Sintonia fina

29/07/2010

 

Em São Paulo, restaurantes abrem e fecham. Diariamente ao fim do expediente, às vezes para sempre.

Em 2009, no lugar do Toro — bom restaurante que fechou de vez — abriu O pote do rei.

Demorei quase um ano para conhecê-lo, talvez temeroso de que entrasse na ciranda paulistana da vida breve, talvez em dúvida quanto à rubrica imprecisa como é classificado: “mediterrâneo”, esse espaço geográfico-cultural-culinário absolutamente variado que, na falta de outro termo, passou a designar uma gastronomia que enfatiza o papel dos azeites e combina tradições que vão da península ibérica à balcânica, com passagens pelo Oriente próximo e o Marrocos. Coisa demais, história demais para condensar numa só palavra — ou num cardápio.

O fato é que só agora conheci de verdade O pote do rei. E, no geral, gostei do que vi e comi. Lugar simpático, com área agradável ao fundo e serviço gentil.

Minha mulher pediu o medalhão de filé no demi-glace com crosta carregada de alho e “petit gateau” de mandioquinha e brie. Carne macia, saborosa, no ponto (conforme pedido). Derrapou, porém, no alho em excesso da cobertura, cujos aroma e sabor encobriam a carne.

Meu confit de pato com raspas de laranja e molho de Porto e foie veio acompanhado de cuscus marroquino com passas e castanhas portuguesas. Pato bom, cuscus inventivo e de sabor destacado, combinação feliz. O molho era gostoso, mas forte demais; felizmente não foi derramado sobre a ave, permitindo dosá-lo.

Os deslizes dos dois pratos salgados não nublaram a qualidade da concepção e execução. Mostraram, inclusive, uma saudável disposição de arriscar, de não aceitar o básico — que muitas vezes também é banal.

A sobremesa, porém, estava toda errada. A ideia do crumble de pêra com sorvete de queijo de cabra nos atraiu. Mas o sorvete e a torta não dialogavam e em ambos havia problemas: o sorvete chegou parcialmente derretido à mesa e lhe faltava o sabor intenso, característico do queijo caprino; a cobertura do crumble carecia de crocância. Uma pena.

Apesar dos problemas, o saldo foi positivo. Talvez falte ao trabalho do chef William Ribeiro algum ajuste na sintonia fina. Por não ter medo de errar na mão, ele arrisca no uso de temperos e complementos, ocasionalmente excede — mas isso ainda é melhor do que se contentar com pouco. Aparentemente, tem recursos para crescer, afinar um pouco mais a técnica. O pote do rei então escapará do carrossel de abre-e-fecha paulistano e achará seu lugar — que talvez não seja propriamente sob o rótulo “mediterrâneo”, mas algo melhor: um português renovado, tipo de restaurante de que a cidade precisa.

O pote do rei

Rua Joaquim Antunes, 224, Pinheiros, São Paulo

tel.  11  3068 9888

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): O pote do rei


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6 Respostas to “Sintonia fina”

  1. Mario Netto Says:

    Caro Alhos

    O “E, no geral, gostei do que vi e comi” está incoerente com o restante do “post”.Se parasse a leitura nesse parágrafo, arriscaria uma visita imediata à casa,o que obviamente não farei por enquanto.

    Abraço
    Mario

  2. alhos Says:

    Mario,
    tudo bem?
    Não acho incoerente, não.
    No geral, gostei mesmo. Houve mais pontos positivos do que negativos – fora a sobremesa, os deslizes foram pontuais e facilmente corrigíveis. Agradou-me também o que me pareceu a proposta da cozinha: destacar os sabores, o que é raro atualmente.
    Abraços!

  3. raphael civille Says:

    alhos, e o petit gateau de mandioquinha com brie como estava ? obrigado !

  4. alhos Says:

    Raphael,
    tudo bem?
    Estava gostoso.
    Abraços!

  5. Carola Says:

    Alhos, como vc sabe fui no Pote faz um tempo e gostei do que vi tb!
    Comi um Tartar de Atum acompanhado de creme de abacate e lâminas de batata doce, estava muito bom, e olha que nem sou fã de abacate! De prato principal pedi um pescado que estava ok.
    Queria muito ter ido quando o chef Albano do restaurante Arcadas da Capela do Quinta das Lágrimas (Coimbra) fez um jantar lá!
    Fiz duas refeiçoes memoráveis nesse restaurante! Tipo do restaurante que vale a viagem! Fica a dica 🙂

  6. alhos Says:

    Carola,
    tudo bem?
    Sua recomendação pesou muito em minha vontade de conhecer logo O pote do rei. Infelizmente demorei… rs
    Ele de fato se diferencia da massa de restaurantes que abrem diariamente em São Paulo. Procurei mostrar, na resenha, que as ressalvas pontuais não desmerecem a proposta e o potencial do chef e da casa.
    Beijos!


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