Sob o spot do Spot

24/09/2010

 

Não gosto muito de ser visto — resultado da tentativa de preservar meu relativo anonimato e, sobretudo, de minha timidez.

Também não enxergo lá muito bem e, ainda por cima, sou bastante distraído.

Ou seja, restaurantes que se destacam na categoria ‘para ver e ser visto’ me trazem, de saída, dois problemas sérios.

Eis, porém, que, dia desses, minha mulher e eu resolvemos ir a um bar, evento raro em nossas vidas. Fora o óbvio — Fasano, Emiliano, Astor —, desconhecemos quase tudo. Pedi sugestões pelo twitter e, como de hábito, recebi muitas e boas ideias.

Tentamos reservar mesa em dois deles, não conseguimos. Ficamos cá a matutar sobre nosso destino e, de repente, minha mulher sugeriu: ‘E se fôssemos ao Spot?’

Ok, não é bar, mas tem um ambiente que, na minha ignorância, aproxima-se do de um bar. E fazia tempo que não íamos lá. Fechado.

Chegamos lá alguns minutos antes de começar o agito. Tanto que sentamos imediatamente e pedimos um espumante. Aos poucos, começou a encher de gente. Gente, gente e mais gente. Gente com jeitão moderno, vozes altas e risos soltos.

A primeira entrada foi bazergan, trigo com coalhada seca, acompanhado de torradas de pão árabe. Fresco, gostoso. Depois, terrine de cabra com legumes: superior e mais barata do que uma recentemente comprada numa rôtisserie muito prestigiada.

E chegava mais gente, mais gente. A espera, ouvíamos dizer, ultapassava uma hora. Os clientes (taí coisa que não entendo) topavam esperar com tranqüilidade. O serviço — meninas e meninos, lindas e lindos, cheios de estilo —, normalmente um tantinho afetado, estava afinado, atento, simpático.

Dividimos, como prato principal, um steak ligeiramente além do ponto, com cevadinha e molho de raiz forte. Carne suculenta, molho incisivo, cevadinha deliciosa.

Adivinhem? Chegava mais gente. Estávamos cercados. Para que tanta perna, meu Deus?, ecoavam, drummondianos, os olhos e a cabeça.

Ainda assim pedimos um prato de profiteroles, dispensável. Liquidamos as últimas gotas do espumante e nem mais conseguíamos conversar de um lado a outro da mesa, tamanho o barulho.

Ao redor, o pessoal se divertia, feliz. Todos se olhavam, eram olhados, até nos olhavam. Sentindo-se ou não inserido no contexto, era inevitável perceber que tudo sugeria alegria, a boa e velha prova dos nove.

Quando saímos, lembramos mais uma vez de algo importante, mas tantas vezes esquecido: o Spot é um restaurante que funciona bem e serve comida boa.

Mesmo para quem não vê bem, nem quer, ou merece, ser muito visto.

Spot

Alameda Ministro Rocha Azevedo, 72, Cerqueira César, SP

tel. 11 3289 1247

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Spot


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18 Respostas to “Sob o spot do Spot”

  1. Rubén Says:

    Como sempre, excelente texto Alhos.(mas não contou se foi visto…):-)
    Abraço,
    Rubén


  2. Alhos

    Também tenho essa sensação estranha de estar cercada por muitas “pernas” quando vou ao Spot…
    Não gosto de lugar de burburinho. Nem sou de altas badalações. É meu jeito.
    Mas sem dúvida o Spot serve uma boa comida, a bons preços, e fervilha alegria.
    Pelos menos, as pessoas ali tentam ficar com o “bom”.

    Adorei o post!!

    Beijo
    Lena

  3. alhos Says:

    Rubén,
    obrigado.
    Que tenha percebido, não. rs
    Abraços!

    Helena,
    obrigado.
    Estranho, não é?
    Importa, no caso, a boa comida.
    Beijos!


  4. Sou habitué do Spot, e vou com meu filho lá desde que ele tinha uns 5, 6 anos. Nem mesmo ele(hoje com 13) se incomoda de esperar. Costumo ir lá aos domingos para almoçar e leio meus jornais na espera, largada no deck enquanto belisco algo. Adoro a vista, adoro a música, a decoração, e a comida não compromete.
    Da última vez que estive lá mancaram feio no soufflé de chocolate (veio murcho. duas vezes) mas é um lugar que eu definitivamente adoro.
    E vc disse tudo, é um bar que serve comida.

    bjs


  5. Nunca estive no Spot, Alhos, mas suas palavras vieram, perfeitamente, ao encontro do que imagino deva ser o Spot…


  6. caro Alhos,

    descobri o seu blog há coisa de duas semanas, e nunca havia comentado aqui. só posso dizer que foi a maior descoberta que fiz ultimamente.

    seus textos são fantásticos… e além da qualidade da narrativa e da crítica, me fazem sonhar com que um dia a minha cidade (Brasília) tenha restaurantes do nível que vocês já têm em São Paulo. enquanto isso não acontece, por favor, continue nos brindando com esses textos tão saborosos.

    um abraço,

    Eduardo

  7. Eduardo romão Says:

    Amigo, Alhos

    Sempre divertido e inteligente.
    Abraços.

  8. alhos Says:

    Flavia,
    tudo bem?
    Tenho dificuldade com espera e com barulho. rs
    Mas lá é um lugar bacana, com comida boa.
    Beijos!

    Constance,
    tudo bem?
    Não mencionei no post algo bastante importante: o lugar é muito bonito, na Paulista, mas afastado do barulho e do caos.
    Beijos!

    Eduardo Palandi,
    tudo bem?
    Obrigado mesmo. Acho que o texto funciona quando tem história.
    Vou pouco a Brasília atualmente; infelizmente não conheço as casas daí. Mas já ouvi comentários bastante elogiosos ao Aquavit.
    Que tal?
    Abraços!

    Eduardo Romão,
    obrigado!
    Abraços!

  9. Fabio T. Says:

    A comida eh gostosa sim, tambem adoro a terrine. O ceviche eh delicioso e os pratos do dia tambem valem a pena, especialmente o magret as quartas e o camarao as quintas. O clima de festa tambem ajuda, saio sempre contente!
    Abcs,
    Fabio

  10. alhos Says:

    Fabio,
    tudo bem?
    Sou mais tímido, recolhido; então, admiro, mas não participo do clima festivo.
    E, sim, a comida é boa.
    Abraços!

  11. kaki Says:

    Alhos,
    Ir ao Spot requer que a pessoa esteja num estado de espírito específico, tanto que entre amigos cunhamos a expressão “Astral Spot” quando precisamos definir algum lugar “lotado e badalativo, mas simpático e sem maiores afetações ou peruagens” – comida à parte naturalmente, pois nem todo lugar com esse astral serve algo comível.
    Se a pessoa estiver nesse astral, a visita ao Spot será sempre prazerosa.

  12. alhos Says:

    Kaki,
    tudo bem?
    Ótima definição!
    Abraços!

  13. Colorina Says:

    Alhos,

    Resolvi arriscar o delivery do Spot e me dei muito bem. Já pedi várias vezes, sempre chega direitinho. O único porém é ter que montar algumas entradinhas, como o ceviche que chega com os ingredientes desmembrados.
    Spot sem ver e sem ser vista pra mim é a melhor combinação.

    @colorina

  14. alhos Says:

    Colorina,
    tudo bem?
    Não sabia que o Spot fazia entregas! E ainda no sistema de quebra-cabeça! Bacana. Obrigado pela dica: vou experimentar.
    E parabéns pelos textos que tem publicado no blog do JB, muito bons.
    Abraços!

  15. jb Says:

    sobre o spot, acho que a combinação grelhado + acompanhamento lembra muito um restaurante de praça de alimentação de shopping, com todo o respeito.

    agora, sobre a @colorina, trata-se de uma das melhores coisas que aconteceram lá no meu blog.

    menina de talento ímpar e escrita fluente. além de uma simpatia!

    e, por aqui, com sua licença, opino que seus textos estão cada vez melhores, mais sensatos e precisos.

    grande abraço!

  16. alhos Says:

    Julio,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Faz muito (muito!) tempo que não como essa combinação. Seguirei sua recomendação e procurarei evitar. rs
    Bons mesmo os textos dela. Que prossigam, junto com os seus, claro.
    Abraços!

  17. Chloe Says:

    Alhos,

    vc falou do fasano, emiliano e astor mas nao constam os posts dois dois ultimos no blog.. valem a pena?

  18. alhos Says:

    Chloe,
    tudo bem?
    Fui poucas vezes ao Astor, infelizmente. O fato de ir muito a restaurantes limita bastante minhas visitas a bares – mesmo no caso de um bar como este, cuja comida é excelente. Vale muito a pena.
    Também recomendo o Emiliano, embora minha última visita, quando fui jurado do prêmio Paladar 2009, tenha sido um tanto traumática. Ainda não tive ânimo para voltar, apesar de respeitar muito o trabalho da cozinha daí – os problemas foram com o serviço e a cobrança.
    Espero escrever algo, assim que der, sobre as duas casas. De qualquer forma, os bares dos três lugares são referências sempre.
    Abraços!


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