Nossa miséria

22/07/2012

 

 

Almoço de domingo num dos restaurantes mais caros de São Paulo.

 

Mulher, filha: companhia ótima.

 

Um prato que eu não comia há tempos. Ótimo.

 

Eis que chega um empresário de muitas décadas, homem conhecido, que surgiu, faliu e ressurgiu com sua fortuna na casa dos bilhões.

 

Com ele, uma moça de pouco mais de vinte anos.

 

Pouco depois, chega outro sujeito, quase da idade dele, acompanhado por moça quase da idade dela. E outra moça, ainda, de idade meio incerta, embora eu arriscasse uns cinquenta.

 

Sentam-se na mesa ao lado da nossa. E a conversa chega aos nossos ouvidos.

 

A moça mais velha sugere a uma das jovens que contrate uma babá. Cautelosa, recomenda: Tem que dormir no emprego. Folga só a cada quinze dias.

 

Em seguida, arremata: Mil reais de salário, não mais.

 

Com minha experiência de calcular, com alguma precisão, a conta da minha mesa e das vizinhas, passo o olho pelos pratos e avalio que o almoço deles custaria por volta de 1500 reais, fora o vinho de 250.

 

Me concentro de novo no meu prato, mas ele de repente perdeu sabor.

 

Porque, após presenciar o grupo e ouvir as três frases, resta um gosto ruim.

 

O gosto de um Brasil tão antigo, tão simbólico e caricatural, que não há comida, por melhor que seja, capaz de resistir.

 

É o gosto horroroso de uma miséria que perdura.

 

Cruzo os talheres.

 

 

22 Respostas to “Nossa miséria”


  1. Caro Alhos:
    Como sabe, assino seu blog, e já estava saindo de casa quando recebi essa postagem em meu telefone. Tive de voltar para comentar.
    Essa nossa miséria, infelizmente, não vai acabar. Somos um povo tosco, provinciano, preconceituoso e mal educado. O que me faz não querer sair de casa, o que me faz ficar deprimido, triste, mesmo.
    Outro dia, conversando com um amigo (relativamente bem remunerado), expliquei que sempre lavava minha louça e dava uma pequena “geral” na minha casa às vésperas do dia da moça da limpeza. Ele me disse que a mãe fazia o mesmo. Sua namorada, presente, e que ganha algo distante do que se chama de salário razoável, e que reside próximo a moça que presta serviços aqui em casa, retrucou: ” – Se eu tivesse condições de pagar alguém para fazer serviços domésticos, eu iria deixar acumular tudo para ela limpar” – com essa frase, exatamente. Cruzei meus talheres na hora.
    Há de se ter esperança?

  2. Lauro Says:

    Sim, sim! E mais frequentemente do que se espera, ouvimos essas conversas entre pessoas abastadas, às vezes até amigos, que são capazes de gastar 1 ou 2 salários mínimos em uma refeição ou algo supérfluo, mas recusam-se a pagar qualquer coisa digna, ou melhor para os seus empregados.

  3. mdv Says:

    Nao resisto: …?


  4. UAU! que desabafo!!! suas palavras são as minhas tb!

  5. Vevê Says:

    Seu Alhos, tudo bem?
    Gosto muito do seu blog. Você parece não se impressionar com mediocridades. Admiro quem, mesmo conhecendo o crème de la crème de um assunto, não se deixa afetar por ele, e continua a fazer um julgamento justo e ainda assim generoso sobre a vida.
    Seu post me fez lacrimejar.
    É triste que boa ou excelente comida às vezes venham em tão má companhia. Eu aprendo muito com seu blog, ainda que não possa frequentar os mesmos restaurantes. Refeição em que eu gaste mais de R$ 100 é um luxo de ocasião festiva. Até por isso aprendi a cozinhar: comer bem, como uma rainha, pode assim caber na minha rotina plebéia.
    Nunca me manifestei antes, mas creio que dessa vez, vale pedir que não deixe nunca de escrever. As entrelinhas de seus textos são infinitamente necessárias, mais do que a mais tenra das barrigas de porco de São Paulo.
    Eu não acredito numa pessoa que diz se comover com comida mas que é incapaz de se deixar tocar pelo outro. E eu acredito siinceramente no seu amor pela comida.
    Obrigada por todos os posts até aqui, e que venham muitos mais.

  6. alhos Says:

    Rubens,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Às vezes, alguém solta uma frase sem pensar e depois, só bem depois, é que se dá conta. Tomara seja o caso da namorada de seu amigo. Essa, a esperança.
    Infelizmente, porém, temos quase quatro séculos de mentalidade escravocrata a nos espreitar.
    Abraços!

    Lauro,
    tudo bem?
    Conveniências e inconveniências muitas vezes são pensadas apenas na dimensão do indivíduo. Uma tristeza.
    Abraços!

    Mdv,
    não gosto de citar nomes aqui (me desculpe, por isso, ter cortado sua mensagem). Mas você acertou.
    Abraços!

    Delícias,
    obrigado.
    Abraços!

  7. alhos Says:

    Vevê,
    muito obrigado por sua mensagem.
    Mais: obrigado pela percepção de que, antes, durante e depois das comidas, há todo um mundo, cheio de gente, que nos rodeia.
    As comidas – nos restaurantes ou em casa – são parte de uma engrenagem imensa; parte pequena, por mais que esteja na moda celebrá-las.
    Aproveitemos, portanto, boas refeições e não esqueçamos da vida sem mistificação que corre lá fora.
    Abraços!

  8. liloca Says:

    Vejo isso na casa de minhas parentes mais velhas. Mentalidade de um Brasil atrasado.

  9. Fernando Says:

    Alhos,
    esse gosto ruim que ficou é por sua percepção de que havia alguém pisando ou querendo pisar em outro, não se importando com isso e buscando apenas a própria satisfação, numa vida cheia de insatisfações.
    Acredito que isso ocorra em todo o globo, até nos ditos países densenvolvidos como nos EUA, onde os imigrantes ilegais fazem a vez dos oprimidos.
    Abraço

  10. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Teu texto remeteu-me a outro de Miguel de Sousa Tavares em “Não te deixarei morrer, David Crocket”. O texto com o nome de Eternamente termina assim:…

    “E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.

    Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.

    Comigo caminham todos os mortos que amei,
    todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.

    Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu pra sempre.”

    Abraços

  11. Rubén Says:

    Prezado Alhos, gostei muito. Excelente. Com todo respeito, fazo minha as palavras da Vevê: não deixe nunca de escrever. Abraços!

  12. alhos Says:

    Liloca,
    infelizmente…
    Abraços!

    Fernando,
    sim, associado à mentalidade de quatro séculos de escravidão.
    Abraços!

    Ricardo,
    tudo bem?
    Obrigado pela citação. É isso.
    Abraços!

    Rubén,
    tudo bem?
    Obrigado…
    Abraços!

  13. Marco A. Cunha Says:

    Depois reclamam que empregada “não presta”, que não cuida bem do bebê …

  14. Mariangela Says:

    Peço desculpas se meu comentário for grosseiro mas o Brasil,muitissimas vezes,me enoja tanto…Eu não tenho,e nunca tive,a menor paciencia para esta mentalidade tacanha e pobre de espírito do rico brasileiro,que é quase sempre asqueroso. Peço desculpas novamente se estiver sendo muito sem educação mas é sinceramente o que sinto. Um abraço!

  15. chayennemichelly Says:

    Olá! Adorei seu texto, e mais ainda a sua capacidade de ficar perplexo com essas atitudes e maneira de pensar de outras pessoas. O brasileiro é sim mal educado,preconceituoso e provinciano como bem colocou o leitor Rubens no primeiro comentário acima. Ao contrário dos EUA e da Europa onde a mão de obra é bem valorizada e bem vista, no Brasil é ao contrário. As pessoas acham que fazem um favor ao empregar alguém e as pessoas são medidas pelo que parecem e ostentam.
    Triste, mas esse é o Brasil. Um abraço!

  16. Srta. Holly Says:

    Alhos, é o tipo de situação “vergonha alheia”. Incrível constatar que em 2012 sinhazinhas ainda passeiam pela corte, soltando essas pérolas… Falta de louça para lavar!
    abraço


  17. Que horror mesmo!! E isto, infelizmente, é tão comum… vejo muita gente gastando muito com futilidades e mendigando salários. Mas não só isto: trabalho em uma ong e sempre que pedimos alguma coisa – leite em pó para a creche quando está acabando, por exemplo – ouço que “este mês não vai dar para ajudar porque já gastei muito”. Vindo de uma pessoa com uma bolsa de mais de R$ 5 mil pendurada no braço. Uma vergonha.

  18. alhos Says:

    Marco,
    pois é…
    Abraços!

    Mariangela,
    o Brasil não é o único, mas o passado escravista deixou marcas que são difíceis de apagar.
    Abraços!

    Chayenne,
    obrigado.
    Muito triste.
    Abraços!

    Srta. Holly,
    taí uma ideia, colocar o pessoal para lavar louça. rs
    Abraços!

    Luciana,
    tudo bem?
    Lastimável.
    Abraços!

  19. Raquel Says:

    Sr. Alhos, o senhor foi tocado pela gritante diferença social que há nesse mundo, mas isso existe desde que o mundo é mundo e pensar em mudanças nessa era de grande anarquia seria utopia ou levaria séculos e séculos para uma grande mudança se concretizar. Ganho um pouquinho mais que isso por mês, uma simples ida ao restaurante para uma feijoada já desfalca o orçamento do mês, mas acredite eu e minha filha vivemos tranquilas e felizes, cada um adapta sua vida com aquilo que tem.
    Não se abale sr. Alhos e bom apetite sempre!!
    Abraços

  20. alhos Says:

    Raquel,
    tudo bem?
    Mais do que as diferenças sociais, nossas velhas conhecidas, me incomodou o ranço escravista, o passado mais obscuro que o discurso continha e de onde provinha.
    Uma tristeza.
    Abraços!

  21. Anônima Says:

    Alhos, faz muito tempo que não passo por aqui, e apenas hoje li esse texto que me tocou muito. Queria compartilhar uma história que aconteceu no meu trabalho, e por isso preferi permanecer anônima, além de outros cuidados para que não seja identificada a situação.

    Trabalho em uma instituição sem fins lucrativos cujo objeto de trabalho é uma área estruturante e fundamental na formação dos cidadãos. Nossa mantenedora – e consequentemente chefe e guardiã das últimas decisões – é herdeira da família que fundou a instituição, família muito rica, além de casada com empresário também muito rico, tornando o potencial econômico da família algo que provavelmente só cabe em nossa imaginação. Sempre admirei sua preocupação genuína com o bem comum, seu entusiasmo e envolvimento direto com o trabalho da instituição e seu estilo de vida até bem simples para o potencial da família. Definitivamente não é uma pessoa afetada e é bem genuína, disso não tenho dúvidas. Minha surpresa veio quando identifiquei em uma opinião sua esse mesmo comportamento e mentalidade que você descreveu em seu texto.

    Estamos pensando em elaborar e implantar um projeto que irá de encontro à questão da formação dos profissionais que atuam em nossa área/objeto, que cada vez recebe menos formandos e se tornou uma profissão da falta de opção . A ideia é valorizar essa vocação, oferecer qualificação que vá além da formação universitária, que é muito deficitária e teórica, e dessa maneira incentivar a entrada de mais profissionais qualificados na área.

    Tal discussão passa invariavelmente pelo problema da remuneração desses profissionais. Será que cabe realizar um projeto como esse, quando não temos como influenciar a remuneração dos profissionais, ditada pelo mercado ou pelo governo? Como podemos valorizar a vocação e a atuação quando os salários na área são tão ridículos? Quem vai escolher certa profissão quando a melhor perspectiva é a de uns poucos salários mínimos mensais e a inicial, R$ 8 por hora (sim, oito reais por hora)? Não se trata de querer enriquecer, mas sim de poder almejar um mínimo de conforto e inclusão sócio-cultural.

    Nossa mantenedora não pensava que esse era um aspecto relevante, e perguntou a nós: ‘quanto vocês acham que é um bom salário médio no Brasil’? Levando em consideração impostos, custo de vida, serviços, poder de vez em quando (e estamos falando de ‘de vez em quando’!) comprar um livro, ir ao cinema, ver uma peça de teatro, comer em um restaurante médio, e na perspectiva do sudeste, palpitamos: em média 4 mil reais. Veja bem, sabemos que esse é um salário bem alto para a grande maioria dos brasileiros. Mas os custos de vida são igualmente altos, e estamos falando de perspectiva, de ideal, de uma situação social e profissional mais acolhedora.
    Pois nossa mantenedora achou que isso é muito. Nossa mantenedora, que dedica sua atuação para a causa social, – para quem um estilo de vida simples é uma opção, e não uma necessidade, que nunca corre o risco de faltar alguma coisa em casa, que nunca desistiu de uma atividade tão simples quanto pegar um cinema porque não tinha dinheiro – acha que é muito querer ganhar 4 mil reais no Brasil.

  22. alhos Says:

    Anônima,
    tudo bem?
    Obrigado por seu depoimento.
    Já em 1888, uma semana depois da abolição, Machado de Assis mostrava, numa de suas crônicas, que o mais difícil era alterar uma visão esquemática e hierarquizada da vida e do mundo. É esse passado torto que persiste.
    Abraços!


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