Tiradentes

03/02/2012

Tiradentes se tornou, desde o ano passado, meu lugar favorito. É pequena, delicada (de quantas cidades no mundo se pode dizer que é delicada? Pois então, Tiradentes é), bonita, tem comidas boas, ruas de pedra, silêncio, pouca coisa para fazer, além de andar e ler, ler, ler. Enfim, um lugar ideal.

Fui lá pela primeira vez, no início de 2011; voltei no fim do ano, vi nascer 2012 na praça central. Onze dias. Pouco, quase nada. Mas tão bom.

Poderia falar, aqui, do lindo concerto de Elisa Freixo, no órgão da Matriz de Santo Antônio, ou da quantidade de anjos que há em cada altar dessa igreja maravilhosa —minha filha e eu nos divertimos contando, numa das várias visitas.

Poderia falar que finalmente comprei o oratório que tanto queria e que agora está aqui, na mesa do meu escritório, com imagens em madeira, muito bem talhadas, de Santo Antônio e São Francisco de Assis, a me espreitar e proteger.

Poderia também esclarecer que, não, não sou um sujeito religioso, mas adoro ficar dentro de igrejas —as que valem a pena, claro— e adoro imagens de santos.

Poderia, ainda, dizer que queria mesmo era mudar para lá e só andar a pé.

Poderia, afinal, dizer que sim, tem um monte de cachaças bacanas por lá, mas não, não bebo cachaça, não entendo de cachaça e até experimentei uma ou outra, cheguei a gostar, mas continuo mais amigo do vinho, do whisky e, de um ano e pouco para cá, do gim.

Mas vou falar mesmo que nenhum restaurante que conheci dessa vez chegou aos pés dos meus dois lugares favoritos, escolhidos no início de 2011 e revisitados mais de uma vez agora: a Estalagem do Sabor e o Conto de réis —bar que eu queria do lado da minha casa. Falarei deles em outro texto, juntamente com o curioso Casa Azul, “bistrô latino”.

Vou também contar que não voltei ao caríssimo e ligeiramente decepcionante Theatro da Villa, que me assustou com a conta no ano passado. E que ainda não foi dessa vez que conheci o controverso Santíssima Gula, que uns amam e outros odeiam.

Vou dizer apenas que o Pau de Angu, tão celebrado, é um lugar lindo de morrer, numa fazenda gostosa com vista para a serra, mas sua comida… Bem, se não chega a decepcionar, tampouco empolga. O torresmo e a mandioca frita eram corretos; a costelinha, agradável; o lombo, bom.

Os acompanhamentos, no entanto, derrapavam —exceção feita à couve: batatas (com alecrim) e tutu inexpressivos, feijão tropeiro à beira do azedume (avisamos a garçonete, que não deu retorno). Valeu a pena pelo lugar, deixou dívida e dúvidas quanto à comida.

Já o Via Destra, italiano, decepcionou nos pratos de… massa. O ravióli de bacalhau (molho de azeite, alho e ervas) trazia recheio denso e compacto demais, continha desnecessária farinha. Melhor o torteloni de mussarela e manjericão no molho de azeite e sálvia. Os dois pratos eram exceções no cardápio compostos basicamente por massas secas —Barilla, informou o garçom. O penne trazia molho branco bastante pesado com funghi porcini. Os preços —entre 50 e 60 e poucos— são obviamente exagerados.

Estávamos prontos para ir embora, dispensando a sobremesa, quando o garçom insistiu para que provássemos a pannacotta. Trocamos olhares ressabiados, mas aceitamos a sugestão. E ocorreu a improvável surpresa de comer uma das melhores já provadas ao sul do Equador. Consistência perfeita, saborosa, suave e leve. Incrível.

O que deveria ser o melhor jantar da viagem aconteceu no Tragaluz. Aniversário de minha mulher, expectativa por um dos restaurantes mais elogiados da cidade. Salão bonito, inteligentemente organizado, recheado de referências religiosas que não entendi muito bem —uma religiosidade difusa, expressa em incontáveis crucifixos e talvez significada no próprio nome da casa. Cardápio cheio de bossa, casos e histórias, que o cliente, se quiser, pode até comprar.

O “lombo crocante” —filé de porco envolto em crosta de parmesão e alecrim— veio acompanhado pelo melhor da noite: um purê de abóbora homogêneo e saboroso. Além do purê, abacaxi grelhado e espetinho de quiabo. A “pintada tragaluz”, especialidade da casa, é uma galinha d’angola em molho amadeirado, com ravióli de abóbora.

Nos dois casos, bons ingredientes e boas ideias traduzidos em execuções que exageravam nos temperos e encobriam parte dos sabores que os pratos podiam oferecer. A crosta do lombo, com imensa quantidade de alecrim, se sobrepunha a todo o resto. O molho da galinha, igualmente fortíssimo, deixava o gosto da ave bem longe do paladar. Comida ruim? Nem de longe, mas inferior ao que poderia ser se a cozinha se contivesse um pouco.

Fora isso, comemos em alguns lugares esquecíveis e já quase esquecidos. Melhor deixar para lá, por exemplo, o péssimo bife a cavalo do Mandalun: carne rija com forte gosto de sangue, ovos esturricados. Mais de 80% deixados no prato sem que ninguém tivesse a curiosidade de saber o motivo.

No fim das contas, a verdade é que Tiradentes não é lugar só para comer; é cidade para se visitar e —quem sabe um dia?— morar. Nesse dia, inclusive, talvez o tempo ande mais lento, os dias corram menos apressados e nunca mais eu passe quase dois meses sem atualizar o blog…

Pau de Angu

Estrada Real Tiradentes-Bichinho, marco 3, Tiradentes, MG

tel.  32  9948 1692

Via Destra

Rua Direita, 45, Tiradentes, MG

tel.  32  3355 1906

Tragaluz

Rua Direita, 52, Tiradentes, MG

tel.  32  3355 1424

21 Respostas to “Tiradentes”

  1. Ane Tiepolo Says:

    Putz, Pau de Angu além de ruim quando eu fui tinha cabelo na comida.
    Via Destra dei sorte, tinha um boa bisteca alla fiorentina. Tiradentes é muito agradável mesmo.

  2. alhos Says:

    Ane,
    tudo bem?
    Só comi as massas, medianas, no Via Destra. E a surpreendente pannacotta. Não provei as carnes.
    Um horror cabelo na comida. Só encontrei uma vez, num restaurante relativamente prestigiado daqui de SP. Informei ao garçom, que não deu bola. Paguei a conta e informei ao dono do restaurante, que estava no caixa. Ouvi a seguinte resposta: “Isso é normal, pode acontecer em qualquer lugar. Se o senhor não quiser que aconteça, tem que ir ao Fasano.” Obviamente nunca mais voltei.
    Abraços!


  3. Alhos, de verdade, você precisa conhecer (ou voltar, não sei) Montevideo

  4. alhos Says:

    Daniel,
    tudo bem?
    Preciso mesmo. É uma vergonha que eu não conheça, sobretudo considerando qual é meu trabalho de verdade…
    Abraços!

  5. Semiramis Says:

    Conheci Tiradentes mas não tive o prezer de conhecer todos esses lugares legais…

  6. raq Says:

    também achei fraco o pau de angu (paisagem linda), mas achei que a culpa era da minha mãe porque comi frango com quiabo e o que ela faz é sensacional e não dá pra competir com comida de mãe, né? mas suas duas dicas foram muito boas mesmo e hoje, antes de ler este seu texto, estava lembrando do lombo da estalagem.


  7. O senhor sempre consegue me deixar ainda mais curioso: agora vou ficar aqui imaginando como deve ser trabalho que tenha uma conexão com Montevideo e/ou o Uruguai.
    Ultimamente, é algo que ocupa demais minha cabeça: encontrar uma maneira de conseguir um trabalho que me permita morar por lá.
    []s

  8. Fábio Says:

    alhos!
    sempre um prazer ler os seus textos!
    duas coisas que queria compartilhar contigo, já que sei que gosta dos restaurantes:

    1) você viu como o Ici ficou bonito? (por fora e por dentro). Se bem que o melhor foi constatar que a comida continua ótima.

    2) já que mencionaram o Fasano num dos comentários: o visitei um dia desses e decidi que ia nos meus favoritos da casa para não ter erro. Pratos? Raviolini de Pato ao Molho de Laranja e o Peito de Pato com Nhoques de Ameixa (e dá-lhe pato!). Resultado: a massa estava boa, mas não esplendorosa, como de costume. Reportei essa falha ao maitre x, que sempre cuida da minha mesa, e eis que ele me solta: “não deveria comentar, mas como o sr. já é de casa, vou te confidenciar que o masseiro y está de férias e por isso há essa diferença na delicadeza da massa”. O ruim foi constatar que a conta não deu umas férias ao meu bolso!

    Abs, comilão!
    E é uma vergonha mesmo o sr. não conhecer Montevideu, visto a sua profissão de verdade haha.


  9. tiradentes sempre me emociona justamente pela ternura do lugar (que evito assustadoramente em época de festivais).

    mas também tivemos algumas (má) surpresas da última vez que fomos.

    o theatro da villa foi um daquelas decepções para o resto da vida, tamanho trauma com a (má) proporção comida/conta.

    o uso de massas secas no via destra também foi bastante frustrante. e pensar que o garçom sorria, orgulhoso, cada vez que dizia que o prato era feito “com a qualidade barilla”.

    não vi tantas discussões e opiniões controversas, mas o santíssima gula é um dos meus lugares favoritos na vida. ambiente, refeição, preço e a simpatia acolhedora da nancy. dê uma chance da próxima!

    abraço,
    priscila ferreira.
    http://www.podeserpradois.blogspot.com

  10. alhos Says:

    Semiramis,
    tudo bem?
    Tiradentes sempre vale uma nova visita…
    Abraços!

    Raquel,
    a Estalagem é ótima mesmo.
    Agora, nenhuma comida resiste à comparação com pratos guardados na memória.
    Abraços!

    Daniel,
    tudo bem?
    hahaha Não é propriamente uma conexão, mas alguma relação com o Uruguai.
    Esforce-se. deve valer a pena. rs.
    Abraços!

    Fábio,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Você sabe qual é minha profissão? Ora…
    Gostei do Ici. Ainda não sei se prefiro como é ou como era, de tão acostumado com o panorama antigo, mas gostei bastante.
    Interessante a história do Fasano. Poderiam dar férias pelo menos ao valor do prato…
    Abraços!

    Priscila,
    tudo bem?
    Não deixei de ir ao Santíssima Gula por causa da controvérsia (“caro demais”, “pretensioso demais”, “maravilhoso”, “inesquecível”), mas pela falta de oportunidade. Irei, sim, da próxima vez, como também irei ao Viradas do Largo, que não conheci.
    De resto -e não só pelas comidas-, Tiradentes é uma delícia.
    Abraços!


  11. Já que você tem alguma relação, meu caro Alhos, me ajude então!🙂
    Vou mandar meu currículo de jornalista medíocre para você. Quem sabe, não é?
    Abraços celestes,
    daniel

  12. Fábio Says:

    lógico que sim. O senhor não é lenhador de eucaliptos na Sibéria? É obrigação de todo lenhador desse calibre ir a Montevidéu ao menos 3 vezes por semana rs.

  13. Nelson Schapô Says:

    Alhos,
    desejo que volte muitas vezes a Tiradentes e que também conheça Montevidéo, por n motivos. Mas por favor, não deixe de atualizar o blog. Não sou adepto de dietas!
    Abraços do Nelsão

  14. alhos Says:

    Daniel,
    hahaha. Minha relação é platônica. Se eu tivesse vínculos concretos, iria correndo.
    Abraços!

    Fábio,
    errou.
    Crio ovelhas no extremo norte da Islândia.
    Abraços!

    Nelsão,
    dietas, só trabalho.
    Abraços!

  15. didaborges Says:

    Alhos, tiradentes é sempre destino certo de pelo menos 10 dias de minhas férias anuais… Se você nunca comeu no Bar do Celso, precisa ir. Comida barata, caseira, familiar, bem feita… O ovinho frito com gema mole é um sonho! Quanto ao Estalagem, é mesmo o melhor por lá… E o Conto de Réis, também o que eu queria pra minha vida, um dia… No Theatro da Vila nunca tive coragem de ir pelos preços abusivos e nenhum comentário de amigo que recomendasse com alguma ênfase… Da próxima, não deixe de ir ao Celso. Um abração.

  16. Alexandre Says:

    Ótimo post!!!

    Meu nome é Alexandre, sou redator e fotógrafo do Selo Reserva, novo site voltado para o mercado de enogastronomia. Estamos nos preparando para lançar a versão Beta e acredito que você gostará do conceito. Neste primeiro momento disponibilizamos uma página virtual de apresentação: http://www.seloreserva.com.br/

    Se puder, não deixe de acompanhar nossas atualizações na rede social – facebook.com/seloreserva

    Vamos manter contatos,
    Att.
    Alexandre Sobral R. Horta
    alexandre.horta@seloreserva.com.br

  17. alhos Says:

    Dida,
    tudo bem?
    Me desculpe, por favor, a demora na liberação do comentário.
    Obrigado pela dica. Procurarei o Bar do Celso na próxima vez. Que certamente será em breve. rs
    Abraços!

    Alexandre,
    anotado seu site.
    Abraços!


  18. Alhos, não tem referência gastronômica com Tiradentes. Adoro a cidade pela pequenez, delicadeza e charme. O artesanato, as pessoas, a cortesia… acho que transborda Minas em cada detalhe… Indiquei a uma pessoa recentemente de outro país… contei um pouco do contexto histórico… e o retorno que tive foi… é igual Parati, sem mar e achei os cavalos na praça muito “delgados”… Fique pensando… não entendeu nada…rs… Não estou falando que Tiradentes seja melhor que Parati, mas que cada lugar tem a sua beleza e principalmente uma história… Algumas pessoas deveriam fazer turismo apenas pela TV… são incapazes de tentar entender e olhar de maneira interessada para nada… Além do mais sou mineira… e não gostei… da pouca valorização dessa preciosidade das minhas terras..rs… Beijocas, Adriana.

  19. alhos Says:

    Adriana,
    tudo bem?
    Os gostos de turistas são muito diversos.
    Gosto de Parati,com seu cuidado de preservar fachadas, mas prefiro Tiradentes -inclusive pela arquitetura.
    Beijos!


  20. É verdade… concordo com você gosto cada um tem um.
    Agora mudando de assunto vi que escrevi uma coisa e pensei outra… ERRATA: Não tenho referência gastronômica em Tiradentes… minha referência com a cidade passa por outras memórias. Beijocas, Adriana.

  21. alhos Says:

    Correção feita, Adriana.
    Beijos!

    Fritz,
    de fato, o hambúrguer estava totalmente insosso, uma pena.
    Abraços!


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