Says:

    Henrique, Avestruz, José Luiz, Joaquim & demais,
    estou quietinho aqui, pois sou avesso a polêmicas – pelo menos na tradição brasileira de transformá-las em confrontos inarredáveis, em que a voz prevalece ao ouvido.
    Nada contra o debate, a diferença e o contraste de ideias. Mas o diálogo é sempre melhor, com argumentos à mesa (desculpem-me o trocadilho).
    Acho que, no caso, o melhor a fazer seria uma boa refeição no próprio Sal, com a comida mediando gostos, análises e, principalmente, conversas. Fica a proposta.
    Abraços!

  19. Ricardo Oliveira Says:

    Henrique, estou com você, que façam a crítica para o Chef.Agora confundirem coentro com salsa…Quer criticar o que?

    Abs.

  20. Benny Says:

    Uma critica feita..uma resposta do Chef..não vejo grosseria alguma na resposta do Henrique ao Joaquim.
    Joaquim gente fina,grande apreciador da culiaria, talvez tenha usado uma palavra que eu como o Fogaça ,cozinheiro e dono de restaurante,jamais gostaria de ver associada a um prato meu,independente da intenção metaforica.
    grande mal da internet…o tom do texto e dado por quem le , nao por quem escreve..
    abs ao Fogaça,Fe,Joaquim e Alhos

    Benny

  21. alhos Says:

    Ricardo,
    obrigado pelo comentário.
    Abraços!

    Benny,
    é isso: obrigado pela síntese.
    Abraços!

  22. fernanda corvo Says:

    Obrigada Benny e Ricardo, conseguiram expressar melhor o que estávamos pensando.
    abs
    Fernanda

  23. José Luiz Says:

    Se “…gosto é que nem C.. cada um tem um!!” e “…sem gosto …deve ser assim que gosta!” não é uma grosseria, falta de educação, devo mesmo estar vivendo em outro planeta. Me desculpem, mas o tom do texto é dado por quem escreve, que, de resto, escolhe as palavras. A interpretação é outra história. Chato isso….

  24. Gourmet Blasé Says:

    Grande Alhos!!!

    Estou de volta às esferas blogueiras e “twitteras” e resolvi aparecer para comentar.

    Quanto ao Carlota, concordo plenamente, o que é uma pena, pois o local em que está instalado em Higienópolis é muito agradável e a Carla teve um grande valor na gastronomia paulistana, nos resta apenas lamentar.

    Quanto à pequena polêmica gerada num off-topic sobre o Sal, esse tipo de atitude foi um dos desmotivadores de continuar meu falecido blog. Eram muitas ofensas e comentários desnecessários que recebi, o que em hipótese alguma me vi obrigado a aturar.

    Achei que o comentário do Joaquim não foi bem estruturado, principalmente no uso da palavra “suja”, porém, acho que qualquer empresário ou empresa tenha que ter o mínimo de postura e diplomacia ao se pronunciar publicamente. O excesso de paixão é muito válido, mas combinado com uma má assessoria de imprensa, só prejudica a imagem.

    Será que falar que “…gosto é que nem C.. cada um tem um!!!”, irá incentivar qualquer cliente a fazer um crítica “OLHO NO OLHO” estando no restaurante? Acho que não.

    Viva a liberdade que a internet nos proporciona!!!

  25. alhos Says:

    Fernanda & José Luiz,
    deixando de lado os excessos certamente havidos, insisto na minha proposta: um belo jantar e a interpretação in loco.
    Abraços!

  26. alhos Says:

    Blasé,
    fico muito feliz com sua volta a esse mundo de comentários. Fez falta.
    Esperamos, agora, a reativação do blog…
    Abraços!

  27. eduluz Says:

    Na verdade, o gosto é pessoal! Assim como o dito cujo. rsrs
    Pra vocês verem, ainda gosto muito do Carlota. É caro? Não vá! É ruim? Porque está sempre cheio?
    Infelizmente pra todos os criticos de plantão, a lei da oferta/procura impera em qualquer negócio!
    Quanto ao bate-boca, quem quiser falar, que fale!!
    Fui ao Sal e gostei muito.
    Continuo achando que a comida nunca está sozinha. Depende do dia, da companhia, do astral, da temperatura e da pressão. Ah! E dos vinhos 🙂
    Portanto, sou a favor da sugestão do Alhos. Um belo almoço pra todos os envolvidos e as coisas se resolverão.
    Caso haja convites pros comentaristas, estou me candidatando.
    Abs.

  28. alhos Says:

    Obrigado pelo comentário, Edu.
    Abraços!

  29. Andrezza Arnone Says:

    olá, tudo bem?!

    meu nome é Andrezza. Trabalho no jornal Diário de S. Paulo. Estou fazendo uma matéria com blogueiros de gastronomia.
    Podem me mandar um telefone ou email para contato. Gostaria de falar com vc

    um abraço
    Andrezza Arnone

  30. alhos Says:

    Andrezza,
    tudo bem?
    O email é alhospassas@uol.com.br
    Beijos!


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