Vida

29/05/2012

 

Era dia da última ultrassonografia, aquela que avalia peso e tamanho e calcula, com alguma precisão, em que dia o bebê vai nascer. Pelas contas, faltavam quinze dias, mas era bom confirmar.

 

Entramos no laboratório contentes, plena expectativa. Eis que, depois de uns minutos de exame, o médico pede licença para chamar um colega, que chama outro colega, e ninguém nos diz nada. Inquietos, perguntamos o que havia. Após muitos rodeios, descobrimos que havia um problema com o bebê, nossa primeira e única filha.

 

Saímos dali atordoados, telefonamos para o ginecologista, seguimos para outro laboratório. Refeito o exame, a mesma constatação: ela tinha um problema, não se sabia qual.

 

Foram quinze dias de vertigem, entre ginecologista, cirurgião neonatal, futuro pediatra. Montou-se uma equipe para acompanhar o parto, dia e hora marcada. Havia três possibilidades, concluíam, em três níveis ascendentes de gravidade.

 

Até que a bolsa rompeu, um dia antes do previsto. Maternidade, telefonemas de madrugada, todos a postos. Assim que ela surgisse —e tinha que vir muito bem— seria avaliada.

 

Às 8 e 26 minha menina nasceu. Dos três problemas possíveis, ela tinha dois, os mais sérios. O dia transcorreu fora do ar. No final da tarde começou a cirurgia, que durou, não sei bem, umas três, quatro horas. Daí tocou o telefone do quarto e o cirurgião, direto da Uti, nos chamava para vê-la e, exultante, afirmava que tudo tinha corrido melhor do que ele esperava.

 

Oito dias e oito noites de Uti depois, mais dois dias na maternidade e, afinal, a casa. Nesse tempo, não faltou quem fizesse previsões trágicas de várias ordens: a estultice humana não tem fim.

 

Quando ela conheceu seu quarto, preparado há meses para recebê-la, restava uma cicatriz no abdome, dois pais que haviam envelhecido dez anos em três semanas e a vida inteira pela frente.

 

Todos aprendemos a pesar melhor as coisas do mundo, a valorizar o que de fato importa. Minha filha aprendeu que vida é algo pelo que se deve brigar —tanto que brigou e venceu.

 

Sábado que vem, 2 de junho, faz treze anos que tudo aconteceu: que ela nasceu e, horas depois, renasceu. Domingo, dia seguinte, pela primeira vez na vida, viaja sozinha para o exterior. Assim são as coisas: num dia se nasce, em outro se voa.

 

Tudo o que houve, tão distante, parece pertencer a outras pessoas, a outro mundo, a um tempo meio mítico e imemorial. Estamos todos vivos. Minha filha é uma menina bonita, de alegria imensa.

 

Naquele dia e em todos que vieram e virão descobrimos o amor infinito e incondicional e soubemos que —não importa que digam o contrário— a vida vale muito a pena ser vivida.

 

 

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24 Respostas to “Vida”


  1. …e ela é linda, tão linda… daquelas de orgulhar-se de ser pai ou mãe. Espirituosa, estudiosa, e menina…
    Um grande beijo nela, e nos pais. Parabéns!!

  2. Adegão, O Says:

    Ola Alhos.
    Passei por uma situação quando tive meu segundo filho. Sabe aquela angústia que lentamente vai fermentando dentro de nossa mente? Enquanto na sala de espera da maternidade, vários familiares aguardando a chegada dos bebês, amontoavam perto da porta de vidro. E conforme chegavam, gritos de felicidades. Só que cadê o meu? Familias que chegavam depois de mim, conheceram os seus bebês . E a cada segundo, engolia rochas pela garganta.
    E meu primeiro filho que estava comigo, parecia ler meu pensamento e: “Vai dar tudo certo, papai.” Ao invés de eu o confortar, fui confortado.
    Um longo filme passa rapidamente diante de mim. Será que meu filho está bem? Será que minha mulher está bem?
    Quando veio o meu bebê, enquanto muitos familiares choravam de felicidade, eu chorei de alívio.
    Ambos estavam bem, porém com uma cesariana complicada.
    Parabéns pelo post, Alhos. Ter filhos é como passar a nossa vida à limpo. O recomeço.


  3. Que lindo, Alhos… “porque minha filha faz treze anos…” 😉

  4. alhos Says:

    Helena,
    tudo bem?
    Obrigado!
    Beijos!

    Adegão,
    tudo bem?
    Obrigado.
    A vida tem dessas coisas. Sobrevivamos a elas e prossigamos, sempre a limpo.
    Abraços!

    Eugenia,
    obrigado.
    Fez um, dois, doze, treze…
    Beijos!

  5. diacrônico Says:

    Muito bom; parabéns.
    Minha primeira filha decidiu nascer antes da hora, e também tivemos uma experiência, ahn, diferente. Já foram onze anos, e eu ainda não consigo escrever sobre o assunto.
    Mas curiosamente também acabei de escrever sobre minha filha. Fato é que não há nada como a paternidade para nos fazer melhores, não acha?
    Abraço.

  6. Maria Says:

    Lindo, Alhos. E emocionante. Arrancou-me, sutilmente, uma lágrima. 🙂

  7. Marco A. Cunha Says:

    Quando cheguei com minha filha da maternidade, uma senhora vizinha nos chamou e disse: “Vocês nunca mais irão dormir como antes”. Na hora achei exagero, mas isso fazem 20 anos, e cada vez se confirma mais.
    Parabéns pelo post

  8. Melina G. Nadale de Souza Says:

    Alhos,
    Lindo post!
    E boa sorte à sua “menina”‘ nessa nova etapa.

    Abração

  9. Daniel Pinheiro Says:

    você não existe, Comilão. não é possível.
    obrigado, mais uma vez, por suas palavras lindas. eu sou pai de uma menina linda que completará 9 anos em julho.
    espero que eu possa algum dia escrever algo tão maravilhosamente lindo para ela como você escreveu para a sua.
    como sempre, você é inspiração.
    gracias por todo!

  10. maurício Says:

    Não há o que comentar! Há o que comemorar! Que sua filha lhe traga mais e mais alegrias, tendo a certeza que o mais dificil já se passou. Como deu pai dizia, é o tempero da vida; que dá sabor a ela; mas que as vezes vem apimentado salgado!
    Veio, mas voces conseguiram. Sejam sempre muito felizes! abraços; Paz e Bem


  11. Não conheço você ou sua filha, e não sei se me pego tanto porque tenho um filho maravilhoso também de 13 anos que em julho agora fará sua primeira viagem ao exterior sem os pais. Mas estou aqui chorando porque seu texto me tocou muito. Parabéns, pela filha, pelo texto.

  12. Mariangela Says:

    Que post lindo, me emocionei,daqueles de encher os olhos d’água. A minha em breve fará 14 e é um sentimento incrível este que só os filhos nos proporcionam,este de sentir um amor tão imenso por eles e que aumenta mais e mais a medida que passa o tempo. Feliz aniversário a filha!!

  13. Dalmo Says:

    Prezado Alhos,

    Belo texto, felizmente não sofri tal tortura no nascimento da minha que acaba de completar 16, e fará sua primeira viagem ao exterior sozinha agora, que sufoco sinto; mas como disse você esta é vida que vale ser vivida.
    Abraços.
    Dalmo

  14. alhos Says:

    Diacrônico,
    muito melhores, muito.
    Que sempre estejamos por perto quando nossas filhas precisarem de nós.
    Obrigado, abraços!

    Maria,
    obrigado.
    Abraços!

    Marco,
    obrigado.
    Nunca mais cruzei uma noite sem acordar pelo menos uma vez… rs
    Abraços!

    Melina,
    obrigado.
    Abraços!

    Daniel,
    obrigado.
    Muita sorte para nossas meninas. Que saibamos, mais do que escrever, ajudá-las a lidar com o mundo.
    Abraços!

    Maurício,
    obrigado.
    Passou, sim. E cada vez fica melhor.
    Abraços!

    Luciana,
    obrigado.
    Nós resistimos, nós resistimos… rs
    Beijos!

    Mariangela,
    obrigado.
    Absurdamente imenso.
    Abraços!

    Dalmo,
    obrigado.
    Como escrevi a Luciana, logo acima, força, resistiremos! rs
    Abraços!

  15. Rodrigo Says:

    E eu sou pai de uma filha linda de 4 meses. E pai novo chora mesmo ao ler isso. Que sua filha e a minha sejam muito felizes, com as dificuldades e alegrias do porvir.

  16. alhos Says:

    Rodrigo,
    deixe sua filha crescer e verá que os pais nunca param de chorar.
    Boa sorte e abraços!

  17. Patrícia Says:

    Alhos, leio o seu post com lágrimas nos olhos. Minha boneca tem oito anos e todos os dias não me canso de admirá-la. Com ela tudo ficou melhor, sou muito apaixonada e feliz de ser mãe e perceber a cada dia como vale a pena ver seu crescimento. Abraços. Patrícia M.

  18. Jorge Preeg Says:

    Mesmo sem poder te abraçar, considero voce um amigo… Amigo que procuro em noites banais (confesso), daquelas que estou só, que preciso trocar umas idéias sobre biritas e ranguitos… Venho até aqui e leio – compartilhando sua evidente habilidade com as palavras e assuntos…

    O meu veio em dez/2002, 4,5ks, loiro, olhos verdes… estereótipo do bb perfeito que se mantem até hoje.

    Semanas atrás pediu para provar nosso polvo com manteiga de ervas (um dos seus últimos pratos de “resistencia” entendeu?). Confesso que bateu uma coisa gostosa… Do tipo: entrou no time…

  19. Alvaro Says:

    Que postagem bonita!

  20. alhos Says:

    Patrícia,
    obrigado.
    A paixão não acaba nunca…
    Abraços!

    Jorge,
    obrigado.
    Venha sempre. Esse diálogo silencioso e cifrado é a razão de ser do blog. As crianças, da vida.
    Abraços!

    Álvaro,
    obrigado.
    Abraços!

  21. Fernanda Says:

    Prezado Alhos…
    Me emocinei lendo seu post… Nao só pelo teor amoroso, mas por me colocar no lugar… da sua filha! Não que eu tenha nascido com problemas, nasci saudavel, cresci… muito! Fui sempre o orgulho do papai… a menina dos olhos… me formei médica… e depois de alguns anos, estive numa situação de extrema gravidade na mesma UTI em que trabalho…so que como paciente, durante um longo mês… Olhar pros olhos do meu pai e ver tanta tristeza e medo, abria um abismo sob os meus pés… Nao, eu nunca tive medo de morrer, mas por todo o amor que sentia aquele homem ao meu lado, eu pedia a Deus pra continuar viva… pra jamais deixar entrar tristeza naquele coração de novo…Ser pai, alhos, é divino, sem desmerecer jamais a mãe… Mas é nos olhos do nosso heroi que buscamos a mão forte… e foi atraves daqueles olhos que encontrei forças pra voltar a vida! Aposto que ao olhar pra sua filha hoje, vc se orgulha imensamente! Meus parabens ! A vc e a ela!

  22. alhos Says:

    Fernanda,
    obrigado pelo comentário, pela história que conta.
    Drummond resumiu tudo ao ver a filha morta antes dele: é uma contrafação. Das coisas que não podem acontecer.
    Beijos!

  23. Li Says:

    Viva! A vida!

  24. alhos Says:

    Sempre, Li.
    Beijos!


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