Bistronomique?

15/10/2010

 

Difícil não simpatizar com a onda de bistrôs que, de dois anos para cá, tomou São Paulo.

São casas simpáticas, têm serviço informal sem exageros, decoração que emula bistrôs parisienses. Em geral, foram bem recebidas pela crítica, que as considerou uma versão tupiniquim do ‘movimento’ bistronomique.

Confesso, porém, que ainda não entendi o lugar que elas assumirão no panorama da restauração paulistana — e nem entro no mérito se podem ser chamadas de bistrô, uma vez que seu cardápio é, na prática, um mix de tendências e ideias.

Esses restaurantes são de fato mais simples do que a maioria de nossos franceses. Possuem, em geral, opções razoáveis na carta de vinhos, o que também é bom.

Mas os preços não são tão diferentes quanto se propala: pratos na faixa de 40/50 reais. Ou seja, na mesma faixa da maioria dos bons restaurantes da cidade. E a comida servida é quase sempre irregular.

Um exemplo imediato: acabo de voltar do Le French Bazar.

Couvert razoável a preço razoável (7,50).

Coxa de pato no molho de vinho tinto e risoto de grãos e cogumelos — prato bastante semelhante ao de pelo menos outras duas casas. Macia, a carne. Acompanhamento pesado demais, com sabores marcantes. Molho fortíssimo, encobrindo o gosto do bicho. Ruim? Não. Mas bem desequilibrado. 49 reais.

A sobremesa parecia atraente: vol au vent ‘quente’ com creme gelado de banana da terra e castanha do Pará caramelada. Massa seca e fria. Creme pesado, pesado demais. 13 reais.

Tomei duas águas, nada de vinho ou café. Conta: 83,93, uma pessoa.

Em quantos restaurantes se come por esse preço em São Paulo? Muitos, e vários deles, bastante superiores.

Daí a dúvida: qual é exatamente a posição que os novos bistrôs assumirão? Se a ideia é abrir um novo espaço, ampliando o público pela redução de preços e pela diversificação do formato, muita coisa ainda precisa ser revista, ajustada.

Difícil não simpatizar com a nova onda. E difícil, também, não temer que ela possa cair na armadilha de não cumprir o papel que dela se espera e acomodar-se, tornando-se mais do mesmo que já temos. Tomara que não.

Le French Bazar

Rua Fradique Coutinho, 179, Pinheiros, São Paulo

tel.  11  3063 1809

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Le French Bazar


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27 Respostas to “Bistronomique?”

  1. Vitor Says:

    Sua experiência com o Le French Bazar é muito parecida com a minha no Blú Bistrô (Perdizes) – apesar do ambiente charmoso e do bom atendimento, a comida irregular e o preço salgado (para o que a casa parece propôr) me fazem preferir ir jantar em outros lugares.

  2. alhos Says:

    Vitor,
    tudo bem?
    Infelizmente ainda não fui ao Blú Bistrô.
    Como lembrou uma amiga, não se entendeu direito, nestas bandas, o sentido de bistronomique.
    Tomara se aprumem logo.
    Abraços!

  3. Semiramis Says:

    O que precisa ser revisto na maioria dos restaurantes de SP é a relação custo X benefício, dos valores caros ao atendimento ruim, com comida sem harmonia. Trágico.

  4. tadzio Says:

    Falta a “alma” bistronomique:
    Chefs muito bons mesmo.
    Custos “superfluos” reduzidos ao máximo.
    Brigada reduzida.
    Qualidade do insumo.
    Aproveitamento da devida sazoanlidade da coisa.
    E não só o visual.

    Pronto falei!
    Abs tádzio

  5. Julien Says:

    Fui 2 vezes no French Bazaar. A primeira foi decepcionante, e a segunda boa. Já ouviu varias vezes pessoas com os mesmos comentarios.

    Mas isso não é meu ponto, porque eu sei tamben como é difficil lidar um restaurante, e conseguir uma qualidade e um padrão, quando voce trabalha com funcionarios, fornecedores, que não tem esses padroes.

    Gostaria apenas confirmar sua ideia. Tem nada de bistrot nesses restaurantes, apenas a decoração. Os preços estão muito acima do que deveria ser. Comida boa não é unicamente comida cara. Vou jantar com minha esposa num restaurante ou nesses bistrot, e nunca reparei uma diferencia no fim do jantar na conta. Uma pena.

  6. alhos Says:

    Semiramis,
    tudo bem?
    É isso mesmo. Um jantar a preço alto que vale o que custa não é caro. O ruim e de baixo preço não é barato.
    No caso, a comida é mediana e tem preços dentro do padrão (alto) de nossos restaurantes. Resulta numa relação custo/benefício ruim.
    Abraços!

    Tadzio,
    tudo bem?
    Exatamente. Nada a acrescentar.
    Abraços!

    Julien,
    tudo bem?
    Concordo: a irregularidade da cozinha se manifesta em todas as casas, em maior ou menor grau.
    O problema é a crença de que esses novos bistrôs representem uma inovação no panorama gastronômico da cidade. Até agora não são, nem na comida nem nos preços. Tomara ainda se tornem isso que tantos querem ver neles.
    Abraços!

  7. tadzio Says:

    essa do padrão dos fornecedores…faça como
    o anthony bourdain devolva e xingue…MUITO.
    Funciona bem.

  8. eduardo Says:

    Viva o La Tartine!
    Honestíssimo!

  9. alhos Says:

    Tadzio,
    ele faz descarregar tudo e carregar de volta, né? rs
    Abraços!

    Eduardo,
    tudo bem?
    Boa lembrança: o Tartine se encaixa muito mais no modelo do que os novos bistrôs.
    Pessoalmente não gosto muito da comida de lá, mas não há qualquer dúvida quanto à fidelidade da casa à noção de bistrô simples.
    Abraços!

  10. gallo Says:

    Parabéms pelo blog. É meu comentário mas já acompanho faz um tempo.

    Pois domingo estive no Le Marais e minhas impressões foram bem parecidas. Sozinho, gastei 125 reais. Couvert, salada com chevre, boa, carre d’agneau com molho e sabor de alho se sobrepondo ao da carne no limite do suportável e uma garrafinha de água com gás. Serviço ruim, mas a cozinha estava super rápida e a execução seria ótima não fossem os erros do carre.

    Claro que de início, pelo cardápio, já se sabe aonde a conta vai chegar, porém isto não torna os preços razoáveis.

    Outra onda engraçada é destas “kebaberias”, estabelecimentos feitos por e para gente “legal” e muderna que considera “cool” pagar 20 reais por um Kebab, além dos 10%…

  11. tadzio Says:

    ele descarrega manda os caras embora e ai liga xingando para mandar outro caminhão buscar. 😀
    ABs Tádzio

  12. alhos Says:

    Gallo,
    obrigado!
    Creio que o Marais não pretende se encaixar na linha bistronomique. A proposta é mais ampla e ambiciosa. Resulta mais cara, também.
    Fui duas vezes lá. Comi algumas coisas boas, outras ruins e, em ambas as ocasiões, fui muito mal atendido. Espero que, na próxima, a má impressão se dilua.
    Curiosamente nunca fui a uma ‘kebaberia’. Passo diariamente defronte a uma que fica na mesma rua do Mestiço, mas nunca entrei lá. Tenho curiosidade de provar.
    Abraços!

    Tadzio,
    tudo bem?
    Verdade. rs
    Abraços!

  13. gallo Says:

    O atendimento foi bem ruim, desde que entrei – houve inclusive aquele constrangimento de ficar à porta esperando que algum funcionário percebesse minha presença e me levasse à mesa.

    Creio que a kebaberia a que se refere é a Kebabel, na Fernando de Albuquerque. Tem uma Kebabel na João Moura também, mais sossegada. Já utilizei o delivery. Não gostei de nenhuma das experiências. Em todo prato há algum erro – isto que é regularidade!

    Um abraço!

  14. alhos Says:

    Gallo,
    tudo bem?
    Essa mesmo. Um dia provarei – apesar da ‘regularidade’ em questão. rs
    Abraços!


  15. Ó, já acompanhava o seu blog e sempre gostei bastante. E acabei de colocar um link pra cá no meu blog. Abraços!

  16. alhos Says:

    Rubens,
    obrigado.
    Justa e honrosamente retribuído o link.
    Abraços!

  17. fernanda Says:

    Alhos, será que se os preços ficassem mais baixos as pessoas aceitariam um serviço mais informal?

  18. alhos Says:

    Fernanda,
    tudo bem?
    Não sei.
    A princípio, tenderia a supor que sim, que o preço é um critério definitivo na escolha.
    Mas há mais coisas no céu e na terra do que normalmente supomos. Uma delas, normalmente negligenciada, é o significado cultural que o programa ‘jantar fora’ assumiu nesses ares tupiniquins e que leva muitos a verem tal experiência como marcada por algum glamour e pela atenção especial de quem o serve – independentemente do lugar a que se vai.
    Além disso, nossa velha tradição patrimonialista ainda pesa na maneira dos comensais tratarem o serviço, exigindo, além do cumprimento da função, uma submissão que é também social – e tudo que vem junto: rapidez, agilidade, presença constante.
    Esses dois traços são facilmente notáveis quando observamos os comensais num restaurante – e você certamente tem mais experiência do que eu nesse assunto. Quantos agradecem ao garçom? Quantos olham para quem o serve e o tratam como igual? Quantos o destratam? Pelo que vejo aqui e ali, sinto uma persistência incômoda desse passado de grandes senhores que nos espreita.
    Seria interessante, de qualquer forma, ver uma experiência nesse sentido – até para que se possa avaliar a partir de casos concretos o peso dessa tradição e desses hábitos arcaicos.
    Abraços!


  19. O tratamento dispensado aos que servem, em qualquer área (sou funcionário público e sinto isso), remonta, ao que me parece, à herança colonialista, uma dicotomia que Darcy Ribeiro relata todos nós possuírmos, de opressor e oprimido, de membro da casa grande e da senzala, ao mesmo tempo. O serviço, com certeza, funciona melhor após chamar o garçom (que na maioria das vezes não é um menino, pelo nome. Um grande abraço! E obrigado pelo link no seu blog!!

  20. alhos Says:

    Rubens,
    tudo bem?
    Pois é, saímos do passado, mas o passado não sai de nós. O custo do passado colonial.
    Abraços!

  21. Fabio T. Says:

    Oi Alhos, a sua conta no restaurante foi praticamente o preco que paguei no La Regalade St. Honore na semana pasada(filial do La Regalade, precursor do movimento bistronomique) pelo menu completo: 33 euros, com servico incluido como ocorre em Paris. Servem gratuitamente uma terrine de frango, que vem no recipiente na qual ela eh feita e come-se o que quiser; eu e meus 2 amigos comemos quase metade… Existem algumas opcoes de entrada, nesse dia eu comi de entrada uma especie de tartine com atum semi-cru alhoporo e parmesao, com algumas folhas verdes acompanhando, um amigo comeu sopa de abobora com camaroes e o outro foie gras; minha primeira opcao teria sido coquilles sait-jacques, mas a garconete disse que durante o almoco havia tido grande saida e naquele horario em que jantavamos jah haviam terminado. Como prato principal comi um peixe (rouget) com risoto com lulas feito com sua tinta, um amigo comeu poitrine de porco e outro entrecote com pure. Finalmente de sobremesa, eu e um deles comemos um dos classicos de lah que foi o sufle GrandMarnier e outro o arroz doce com caramelo (que vem num pote gigante e serve-se a quantidade que quiser). Enfim, um desbunde por 33 euros. Dah para dizer que existe algo parecido aqui?
    Abracos,
    Fabio

  22. alhos Says:

    Fabio,
    tudo bem?
    Delícia, não?
    Para uma ótima refeição por cerca de 90 reais, mais o pourboire (calculo que uns 4 euros, inteirando cerca de 100 reais), acho que há algumas boas opções por aqui. Não são, porém, muitas – e certamente nenhum dos ‘bistrôs’ que brotaram nos últimos tempos.
    Os custos da restauração no Brasil, impulsionados pela legislação trabalhista e pelos inacreditáveis impostos, dificultam bastante a prática de preços ‘bistronômicos’.
    Aproveite bastante por aí!
    Abraços!

  23. chopp Says:

    É mais uma opção, já que Sampa tem espaço pra todos os tipos.

  24. Monica Says:

    Achei excepcional a Mercearia do Francês de Perdizes. Fiquei muito surpresa. Já havia feito algumas visitas à unidade de Higienópolis e achava que o ambiente era bem mais interessante do que a cozinha. Na unidade de Perdizes, provei dois pratos da carta inesquecíveis: um ratatuille com queijo de cabra e um Saint Perter com purê de mandioquinha. O menu executivo inclui entrada, prato principal e sobremesa a 35 reais. Os pratos, evidentemente, perdem um pouco em relação aos da carta, mas têm uma ótima relação custo X benefício.
    Outro bistrô que adoro é o L ´Aperô na Mourato Coelho. Um lugar sem muitas frescuras, mas que abusa de ingredientes fresquíssimos em suas saladas irresistíveis e enormes. Acho muito superior ao Le Jazz, mas estranhamente a imprensa fala sem parar do segundo. Tal fato não atrapalha em nada o sucesso do L´Aperô que vive cheio, tem ótimos preços e uma cozinha honesta. É inacreditável que alguém fique na fila ou faça reservas com antecedência para comer no Le Jazz… Só em São Paulo uma coisa dessas é possível.

  25. alhos Says:

    Monica,
    tudo bem?
    Não conheço a Mercearia do Francês de Perdizes. Fui à de Higienópolis três vezes e, em todas, tudo estava completamente sem gosto.
    Creio que por trás do sucesso (ou insucesso) de um restaurante haja muito mais do que a qualidade da comida. Fui uma vez ao L’Aperô e duas ao Le Jazz e não comi bem em nenhum dos dois lugares. Seguirei sua sugestão e voltarei ao L’Aperô logo.
    Abraços!

  26. Monica Says:

    Obrigada pelo retorno, Alho. Explicando melhor: no L´Aperô gostei especialmente de um prato servido apenas aos sábados. Legumes no ponto exato de cocção, lascas de bacalhau e frutos do mar com uma deliciosa maionese à base de alho. Não é excepcional, mas é bom. Em relação ao Le Jazz, realmente, todo aquele sucesso é espantoso diante do que se come lá. Fruto evidentemente de relações públicas e assessorias e algo mais.
    Já o Saint Peter que provei no Mercearia do Francês, em Perdizes, estava realmente muito bom. Só havia comido um Saint Peter tão bom no antigo Namesa. Meu marido havia provado o mesmo prato no dia anterior e teve impressão similar. Em relação à unidade de Higienópolis do Mercearia, acho muito gostosa para sentar e conversar, mas não me lembro de ter comido alguma coisa que valesse realmente à pena.

  27. alhos Says:

    Monica,
    tudo bem?
    Entendi.
    Acho que há, sim, muita propaganda direta e indireta de muitos restaurantes. Mas há também uma irregularidade monstruosa da maioria das casas, além do óbvio atendimento diferenciado que muitas dão para críticos e divulgadores. Uma pena.
    Abraços!


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