Lanterna aqui, ali

08/10/2010

 

Experiência é bom, experiência é tudo.

Nem sempre.

Às vezes, experiência é amarra. Lanterna na popa, disse Coleridge: ilumina o passado, obscurece o futuro.

Quando se trata de visitas a restaurantes, um outro olhar — ou outro mastigar? — pode cair bem e mudar a impressão ruim ou boa que uma casa deixou.

Eu já tinha ido antes ao Vito. E, confesso, saíra de lá decepcionado, incomodado, constrangido. Nada dera certo: da comida à, digamos, atitude do pessoal.

Semana passada decidi: anestesiei a má lembrança e fiz reserva lá.

Dispensamos o couvert para comermos mais do cardápio.

Como primeiro prato, minha mulher e eu dividimos um ‘ravioli aberto’ com recheio de rabada. Duas lâminas de massa de agrião, saborosa rabada no meio. Marcante, consistente.

Enquanto isso minha filha atacava (com medida violência) o fettuccine com queijo de cabra, tomate e manjericão — o azeite trufado era dispensável. Massa saborosa feita na casa, bons ingredientes. Passou com louvor pelo rigoroso controle de qualidade do paladar de onze anos — e também pelos paladares mais, como dizer?, experientes dos pais.

O prato principal foi comido com dois garfos no mesmo prato: o garçom alertara que não daria para dividi-lo na cozinha, colocaria o prato entre minha mulher e mim. Prime rib no ponto, um pouco mais rijo do que poderia ser, mas muito bom.

Duas sobremesas: pannacotta del cielo, que é boa, mesmo sendo terrena. Ótimo panforte.

Atendimento simpático, gentil, eficaz: exorcizou fantasmas passados. E carta de vinho honesta: 106 reais por um Tenuta delle Terre Nere 2008 (78 na importadora).

Pois é, não vale a pena cultivar desconfortos, acreditar que o passado é uno e definitivo. É possível sempre colocá-lo em xeque e, com jeito, girar a lanterna da experiência para a frente.

Vito

Rua Pascoal Vita, 329, Vila Beatriz, SP

tel.  11  3032 1469

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Vito


[ps. depois de ler um dos comentários, que dizia não haver azeite trufado no fettuccine, fiquei encafifado. Voltei ao restaurante, ouvi o garçom declamar o ingrediente entre os que compunham o prato, voltei a pedi-lo, comi novamente, chamei o maître e perguntei: ele confirmou que o fettuccine levava azeite trufado.]

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12 Respostas to “Lanterna aqui, ali”


  1. Muito bacana o seu blog, assim como seus posts. Estou lendo devagar, e estou gostando bastante. Também estou te seguindo no twitter. Um grande abraço!

  2. alhos Says:

    Rubens,
    obrigado pela leitura.
    E comente sempre que quiser.
    Abraços!

  3. tadzio Says:

    Seu Alhos!

    Bom vÊr posts com frequencia no blog.
    Muito bom!

    Abraços Tádzio.

    ps: Tu chegastes a lêr o post da Paola no blog do Julinho?
    *nem precisa publicar.

  4. Bruno Says:

    Alhos, tenho uma viagem marcada pra Las Vegas e queria saber se vocês têm alguma dica de restaurante por lá.
    Obrigado.
    Abs

  5. alhos Says:

    Tadzio,
    tudo bem?

    Obrigado.

    Li a carta da Paola Carosella, sim. Comentei com o Julio que não responderia, pois ela citou meu blog, mas não se dirigiu a mim.

    De qualquer forma, esclareço: concordo parcialmente com o que ela diz.

    Há algum tempo venho insistindo, em comentários pelo Twitter e em outros blogs – sobretudo no do Luis Américo -, que é necessário fazer uma discussão séria e ampla sobre preços de restaurantes. As comparações com preços de restaurantes estrangeiros podem ser enganosas. Os custos de manutenção aqui no Brasil (não só de restaurantes) são bastantes altos e envolvem aspectos complexos ligados à tributação, qualificação de mão de obra, legislação trabalhista – para ficar em três óbvios exemplos. Além disso, o significado cultural do ‘comer fora’ no Brasil é completamente diferente do que ocorre em países como França e Itália. Esse balanço, que é sociohistórico, precisa ser levado em conta em qualquer análise, pois gera custos para um restaurante brasileiro que uma casa francesa ou italiana média não tem (segurança, ampliação da brigada, aperfeiçoamento do serviço, etc.). Por isso, quando a Carosella elenca uma imensa quantidade de despesas, ela contribui muito, e fundamentalmente, para romper o mito de que comer fora no Brasil custa caro apenas porque o mercado está aquecido.

    Por outro lado, nada disso impede que eu continue achando o Arturito um restaurante caro. Recorro, para tanto, à comparação. Um jantar no Arturito tem o mesmo custo final de jantares em restaurantes como Gero, Maní, Amadeus, Parigi e Pomodori (nomes que me vêm imediatamente à cabeça). Nesses cinco lugares come-se pelo menos tão bem quanto no Arturito e em todos eles o serviço é substantivamente melhor (minha experiência de meia dúzia de visitas ao Arturito é de atendimento, no mínimo, desatento). Lembro (também sem parar para pensar muito) de seis casas em que se come tão bem quanto no Arturito, com melhor serviço e preço mais baixo: Tordesilhas, Brasil a gosto, Ici, Dalva & Dito, Marcel, Picchi. Acredito que todas essas casas (citei onze, de restaurateurs variados e com propostas e personalidades distintas) respeitam a legislação, cumprem suas obrigações fiscais, oferecem ingredientes de qualidade. Algumas delas, inclusive, estão localizadas em áreas mais valorizadas da cidade, o que implica aluguel mais alto, etc.

    De qualquer maneira, acho que o texto da Carosella (que é, sem dúvida, uma das melhores chefs em atividade em São Paulo e o prêmio de melhor chef que recebeu da Veja SP é em tudo merecidíssimo) foi fundamental para que o debate se alastre, ganhe corpo e fôlego e passe a ser desenvolvido de maneira sistemática. O fato de Julio tê-lo publicado igualmente merece louvor. Na hora que tivermos clareza de tudo que faz elevar os preços dos cardápios dos restaurantes brasileiros, todos ganharemos: restaurateurs, cozinheiros, funcionários de restaurantes, críticos e, sobretudo, clientes.

    Abraços!

  6. alhos Says:

    Bruno,
    tudo bem?
    Vou ficar lhe devendo esta: nunca fui a Las Vegas.
    Boa viagem, divirta-se e, depois, por favor dê as dicas.
    Abraços!

  7. tadzio Says:

    obrigado pela missiva 😀
    como eu estou completamente away do mundinho de SP não posso opinar muito, apesar de lêr quase tudo que cai na mão a respeito do mundinho gastrô na net e nas revistas que chegam aqui no MT.
    acho que tem ganância e tem tb muita afetação e press release no meio, mas tem coisa boa no cenário e acho que essa é a função dos blogueiros enquanto mídia de resposta rápida, ajudar a dar um chão para quem quer comer “bem” por um preço “razoavel”.
    E importante é achar um “crítico para chamar de seu” no caso alguém que tenha um gosto parecido com o teu.
    Eu não acompanho o twitter pq é muito rápido
    e muito interconectado para ficar acompanhando minuto a minuto.

    Abraço Tádzio

    ps: e aqui no interior do MT a restauração é abaixo da crítica e não menos caro p.. ca…. por isso cozinho em casa e pra fora 😀

  8. Sergio S. Says:

    Alhos, tudo bem?
    na sexta-feira passada fui ao Picchi, que você já citou (com comentários positivos).
    Noite de restaurantes cheios, inclusive nos arredores da casa. Mas, dentro dela, uma tranquilidade que contrastava com a vizinhança.
    Não acho que seja a resposta definitiva, mas com base na minha experiência o restaurante fica vazio porque muitos clientes vão e não creio que voltem. Eu mesmo não sei se volto.
    O lugar é caro. Em linha com outros? Sim, mas é caro. Sobre os vinhos, preços ok. Não cobraram rolha de 2 garrafas que levei, mas também consumimos outras 2 da carta, ao valor de 106 reais cada uma (fomos em 3 casais, e era aniversário de um amigo).
    Os pratos estavam gostosos, mas não mais do que isso. Comparado aos meus favoritos Tappo e Piseli (nessa ordem), ficou para trás. Aliás, a recomendação da noite (bacalhau) voltou a cozinha, porque estava ruim a ponto de meu amigo não conseguir comê-lo. Acabou não pedindo outra coisa, mas também tiveram a decência de não cobrá-lo (elogiável nesse aspecto, diga-se).
    O couvert é mesmo gostoso, mas ficou atrás de uma versão anterior daquele servido na Risotteria, que era fantástico. As sobremesas não empolgaram. A pêra ao vinho com gorgonzola foi encoberta pelo queijo. Esperava uma pasta do queijo, para “amansá-lo” um pouco. Não foi isso que veio, e ela ficou demasiadamente pesada.
    O serviço é um ponto positivo. Muito correto, atencioso e cuidadoso. Eis um dos grandes pontos positivos.
    Enfim, essa foi a minha experiência.
    Abs!

  9. alhos Says:

    Tadzio,
    tudo bem?
    De fato, acabou virando uma longa carta… rs
    Acho que há bons críticos gastronômicos hoje, pelo menos aqui em São Paulo. Acompanho menos a crítica feita em outros lugares.
    E os preços altos não são mesmo um fenômeno paulistano ou carioca. Recentemente, num restaurante de Salvador, paguei por uma garrafa de vinho mais do que custa a mesma garrafa (mesma safra, inclusive) no DOM.
    Abraços!

  10. alhos Says:

    Sergio,
    tudo bem?

    Obrigado pelo relato.

    Nunca comi bacalhau no Picchi. Gosto especialmente das massas e dos porcos de lá.

    É difícil descobrir o motivos de algumas casas conseguirem garantir a fidelidade da clientela e outras, não. A qualidade da comida pesa, claro, mas não é a única coisa.

    Eu, pelo menos, sempre busco, junto com a qualidade, a regularidade – itens que a Tappo e o Piselli, que você citou, sempre garantem.

    Isso pode, evidentemente, implicar uma cozinha que corra menos riscos, que seja menos inventiva. Sim, mas nem sempre estamos dispostos a correr riscos na hora do jantar, muito menos quando não somos informados de que há experimentos em curso na cozinha. rs

    Brincadeiras à parte, acho que o Picchi tem muitas qualidades que poderiam garantir seu sucesso – seu relato, inclusive, aponta algumas delas. Há, no entanto, outro tanto de características que o impedem de decolar – também nisso seu relato foi exemplar.

    Abraços!

  11. Andre Mifano Says:

    Caro Alhos.
    Não sou exatamente uma pessoa conectada, porém fui comunicado hoje do seu post e não pude resistir em lê-lo.
    Primeiro, gostaria de agradecer sua visita e dizer que fico muito feliz que desta vez tenha dado tudo certo.
    Só gostaria de fazer uma correção ao seu texto. O azeite que finaliza o fetuccine com queijo de cabra é extra virgem e não tem nada de trufas. Só temos dois pratos que levam azeite trufado, a polenta com ovo e a carne cruda.
    Mais uma vez muitíssimo obrigado pela visita e pelo espaço em seu blog.
    Atenciosamente,
    Andre Mifano
    Restaurante Vito

  12. alhos Says:

    André,
    obrigado por seu comentário e pelo esclarecimento.
    Desculpe-me, por favor, o erro.
    Abraços!

    [sobre tal esclarecimento, veja-se, por favor, um ps. colocado no post]


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