D.O.M.

14/09/2012

 

Pouca gente sabe, mas a versão pré-histórica desse blog foi inaugurada, seis anos atrás, com uma resenha do D.O.M..

 

De lá para cá, muita coisa aconteceu. O restaurante ganhou cada vez mais fama internacional, Alex Atala se tornou uma espécie de divulgador informal da gastronomia brasileira no exterior e instigou, direta ou indiretamente, o surgimento de novos espaços de pesquisa sobre alimentos no país. Personagem irreversivelmente relevante, adquiriu afetos e desafetos dentro e fora do mundo das comidas.

 

De lá para cá, voltei uma dúzia de vezes ao D.O.M. —menos (por motivos óbvios) do que gostaria, mas o suficiente para acompanhar algumas metamorfoses da casa. Metamorfoses que incluíram a remodelação (para melhor) do salão, as variações no cardápio (menos constantes do que todos gostariam), a consolidação e o amadurecimento da proposta, o aumento significativo dos preços.

 

Sempre comi bem ou muito bem nessas visitas. Em duas delas, senti um certo tom mecânico, quase burocratizado, do serviço e a cozinha me pareceu cansada ou repetitiva, expedindo pratos corretos, mas sem brilho.

 

Recentemente voltei. Fazia quase um ano que não avançava além da última esquina da Barão de Capanema, mas decidi que comemoraria lá meu décimo-quarto aniversário de casamento. Queria também que minha filha —que quase sempre acompanha nossos jantares, mas, por coincidência, nunca estivera no D.O.M.— conhecesse o restaurante.

 

Dia especial, vinho especial. Tirei da adega uma das minhas melhores garrafas, assumi que pagaria os caros 100 reais de rolha (que viram 112, pois se cobra, erradamente, serviço sobre serviço) e tocamos o barco. Quase barco mesmo, pois não parava de chover.

 

E naquela noite fizemos um jantar sensacional.

 

Serviço muito atencioso, sommelière gentil e cuidadosa, comida excelente.

 

De entrada, minha filha pediu as ostras empanadas com ovas de salmão e sagu; minha mulher e eu dividimos uma excelente brandade de bacalhau com calda de tutano —tremenda calda de tutano, diga-se de passagem.

 

Os principais foram um bom e suculento filé com aligot (com o habitual ritual da casa no serviço do aligot, para o encanto da minha menina); arraia (extraordinária) com palitos de mandioca, brócolis e espuma de amendoim; filhote com sagu no (absurdamente bom) caldo tucupi —mulher e filha me impediram, quase à força, de pedir uma jarrinha de caldo para o café da manhã do dia seguinte.

 

As sobremesas (que já foram um ponto fraco da casa, mas há algum tempo melhoraram significativamente) estavam agradáveis: ravióli crocante de banana com calda de maracujá e sorbet de tangerina; pudim de leite com caramelo de priprioca, acompanhado de ravióli de limão e banana-ouro.

 

A conta, claro, ficou caríssima. Ela espelha, afinal, muitas coisas: o prestígio cada vez maior do chef e do restaurante, o custo certamente alto de produção, a fama e seu entorno, o estapafúrdio mercado de restaurantes brasileiro.

 

Mas a comida ultrapassou a provada nas visitas anteriores e mostrou a seriedade (e a serenidade) com que se conquista e se mantém uma posição de respeito. E é preciso que se diga: merecida.

 

D.O.M.

Rua Barão de Capanema, 549, Jardim Paulista, SP

tel. 11 3088 0761

 

 

16 Respostas to “D.O.M.”


  1. alhos, qual foi o vinho da noite ? a brandade veio no prato ou numa panelinha ? como vc considera o custo x beneficio ? falando em voltas, vc foi recentemente ao a figueira ? obrigado


  2. escrevo ~oficialmente~ sobre comida há quase três anos. assim como o icônico historiador montanari, também entendo comida como cultura e bem mais modestamente pesquiso sobre comida, cultura, alimentação [e como agricultores e cozinheiros se desentendem, meu deus do céu!]. minha lacuna profissional é estar permanentemente ausente dos restaurantes [caros!], mas é um deleite poder ler seus relatos aqui. parabéns por poder frequentar e comer nos lugares que descreve aqui.


  3. Concordo com você em vários aspectos – prego as virtudes do tucupi no café da manhã (deve acordar violentamente!), e na inconstância passada no D.O.M. Ano passado fui jurado (popular) dos restaurantes de SP, e não votei neste restaurante nem no chefe como os melhores – fui literalmente interpelado pela jornalista, que me questionou se eu conhecia Alex Atalla e o restaurante – ao que respondi que sim, admirava muito o trabalho dele mas que tinha comido excepcionalmente bem em seu restaurante, e outras vez mediocremente, e achava isto inconcebível para um restaurante e chef deste porte…
    Agora, o aligot é sempre impecável mesmo. Me deu vontade de voltar (apesar da conta…)
    Abraços


  4. Alhos,

    gostou mesmo do ravióli crocante de banana? estive no D.O.M. apenas uma vez, comi o almoço executivo (e, nele, o melhor feijão carioquinha da minha vida) e pedi o ravióli de sobremesa, mas foi o ponto fraco da refeição. no cardápio de sobremesas, na verdade, não achei nada que despertasse grande interesse.

    e esse valor da conta, não vamos saber?🙂

    (quando estive lá, nem pedi o cardápio “normal” para ver preços, por isso a curiosidade)

    abraço!

  5. alhos Says:

    Raphael,
    tudo bem?
    Pelo que me lembro, a brandade veio no prato. E o vinho foi um Vega Sicilia 95.
    A comida é excelente, mas o custo é excessivo. Acho que vale para uma comemoração especial, para um dia de fato particular.
    Fui ao Figueira há uns três, quatro meses e não gostei da comida.
    Abraços!

    Júnior Milério,
    tudo bem?
    Muito obrigado por seu comentário e bastante sucesso.
    Abraços!

    Wair,
    tudo bem?
    Concordo com você. Creio que o D.O.M. vive seu melhor momento, mas, dada a condição a que atingiu e os preços cobrados, não pode ser irregular.
    Abraços!

    Eduardo,
    tudo bem?
    As sobremesas do D.O.M. melhoraram muito, mas não têm o nível das entradas ou dos pratos principais. São de qualquer forma, boas, mesmo quando não empolgam.
    Não gosto de colocar preços porque pode parecer ostentação. E porque, assalariado que sou, sei o quanto custa cada um desses reais e ocasionalmente me arrependo de tê-los gasto em restaurante (não foi o caso). E, ainda (e sobretudo), porque o preço não indica necessariamente o valor. Mas vamos lá: a conta foi de 1.071,92: couvert (102, ou 3 x 34), ostras (91), brandade (98), raia (151), filhote (146), filé (156), rolha (100), águas (30, ou 5×6), ravióli de banana (26), priprioca (34), café (7), estacionamento (18) – total: 959 + serviço (112,92).
    Abraços!


  6. Alhos,

    tudo bem? obrigado pela resposta. não nos conhecemos pessoalmente, mas, como leitor assíduo do seu blog e do twitter, sei que ostentação não é do seu feitio. muito pelo contrário: a combinação da sua classe com os seus pés no chão é um dos ingredientes que dá sabor aos seus textos – que sempre leio maravilhado.

    como lhe falei, a curiosidade pela conta do D.O.M. era por ter eu estado lá e nem passado os olhos pelo cardápio de pratos “normais”, que também não consta da página deles. mérito do Alex Atala e de outros chefs à parte, o Brasil é um país caro… mas uma refeição dessas, coroada por um texto como o seu, não é o que se chamaria de “rasgar dinheiro”.

    abraço!

  7. Diogo Says:

    uau, que jantar hein alhos? Isso é que é comemoração de aniversário! E o Vega Sicília, que te pareceu? Meu comer e beber não chega a esse nível, mas sou atento o suficiente pra saber invejar – inveja boa, podes ter certeza.
    Parabéns pela extravagância!

  8. alhos Says:

    Eduardo,
    tudo bem?
    Obrigado. Valeu, sim.
    Abraços!

    Diogo,
    obrigado pela boa inveja… rs
    Sensacional, o Vega Sicilia. Difícil, sempre, é voltar para os vinhos do dia-a-dia…
    Abraços!

  9. Tádzio Says:

    Parabéns pelo aniversário de casamento!

    Abraço Tádzio

  10. alhos Says:

    Obrigado, Tádzio.
    Abraços!

  11. Flavio makamello Says:

    Alhos,em novembro estarei lá pelo mesmo motivo (aniversário de 10 anos de casamento).O que você sugere na primeira visita , menu degustação ou entrada/principal ? Obrigado e parabéns pelo aniversário de casamento .

  12. alhos Says:

    Flavio,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Parabéns a vocês também!
    Degustação, sempre. Ela só é contra-indicada em dois casos: preocupação com o tempo de permanência no restaurante ou com o custo da refeição. A degustação exige pelo menos duas horas e meia e atualmente sai por imensos 400 reais/pessoa, fora bebidas e 12% de serviço, o que significa que uma refeição para duas pessoas, acompanhada apenas por água, chega perto dos mil reais.
    Abraços!

  13. Flavio makamello Says:

    Alhos,obrigado pela resposta.A conta realmente é anormal ,porém a ocasião exige algo muito diferenciado e o tempo não será problema .Grande abraço !

  14. alhos Says:

    Flavio,
    então, aproveite!
    Abraços!

  15. Daniela Says:

    Fiquei com vontade de voltar e, proporcionalmente, aquela que te contei do Bela Sintra foi mais cara.

  16. alhos Says:

    Dani,
    não tem cabimento…
    Atualmente o DOM parece valer a pena.
    Beijos!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: