Viagem ao redor do passado

29/06/2011

 

Quando pequeno, raramente comia fora. Faltava dinheiro e faltava o hábito. Talvez quem não tenha vivido custe a acreditar, mas os tempos eram muito diferentes quarenta anos atrás.

 

Lembro, porém, de algumas refeições em restaurantes, principalmente com meu avô, homem digno e brincalhão que só pedia um prato: filé com fritas.

 

Na minha imaginação infantil, aquelas batatas — no estilo dos restaurantes antigos: gordas, duplamente fritas, em geral encharcadas — eram o melhor que uma cozinha profissional podia oferecer. Deve ser por isso que, ainda hoje, quando as encontro, como com uma voracidade que ignora sua duvidosa qualidade.

 

Meu avô adorava o Dinho’s Place. Ficava a dois quarteirões de sua casa e ir lá era um evento todo especial, um dia ‘formidável’ — palavra que ele gostava de usar e, fora o Ulysses Guimarães, seu conterrâneo, nunca ouvi alguém empregar com tanta adequação.

 

Mudaram-se os tempos, mudaram-se os paladares.

 

Desde que meu avô morreu — há quase trinta anos — voltei poucas vezes ao Dinho’s. Se meu cálculo está certo, três.

 

Sábado passado combinamos que no dia seguinte almoçaríamos lá.

 

Acordei cedo, domingo, pensando em meu avô. Lembrei de meia dúzia de episódios familiares, fiquei matutando neles. Armadilhas da memória.

 

Atravessamos a porta do restaurante às 13. Enquanto olhávamos o cardápio, o pianista começou a tocar Dindi. Definitivamente os anos 60 — ou os 70 da minha infância, na gravação da Maysa — estavam presentes, vivos. A música prosseguiu com Strangers in the night e nós, estranhos ao presente, optamos pelo bufê.

 

Nas duas horas que ficamos lá a decoração atualizada não impediu que a sensação fosse de uma viagem no tempo: senhoras e senhores de cabelos brancos, famílias inteiras no clássico almoço de domingo ignoravam a Parada Gay que seguia a poucos metros e mostrava que o século XXI já  começara.

 

A comida? Razoável, mas nem chegava perto das boas casas de carne de hoje. Que importa? Meu itinerário era de outra ordem, melancólico, íntimo, saudosista.

 

Saímos andando sob a chuva fina e me lembrei de uma frase de Faulkner, que diz que o passado não passa.

 

Dinho’s Place

Alameda Santos, 45, Paraíso, São Paulo

tel.  11 3016 5333

 

 

15 Respostas to “Viagem ao redor do passado”

  1. Teresa Chaves Says:

    Muito bonito… A memória e a imaginação às vezes são mesmo mais importantes que a realidade.

  2. kaki Says:

    Almoços de domingo com o avô…podia ser no Dinho’s, no Don Fabrizio em ocasiões especiais,em tantos outros de uma geração de restaurantes, que como nossos avós, habitam nossas memórias.
    Com certeza em algum deles já nos encontramos, em dias passados.
    Lindo post.
    Abçs

  3. Marco Antonio Cunha Says:

    Filé com fritas. Esse é o melhor prata da época. Era “chic”, ou nos dias de hoje “style”. Acontecia o mesmo comigo. Meu pai nos levava ao restaurante e sempre filé com fritas.
    Já que estamos nostálgicos. Lembra-se que nessa época não existia misto quente. Pedíamos bauru sem tomate, e um refrigerante gelado e outro sem gelo. Para misturar e não fazer mal a garganta.
    Ah, saudades ….

  4. Daniela Says:

    Belíssimo post que me fez recordar dos meus avós ( quanta saudade sinto deles).
    Meu avô paterno adorava o Tatini e sempre que vou até lá lembro dos nossos almoços e do quão eu ficava encantada com o garçom flambado o crepe suzete no salão. O outro gostava muito do Pandoro e do Esplanada Grill. Obrigada por me trazer tão boas lembranças com seu post.

  5. joana Says:

    Bonito, Alhos!

  6. Semiramis Says:

    É… voltar no tempo vale mais que qualquer prato…

  7. alhos Says:

    Teresa,
    obrigado.
    Muitas vezes são mesmo.
    Beijos!

    Kaki,
    obrigado.
    Verdade: Don Fabrizio. E tinha também O gato que ri, lá no Arouche, para comprar massas.
    Abraços!

    Marco,
    tudo bem?
    Não me lembrava da inexistência do misto. Gozado.
    Abraços!

    Dani,
    obrigado.
    Memórias são melhores do que muitos pratos completos, né?
    Beijos!

    Joana,
    obrigado.
    Beijos!

    Semiramis,
    muito mais, muito mesmo.
    Beijos!

  8. Luis Says:

    Rsrs, fritas grossas e encharcadas, até você tem sua fraqueza pra alguma porcaria. Mas a memória é mesmo um ótimo tempero. Sem falar que fritas tradicionais estão difíceis de encontrar, o congelado domina. Será que estamos fadados ao fim da diversidade do sabor? De mangas, limões, etc, quantas variedades que se via antes e hoje nem sombra. Ok, temos novidades, mas parece que boa parte vem de fora e esquecemos do que temos ou tinhamos. Até sua extinção. E a nossa.

  9. alhos Says:

    Luis,
    tudo bem?
    Desculpe-me a demora na liberação do comentário. Não chegou email de aviso e só vi hoje.
    Como de tudo, incluindo diversas bobagens. É mesmo uma pena que tantos lugares tenham trocado as batatas frescas pelas congeladas.
    E concordo: a memória nos assegura a persistência.
    Abraços!


  10. muito bom mesmo, Alhos. Aqui no Rio a infância lembra o La Mole, o Capela, a Taberna da Glória. Grande abraço.

  11. Verena Says:

    Adorei seu texto, não conhecia o blog e cheguei através do Facebook.
    Adoro refeições cheias de memórias e histórias, isso é que são as delícias da vida!
    Seu avô era de Rio Claro? Também nasci lá, apesar de hoje ser do mundo, já morei em tantos locais…
    Um abraço!

  12. alhos Says:

    Eugenia,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Lugares que ficam.
    Abraços!

    Verena,
    tudo bem?
    Sim, meu avô era de Rio Claro, ‘cidade azul’. Veio para São Paulo muito jovem e aqui se casou com uma moça também de lá, em 1924. Infelizmente não conheço Rio Claro.
    Abraços!

  13. Paula R. Says:

    Olá! Sempre entro ler seus textos. A maioria dos lugares presumo que não conseguirei conhecer, mas lê-los aguça muito a imaginação. A boa prosa também está nesse que fala de seu avô.
    Decidi deixar um comentário simples como “Paladar é memória!”, quando descobri que seu avô era de Rio Claro – assim como eu. Achei que a coincidência merecia umas linhas a mais.
    Moro em SP há 10 anos, ms volto pra lá com certa frequência, pois meus pais ainda moram na cidade azul. E é lá que estão os clássicos da minha infância.

    Abs e parabéns pelo blog novamente.

  14. eduluz Says:

    Perfeito o texto. Em alguns momentos a pretensa qualidade da comida passa a ser um acessório.
    E por falar em Comida, qual é a daquele caderno gastronômico?
    Abs.

  15. alhos Says:

    Paula,
    obrigado!
    Um dia ainda conhecerei Rio Claro…
    Abraços!

    Edu,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Acho que o ‘Comida” ainda precisa dizer a que veio – fora, obviamente, concorrer com o ‘Paladar’.
    Me incomoda, no suplemento, sobretudo a baixa qualidade de escrita de muitos textos. Fico na torcida para que acertem logo o rumo e o texto.
    Abraços!


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