Um diner para chamar de meu

30/09/2010

 

É uma sensação indefinível dar-se conta de que sempre sentimos falta de algo e sequer sabíamos disso. Um tipo de nostalgia cifrada, quebra-cabeça íntimo, futuro que ilumina o passado.

Só assim explico o efeito que o 210 Diner provocou no meu quotidiano.

Jamais imaginaria, antes que a casa surgisse, que eu precisava, e muito, de um lugar como esse. Nem sou lá muito filo-americano; sempre fui mais das Oropa, como dizia meu tio.

Mas eis que apareceu o Diner. Não bastasse isso, bem no meu caminho rotineiro — passo ao lado pelo menos quatro vezes por dia.

Fazia mais ou menos uma semana que a casa funcionava quando fomos lá pela primeira vez. Poucos dias depois, pela segunda e, assim por diante, até perder a conta.

Tanto que nem faz sentido comentar um ou outro prato — acho que provei quase tudo do longo cardápio.

Nem as situações, diferentes, em que me refugiei no hibridismo de sua proposta, que mistura café da manhã, almoço e jantar, bar, lanchonete e restaurante, artifício e aconchego. Um diner, enfim: coisa incomum em São Paulo.

Sei que já aproveitei, numa noite de muita tristeza, uma reestruturadora dose de Macallan. E que tomei, como aperitivo ou acompanhamento, meia dúzia de excelentes negroni — tanto que viciei nisso.

Sei que nenhum bacon da cidade chega aos pés do de lá — e olhe que nem de longe sou bacon-adicto; ao contrário, me incomoda seu uso excessivo e muitas vezes acessório.

Sei que o french e o piggie burger sempre me chegaram no ponto certo e com muito gosto.

E que o sanduíche de rosbife e o philli steak acabaram por se tornar meus favoritos. Que as onion rings, os tomates verdes fritos, aspargos grelhados e quiabos fritos me fazem falta quando passo muito tempo sem comê-los. Que os dolar fries recuperaram meu apreço pelo cheddar.

Que o carré de cordeiro e as baby back ribs, além de virem em porção farta, são saborosíssimos, dentre os melhores da cidade.

Pois assim a comida americana foi se infiltrando no meu dia a dia. Tomo o cuidado óbvio de não exagerar nas visitas — máximo de uma vez por semana é a regra, ultimamente atrapalhada pelo cardápio mais barato no almoço. Mas me esforço, me esforço: comprometo-me comigo mesmo.

E tento entender como nunca antes na história da minha alimentação eu sentira falta de um diner para chamar de meu. Mas sentia.

210 Diner

Rua Pará, 210, Higienópolis, SP

tel.  11  3661 1219

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): 210 Diner


Anúncios

22 Respostas to “Um diner para chamar de meu”

  1. Nina Moori Says:

    Ainda não provei nenhuma das sobremesas de lá. Mas o Irish Coffee (fora do menu) é o melhor que já bebi no Brasil – vale uma sobremesa.

    abs

  2. alhos Says:

    Nina,
    tudo bem?
    Pronto, já tenho um motivo para voltar lá: o Irish Coffee.
    Nem comentei das sobremesas no post (nem do bolinho de siri, das chicken wings e do meatloaf, outros pratos de que gosto muito). Achei o cookie e o waffle excelentes. Gostei da Apple Pie e do Devil’s Food Cake. A Key Lime e o Brownie são bons, embora um pouco doce demais para meu gosto. Achei o bolo de cenoura meio sem graça.
    Abraços!

  3. Benny Says:

    Alhos meu caro,o que dizer !! Muito obrigado pelo texto. Me emocionei assim 2 vzs a primeira c a the very first critica do ICI Bistro na veja SP, escrita por Armando Coelho Borges, a segunda com um texto do Sr Luiz Horta no premio paladar, e agora com seu texto sobre o Diner. Muito obrigado. Grande abraço .

  4. alhos Says:

    Benny,
    que honra, obrigado!
    O mérito, porém, é de vocês.
    Abraços!

  5. Vitor Says:

    Quotidiano? =] Não está errado, eu sei, mas é engraçado ver escrito desta forma, por um momento na minha mente seu texto ganhou um sotaque português.

    De qualquer modo: adoro seu blog, mas tenho que ler logo depois de uma refeição, ou então fico morrendo de fome.

    O que você achou das hash browns do 210?

  6. Mario Netto Says:

    Caro Alhos

    Achei o post muito redondo e perfeitinho demais.Será que o Diner não tem nenhum defeito???Parabéns chef Benny Novak, vc chegou à perfeição…Pelo menos para o Alhos.

  7. alhos Says:

    Vítor,
    tudo bem?
    Gosto mais da forma ‘quotidiano’, embora as duas estejam devidamente registradas.
    E você me pegou: uma das poucas coisas que não provei do Diner foram as hash brown… Fico devendo.
    Abraços!

    Mario,
    tudo bem?
    O que está ‘redonda’, no caso, é minha relação com a casa. Por isso dei um tom tão pessoal ao texto, investi na subjetividade do relato.
    Esta, talvez, seja a peculiaridade dos blogs: permitem uma variação maior de registros e aceitam com mais facilidade do que outro tipo de mídia as idiossincrasias de cada um. Tenho certeza de que o Diner não é perfeito, como não o é qualquer outro restaurante que eu conheça. Tampouco suponho, obviamente, que sirva a melhor comida de São Paulo – esta, continuo a crer, sai da cozinha de um restaurante que fica ali na rua Vittorio Fasano.
    Os próprios donos do Diner têm, inclusive, um restaurante evidentemente superior.
    O texto fala, portanto, da relação que criamos com um lugar, dos vínculos um pouco abstratos que estabelecemos com lugares e comidas.
    Abraços!
    Abraços!

  8. Mario Netto Says:

    Alhos

    Subjetivamente, concordo.
    Abraço
    Mário

  9. Dalmo Says:

    Prezado Alhos,
    Não bastasse o prazer em ler seus textos, neste consegui me ambientar, fantástico; difícil agora será encontrar tempo para conhecer a casa; Viva!
    Abraços.
    Dalmo

  10. Joaquim Says:

    Alhos ,muito bom o texto e perfeitamente compreensível ,há lugares que nos marcam indelevelmente.Este é o ano de Benny Novak,se vc quiser alguém competente ele não serve ,ele é competente demais.

  11. alhos Says:

    Dalmo,
    obrigado.
    Vá, sim.
    Abraços!

    Joaquim,
    obrigado.
    Benny Novak ganhou o prêmio de melhor restaurateur da Veja SP deste ano. Creio que foi bastante merecido. Frequento bastante as três casas e sei de sua qualidade e regularidade.
    Abraços!

  12. Jota Jota Says:

    Belíssimo texto, justamente por revelar a intensidade da relação de afeto do Alhos com o diner. E afeto nunca é demais!

  13. Bruno Says:

    Uma das coisas que mais gosto nos blogs é perceber como as pessoas têm opiniões diferentes.
    Conheço o apreço do Alhos pelo AK e agora vi que também gostou muito do 210 Diner.
    Eu tive a impressão exatamente oposta dos 2 lugares.
    O AK achei um lugar totalmente sem graça e a cozinha idem. A começar do ambiente gélido e pouco aconchegante. Em relação aos pratos, pedimos de entrada aquela sopa com umas bolas de massa dentro. Desculpem-me mas é assim que consigo descrever. Qualquer brodo simples preparado em casa é melhor do que aquilo. Para os pratos comemos massas, que se não decepcionaram também não mostraram nada demais.

    Em relação ao 210 Diner a sensação foi muito parecida. Quando soubemos (eu e a namorada) do lançamento da casa ficamos muito interessados em conhecer e fomos logo na semana de abertura. Todo aquele clima americano que tínhamos visto na descrição do Bicho, com pratos resgatando a originalidade americana não estiveram presente naquele dia.
    De entrada pedimos a batata assada e dois hamburgueres para os pratos. A batata estava Ok, apesar de já ter comido muito melhores nos EUA. Em relação ao hambúrguer ficou bem abaixo da média, um tanto quanto secos e o ponto da carne fora do pedido. De sobremesa pedimos o devil food que estva bem bom mas acompanhado de um sorvete de massa estilo Nestlé que congela no freezer.

    Enfim, o interessante é notar a pluralidade de opiniões e por que não uma possível evolução da casa (no caso do 210) que pode ter crescido em qualidade com o passar do tempo.

  14. alhos Says:

    Jota,
    obrigado.
    Tomara fosse mais intensamente partilhado, o afeto.
    Abraços!

    Bruno,
    tudo bem?
    Obrigado por seu comentário.
    Sugiro que retorne ao Diner, sim, num horário de menor movimento.
    Ao Ak da Mato Grosso infelizmente é impossível.
    De qualquer forma, em todas as casas ocorrem oscilações, perda de regularidade.
    Abraços!


  15. Olá,

    Meu nome é Ludmila Diniz, trabalho no departamento de Marketing do site Mundi, buscador de viagens especializado na comparação de preços de passagens aéreas e hotéis em mais de 30.000 destinos ao redor do mundo.

    Gostaríamos de convidar o site Alho e Passas, a participar do Mundinheiro. O Mundinheiro é o programa de afiliados que paga o maior valor por clique do segmento, até o dia 31/10 os valores pagos estrão em promoção (R$ 0,30 no Clique Hospedagem, R$ 0,20 no Clique Passagem), além de ser possível ganhar pelos dois tipos de clique de uma só vez.

    Dispomos de ferramentas exclusivas e de fácil personalização, que se encaixam em qualquer tipo de conteúdo e agregam ainda mais valor ao site do afiliado.

    Para saber mais acesse o link http://www.mundinheiro.com.br/

    Aguardamos o contato e estamos a disposição para eventuais dúvidas e esclarecimentos.

    Atenciosamente,

    Ludmila Diniz
    Equipe Mundinheiro

  16. Manoela Says:

    Oi!
    Me deixou com muita vontade de conhecer o 210 Diner. Já passei na frente várias vezes e nunca parei.. Agora vou TER que parar!rs

    Adorei o blog, voltarei mais vezes 🙂 Beijos

  17. alhos Says:

    Ludmila,
    tudo bem?
    Qualquer coisa, use o email alhospassas@uol.com.br
    Obrigado, abraços!

    Manoela,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Experimente, sim. No almoço é mais tranquilo e mais barato.
    Beijos!

  18. Daniela Says:

    Alhos, que delícia de post. A minha relação com o Diner é muito parecida com a sua e é um dos únicos lugares da cidade que os garçons sabem de cor o que gosto de pedir e de beber.
    Abraços,

  19. alhos Says:

    Dani,
    tudo bem?
    Bom, não é? estou, inclusive, chegando de lá: negroni, caesar salad, baby back ribs, waffle. Delícia.
    Beijos!

  20. cristiano Says:

    Macallan ? Single malt preferido de Mr. Neil Peart, Rush drummer.
    Estás em excelente companhia.

    Parabéns pelo site, blog, whatever… sou fiel seguidor !

    Abracos,

    Cris

  21. alhos Says:

    Cris,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Não sou bebedor de whisky. Descobri o Macallan recentemente, dica de uma amiga. Adorei.
    Abraços!


  22. […] tinha muita consciência do que era exatamente um restaurante tipo “diner” até ler o post Um diner para chamar de meu no “Alho, Passas & Maçãs”, um blog que ainda vou falar com mais calma por aqui. O lugar […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: