Cenas de uns restaurantes

08/07/2012

 

*

Jantar em um bom restaurante, sete e meia da noite.

 

Minha mesa, quase na porta, é a única ocupada (uma hora depois, o salão estaria cheio).

 

Pela ampla janela, vejo que um entregador de pizza estaciona a moto, desce, atravessa o salão e entra na cozinha.

 

Por quê, não tenho ideia. Ele pode ter ido rever amigos, tomar uma água… Pode ser, também, que os funcionários estivessem com vontade de comer uma pizza…

 

Tomo um gole grande de vinho, tento afastar o inevitável temor e controlo o riso, nervoso, diante do inusitado da coisa.

 

 

*

Trabalho duro, na verdade, é o de hostess.

 

Na maioria dos casos, é meio inútil, acessório. Canso de ver as moças paradas em pé, horas a fio, apenas com a função de dar alguns passos com clientes que mal olham para seus rostos.

 

Meio-dia e meia de um sábado, um casal entra num restaurante. Ela, uns três passos à frente dele.

 

Reparo bem: embora tenha idade próxima, não é a rainha da Inglaterra seguida do príncipe consorte. Apenas um caso em que a liderança, no casal, está bem definida.

 

A hostess os acompanha. Indica mesas na lateral, com sofá, no centro e no jardim dos fundos —é lá que eles se sentam. Esqueço o casal e me concentro na salada.

 

Minutos depois, eles chamam de novo minha atenção. Ela, na verdade. Sempre uns passos à frente, avança na direção de um garçom enquanto pragueja: ‘se está quase tudo vazio, por que tenho que me sentar lá longe?’ Esculhamba a hostess, culpando-a pelo que a menina supunha ser um bom lugar e a senhora considerou um degredo.

 

Sentam-se, por alguns minutos, bem no centro do restaurante. Ela volta a se levantar, sempre irritada, e avança para o fundo do salão. Anda para cá, anda para lá e opta, afinal, pela varanda da frente. O marido a acompanha conformado, com ar cansado.

 

Eles se acomodam numa mesa da varanda. Por pouco tempo. De longe, vejo que tornam a se levantar e vão para outro lugar, onde não consigo mais enxergá-los. Enxergo, porém, a hostess, que, meio nervosa, se explica para os colegas e para outra moça, aparentemente superior na hierarquia.

 

Lamento a sorte da menina e sigo na minha refeição, já perto do fim.

 

Pago a conta, agradeço e saio. Ao passar pela varanda, reparo: ela está numa mesa, ele almoça sozinho em outra.

 

Já na calçada, comemoro em silêncio a rebeldia.

 

 

*

Oito da noite do mesmo sábado, outro restaurante.

 

Como tranquilamente meus mexilhões quando chega um casal e se senta na mesa ao lado.

 

Ela, moça bonita e bem arrumada. Ele, rapagão bem posto, sucesso financeiro impresso no rosto.

 

Há algo no ar, diria o Barão de Itararé se assistisse à cena, além dos aviões de carreira. As mãos quase roçam, os olhares se derramam pela mesa até chegar aos olhos alheios —que idealmente deixariam de ser alheios até o fim da noite.

 

Eis que o rapaz, moço atento, percebe que é chegada a hora da investida final. Aproveita que a taça está na mão e sapeca uma série de comentários sobre o vinho. O jargão é típico de quem entende ou acha que entende ou ouviu de alguém que entende e acha que entendeu.

 

Nenhum dos comentários faz sentido, mas ele prossegue impávido. Ela o olha.

 

Assustado com a quantidade de bobagens que ele desfia, consulto uns amigos pelo telefone: devo intervir?

 

Em caso positivo, o que faço: chamo o rapaz de lado e sugiro que pare ou chamo a moça de lado e sugiro que fuja?

 

Um amigo, defensor categórico das moças desprotegidas, recomenda que eu a alerte. Duas amigas, inteligentes, acham melhor que eu não interfira.

 

Recordo, então, a história de um conhecido que tentou conquistar a potencial futura namorada falando sobre vinhos (tema que nem longinquamente ele conhecia) e depois se envergonhou ao descobrir que ela era sommelière. Estão casados há anos.

 

Opto, então, pelo silêncio e me concentro definitivamente nos mexilhões.

 

Só na hora de sair volto a prestar atenção neles, que se beijam.

 

 

8 Respostas to “Cenas de uns restaurantes”

  1. fernanda Says:

    Alhos, dá para escrever um livro com cenas de resturante, vc me deu uma idéia, começarei a anotar…vc faz a revisão! Como diz o meu garçon Fábio, a dança das cadeiras, ele já teria esbravejado, para mim, claro!


  2. Pobrezinha da menina… ou não.

  3. alhos Says:

    Fernanda,
    tudo bem?
    Combinado!
    Imagino a quantidade de casos…
    Abraços!

    Cris,
    hahaha. Pois é, pelo rosto deles, quando saí do restaurante, não: nenhum dos dois era pobrezinho, pelo menos naquela noite.
    Abraços!

  4. cadoria2 Says:

    Alhos, o que você comeu afinal?
    Abração

  5. Maurício Says:

    Alhos, morri de rir, pelas histórias.
    À propósito, deliciosas construções gramaticais, que há tempo não tinha o prazer de ler. Parabéns e obrigado

  6. alhos Says:

    Dória,
    desculpe-me a demora na resposta. Estava viajando.
    Pizza é que não foi…
    Abraços!

    Maurício,
    desculpe-me pela demora. Estava viajando.
    Obrigado.
    Ah, se eu tivesse paciência para compilar todas as cenas divertidas ou estapafúrdias a que assisto em restaurantes…
    Abraços!


  7. Adoro estes papos ouvidos no restaurante. Ótimo texto, abraços.

  8. alhos Says:

    Wair,
    tudo bem?
    Obrigado.
    É sempre divertido.
    Abraços!


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