De tapas e modas

22/08/2011

 

O Brasil é um país curioso. No mundo das comidas, inclusive.

Uma das novidades recentes (‘recentes’ já de uns bons anos, diga-se de passagem) é a crescente hispanofilia.

Claro que ela não é só nossa. Do sucesso — sobretudo midiático — do Bulli à recorrência das tapas nos cardápios, uma parte significativa do Ocidente passou a flertar com a Espanha.

Aqui, porém, essa paixão culinária ganhou contornos peculiares. Trata-se, afinal, de um país apaixonado por modas, capaz de incorporar quase tudo sem mudar quase nada no panorama interno.

As tapas estão na crista da onda? Vamos servi-las! Sem, no entanto, alterar os rituais chiques dos restaurantes. Que sejam levadas à mesa por garçons que chamam os clientes de ‘doutor’ e que repetem o ritual rigoroso do serviço à francesa. Que custem o preço de um prato normal ou componham longas, cerimoniosas e caras degustações.

O paradoxo é visível, sobretudo, num restaurante do porte do Arola 23.

Lugar bonito, com vista linda, embora o desenho da São Paulo noturna não seja tão acessível quando se está sentado: a distância da janela, as colunas e barreiras entre mesas limitam o olhar do comensal.

A degustação começou com um bom presunto cru, uma delicada e agradável salada Cesar e um ‘duo’ de foie — bombom com gelatina dura demais e mousse com redução de Porto.

Em seguida, boas batatas bravas com aioli, pupunha com molho de castanhas e tomates e bolinhos de bacalhau. As batatas reapareceram, pouco depois, como acompanhamento do polvo.

O lombo de bacalhau na cama de espinafre chegou macio, no ponto, mas abafado pelo sabor forte, exagerado, da cebola roxa que o ladeava. O purê de cogumelos que acompanhava o Kobe beef também se impunha, deixando a carne e a cebola glaceada em segundo plano. Nos dois casos, faltava equilíbrio ao prato.

Boas sobremesas: sorbet de morango e suflê de chocolate com sorvete de coco.

Tomamos um espumante da cara carta de vinhos e água — talvez duas ou três garrafinhas; certamente não as seis que foram cobradas na conta final.

Para fechar a refeição, outra nota estapafúrdia. Minha mulher aceitou o chá de hortelã que lhe foi oferecido. Para nossa surpresa, veio à mesa um saquinho de Mate Leão. Não foi tocado, claro. Ninguém perguntou o motivo e a cobrança (dez reais) apareceu normalmente na conta.

Jantar ruim? Não. Alternou pratos bons e medianos. Só que nem de longe valeu o preço (cerca de 850 reais, duas pessoas, com vinho de aproximadamente 150).

Descemos o elevador nos entreolhando, certos de que havíamos jantado num restaurante espanhol tipicamente brasileiro. Que a Espanha manifestara, mais uma vez, sua forte presença no imaginário gastronômico nacional. Que nosso país confirmava, como sempre, sua capacidade de tropicalizar o que lhe aparecesse na frente.

E isso não é exatamente um elogio.

Arola 23

Alameda Santos, 1437, Jardim Paulista, SP

tel. 11 3146 5923


20 Respostas to “De tapas e modas”

  1. Jose Luiz Says:

    Não acredito que vocês caíram no conto do Arola… Me peguei rindo da metade para o final do texto. Desculpem, não consegui me controlar. Abraços!


  2. Alhos,

    Bom restaurante, mas mto caro …

    Comi o degustacao com 5 tapas, o prato principal, que na ocasiao era paleta de javali, veio frio … mas estava bom

    por falar em temperatura, ja experimentou kobe beef cru ? pois eu ja em forma de sashimi ! e foi uma das melhores coisas que ja comi !

    att

  3. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Por este preço será que não compensaria comer na Espanha?

  4. milena Says:

    Alhos,

    Sempre leio seu posts e aprecio muito. Nunca deixei nenhum comentário, talvez procurando o momento certo e nesse post senti essa necessidade. Amo muito gastronomia e costumo frequentar os restaurantes de São Paulo, mas ultimamente tenho dado uma pausa nessas frequentes idas, algumas vezes surpreendentes e muitas decepcionantes, aos restaurantes. Estou indignada com os preços praticados nesses estabelecimentos, sei que o aconchego e principalmente a qualidade dos ingredientes contribuem para que isso ocorra, mas francamente já somos classificados como um dos lugares mais caros do mundo! Será que realmente os preços deveriam ser tão altos assim? Com toda certeza não, podemos tomar o belo exemplo do restaurante “Mocotó”, que oferece pratos de excelente qualidade a preços mais do que corretos. Que pena que os proprietários de alguns restaurantes ainda não perceberam isto. Nesta sua ida ao “Arola”, me pareceu que o preço estava muito além da qualidade e com certeza uma conta de R$ 850,00 chega a ser um absurdo. “Qualidade e preço justo” deveriam fazer parte de todos os debates e palestras sobre gastronomia.

  5. alhos Says:

    José Luiz,
    tudo bem?
    Não acho que seja um “conto”. Mas a comida nem de longe corresponde ao que se espera e ao que se paga.
    Abraços!

    Raphael,
    tudo bem?
    Achei razoável, não bom. E determinados erros – como seu javali frio ou os pratos totalmente desequilibrados que comi – são inaceitáveis num restaurante desse padrão.
    Provei kobe cru no Jun Sakamoto. Delicioso.
    Abraços!

    Ricardo,
    quase, quase…
    Abraços!

    Milena,
    tudo bem?
    Muito obrigado por seu comentário.
    O Brasil é um país bastante caro atualmente em quase todos os campos e creio que vários fatores contribuem, em especial a brutal carga de impostos e a anacrônica legislação trabalhista. Em muitas casas, também, a margem de lucro parece especialmente alta.
    O custo dessa refeição no Arola (até onde vejo) só é equivalente, em SP, a uma degustação no DOM – evidentemente muito superior na qualidade.
    Concordo com você: preço absurdo, evidentemente, como ocorre em diversos outros restaurantes.
    Abraços!

  6. Fabio Arthur Says:

    Creio que está virando “moda” o famoso truque da água. O Luiz Américo escreveu, há algum tempo, no Caderno Paladar de O Estado de S.Paulo o mesmo tipo de problema no Pomodori… Mas os absurdos mais graves, a meu ver, foram o chá de saquinho(!) e o preço da conta.

  7. Eduardo Says:

    Alhos,

    Também cai no conto desse Arola, logo depois que abriu. A maior parte dos pratos que comi estava só ok e tudo parecia bem datado, até um pouco brega. Contudo, o preço era de DOM, Jun Sakamoto, Le Bernardin… O truque da água é o fim da picada, eles servem e trazem sem parar e depois você percebe o engodo, porque o que cobram por cada garrafinha é inacreditável. Eu não volto nunca mais…
    Abs

    Eduardo


  8. Alhos,
    Se surpreenda com um lugar muito barato!!! Vá ao Aska!!!
    O Que Bicho me Mordeu não me deixa mentir… é baratíssimo, mas só pra vcs que moramn em SP. Pra mim, que moro em Curitiba, é somente delicioso!!! Pois com passagem aérea e hospedagem deve ficar pelo preço do Arola…
    Abs,
    Fernanda Garcia

  9. Sergio S. Says:

    Alhos,
    vou ficar no lugar comum aqui. Não tem como não se espantar com o preço, ainda mais com a falta de excelência nos pratos e no serviço. Sugiro que sua próxima refeição seja em um dos (poucos) porto-seguros que temos. Quem sabe isso contrabalance a experiência no Arola 23.
    Abs

  10. alhos Says:

    Fabio,
    tudo bem?
    Verdade. Alguns restaurantes têm essa prática desagradável.
    O chá.. Bom, deixa para lá.
    Abraços!

    Eduardo,
    tudo bem?
    O preço que paguei no Arola é superior ao de um jantar no Jun ou no Bernardin. Incrível, não é?
    Abraços!

    Comida e algo mais,
    tudo bem?
    Vou raramente ao Aska. Gosto do gyoza de lá e de fato é barato. Mas lamen não está na lista de meus pratos preferidos.
    Abraços!

    Sergio,
    tudo bem?
    Esse jantar que relatei foi no dia 21de junho. De lá para cá, felizmente fiz refeições bem melhores e mais baratas.
    Ainda farei uma lista dos “portos-seguros”. Calculo que sejam uns vinte em São Paulo.
    Abraços!

  11. apj Says:

    Faz dois anos que não vou ao Brasil. Estou sem noção nenhuma de preços, mas R$850,00 me assutaram!!!
    Adoro o teu blog!
    Abraços

  12. Vânia Says:

    Olá!

    Tudo bem?

    Em primeiro lugar, parabéns pelo blog!

    Além de blogueira, trabalho em um site que é um guia on line e estamos com um programa de patrocínio para blogs como o seu!

    Poderiam entrar em contato para falarmos a respeito?

    No aguardo,

    Abraços,

    Vânia

    vaniamariagarcia@hotmail.com

  13. Fábio Says:

    alhos,
    fico triste em saber que você teve uma desagradável experiência no Arola, mas eu teria ficado muito mais surpreso se a sua opinião fosse outra.
    mas fique tranqüilo, alhos! Você não foi o único a gastar uma nota no Arola e não receber o condizente em troca! Aliás, acho que comi muito, mas muito pior no Eñe. Fico no aguardo para uma sugestão de um bom restaurante espanhol..

    ah, estou curioso para conhecer sua lista dos “porto-seguros”. Para mim, o restaurante perfeito da cidade teria o ambiente do Gero (às vezes fico pelo menos uns 10 minutos encarando aquela foto do Marlon), o menu do Parigi/Pomodori e a clientela do Ici.

    abs!

  14. Aristóteles Says:

    É por isso que o Epice é um oasis em SP!

    Abs

  15. alhos Says:

    Apj,
    tudo bem?
    As coisas estão bastante caras por aqui, e não apenas nos restaurantes.
    Mas esse valor é excessivo mesmo para os altos padrões locais.
    Com meia dúzia de exceções (para mais), é possível fazer uma boa refeição, sem vinho, em SP por cerca de 120/pessoas. Caro, claro, mas bem abaixo desses absurdos 850.
    Abraços!

    Vânia,
    tudo bem?
    Meu email é alhospassas@uol.com.br
    Abraços!

    Fábio,
    tudo bem?
    Já fiz boas refeições e péssimas refeições no Eñe.
    Na verdade, apesar de toda a moda hispanófila, não acho que tenhamos um belo restaurante espanhol em SP.
    Gero, Parigi, Ici também estão entre os meus preferidos. Farei a lista, sim.
    Abraços!

    Aristóteles,,
    tudo bem?
    O Epice é mesmo um bom e promissor restaurante. Não chego (ainda) a incluí-lo na lista dos dez ou quinze melhores da cidade, mas não tenho dúvida de que, em breve, estará nela.
    Abraços!

  16. Cadoria2@gmail.com Says:

    Alhos,
    lendo seu relato eu consideraria o jantar ruim. Muito ruim.

    abraços

    Dória

  17. eduluz Says:

    Alhos, também fomos lá e também achamos uma tremenda roubada (literalmente).
    E pior, o ambiente é muito feio. Antigão, mal acabado e escuro demais!
    Enfim, o preço é de Mugaritz!!
    Ê, São Paulo!
    Só uma coisa: estava cheio?

  18. alhos Says:

    Dória,
    tudo bem?
    Não. Tendo sempre a fazer análises que separem mesmo as partem. E houve partes boas.
    Abraços!

    Edu,
    tudo bem?
    Não acho feio. Escuro, sem dúvida, e creio que desperdiçaram parcialmente a bela vista que poderiam oferecer (com as colunas e o distanciamento da mesa em relação à janela).
    Boa ocupação: cerca de 60% numa terça feira.
    Abraços!

  19. Bruno Says:

    Arola Vintetres é oficialmente a maior enganação de São Paulo. Por incrível que pareça, fui três vezes a ele, a primeira para conhecer, quando me decepcionei muito com a comida (três pratos horríveis, que nem consegui comer direito, uma sobremesa boa, mas caríssima, e as supervalorizadas batatas bravas, que passam). Apesar disso, voltei outras duas, não exatamente por minha vontade, mas por estar acompanhando uma pessoa. Na última, sentamos já tarde para comer dois tapas e conversar um pouco. Como não tinhamos tempo o suficiente para sermos devidamente extorquidos, usaram o golpe da água. Foram enchidas 2 taças e cobradas nada menos que seis águas! Reclamei, o garçom/maitre resmungou algo com cara de c* e atualizou a conta para duas águas.

    Nada me incomoda mais em um restaurante que ter que ficar prestando atenção em possíveis golpes. Infelizmente o Arola é campeão no quesito safadeza, além de ter uma comida bem meia boca.

  20. alhos Says:

    Bruno,
    tudo bem?
    Desculpe-me a demora na liberação do comentário. Estava viajando.
    Não acho que haja má fé, mas um sistema que acaba por burocratizar o serviço e o torna caro demais.
    Abraços!


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