Da vida

22/10/2011

Quase no final de “Manhattan”, Isaac —o personagem de Woody Allen— deita-se no sofá e, gravador em punho, começa a listar as coisas pelas quais a vida merece ser vivida.

A cena parece ser simples, mas não é. Tampouco é fácil montar a lista, embora alguns dos itens soem prosaicos, quase banais.

E assim a tensão entre a simplicidade da resposta e a complexidade da pergunta —o dilema existencial por excelência— transforma o rápido monólogo em uma das passagens mais líricas do cinema.

É provável que você, leitor, já tenha se feito a mesma pergunta. Eu me fiz, claro. Várias vezes. E como ainda espero viver muito —no mínimo, o dobro do que já vivi—, sei que ainda a refarei. O próprio filme de Woody Allen, aliás, é item fixo da minha lista.

Pois desde a semana passada uma refeição passou a fazer parte dos motivos que justificam meus 47 anos —no geral, felizes, mas, humano entre humanos, também marcados, aqui e ali, por horas difíceis.

Os primeiros indícios de uma noite linda vieram com o pão crocante, a manteiga, o mandiopã, o salaminho artesanal do Sul, as gougères de Gruyère: petiscos que antecediam o menu de nove tempos do restaurante de Roberta Sudbrack.

Durante cerca de três horas e meia, comi a incrível canjiquinha de milho com ovas, o aspargo branco e seu caramelo, o delicado tataki de atum, o preciso ravioli de abóbora, a crocante pele de milho com foie gras ralado e semente de figo, o afinado trio queijo-kinkan-broa de milho, o delicado sorbet de goiaba.

Um vermelho —com lentilhas e azeite— que me deixou azul de alegria. O melhor cordeiro que me lembro de ter provado. O melhor mil folhas, dentre as centenas que já comi.

Tudo simples e tudo complexo.

Simplicidade, afinal, inclui gesto amplo, lentidão. Transforma o banal em profundo.

Simplicidade, afinal, é sempre sofisticada, nunca imediata ou grosseira.

Por tudo isso e muito mais, jantar assim é uma das coisas pelas quais a vida merece ser vivida.

 

 

Roberta Sudbrack

Rua Lineu de Paula Machado, 916, Jardim Botânico, RJ

tel.  21  3874 0139

10 Respostas to “Da vida”

  1. Aristóteles Says:

    Eu estive pela primeria vez no Roberta Sudbrack mês passado e experimentei o menu completo. Foi uma das melhores refeições da minha vida. Simples.

    Posso dizer também que a carta de vinhos é excelente, fugindo da mesmice que costumamos ver e a preços excelentes.

  2. Luiz Henrique Says:

    Que belo texto !
    Em próxima visita ao RJ tentarei ir ao restaurante dela !
    Já imaginei até os vinhos possíveis para acompanhar esses pratos !
    Muito bom !
    Abraço !


  3. Alhos, mais um texto seu que me arrepia.
    A sequência de Manhattan que você menciona é das coisas que mais me comovem na vida. Já vi e revi algumas vezes e pretendo fazê-lo muitas mais. Porque o gênio de Woody Allen e a música de Gershwin merecem ser revisitados sempre. Como o restaurante de Roberta Sudbrack.
    Só não perddo ter vindo ao Rio e eu nem ter sabido, viu? Pensando seriamente se lhe dou um bolo na segunda-feira ; )

  4. alhos Says:

    Aristóteles,
    tudo bem?
    Gosto da carta de vinhos também.
    Fui duas vezes lá e, em ambas, saí muito satisfeito. Uma maravilha.
    Abraços!

    Luiz,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Vá, sim.
    E aproveite os vinhos.
    Abraços!

    Constance,
    obrigado.
    E me desculpe, menina…
    Pensei avisá-la que estava aí, mas a correria foi tanta que não daria nem para tomarmos um café. Além disso, dessa vez não fiquei no Leblon. Na próxima prometo que não falho.
    E, por favor, nada de bolo na segunda. rs
    “Manhattan” é, desde que o vi no cinema, em 79, meu filme favorito. E essa sequência, uma das mais lindas.
    Beijos!

  5. Semiramis Says:

    Realmente, listar as coisas que merecem ser vividas é muito difícil. Conhecer um determinado lugar, ver aquele show, ler um livro… e é claro, uma bela refeição… são coisas que devem e merecem ser vividas sim!

  6. alhos Says:

    Semiramis,
    tudo bem?
    Sempre, sempre.
    Abraços!

  7. Anderson Says:

    Parabéns pelo texto. Seu blog é leitura obrigatória para mim. Não fique tanto tempo sem atualizá-lo rs.

    Abraços.

  8. alhos Says:

    Anderson,
    tudo bem?
    Obrigado.
    É que os dias andam corridos…
    Abraços!


  9. Alhos, quando li “pão, manteiga e mandiopã” logo vi que a noite feliz tinha sido na Roberta. Realmente, um lugar maravilhoso! Volte sempre ao Rio! Grande abraço.

  10. alhos Says:

    Eugenia,
    espero voltar, sim. Adoro o Rio.
    Abraços!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: