Dos caminhos errados e dos certos

02/10/2012

 

Como se diferenciar em meio à miríade de inaugurações de restaurantes em São Paulo?

 

Para muitos restaurateurs, calculo, a resposta está na outra ponta da linha: assessoria de imprensa. Não por acaso, a caixa postal amanhece forrada de mensagens, convites para conhecer a casa x ou y. Em alguns casos, trata-se apenas de divulgação; em outros, se sugere perigosa gratuidade.

 

Alguns remetentes são incisivos, diretos (e se o destinatário não entender a sugestão?): pedem explicitamente, sem qualquer pudor (estaria o pudor em desuso?), que o destinatário divulgue o release do restaurante ‘no seu blog e nas redes sociais’.

 

Deixemos algo claro: respeito o trabalho dessas assessorias; sei que são, em muitas ocasiões, essenciais. Apenas não é esse o caminho que me leva a um restaurante.

 

E, sinceramente, desprezo o despudor: a quarentena, e depois o lixo, é o destino de quem tenta levianamente seduzir meu bolso, e não meu paladar. E que, no fundo, me deprecia, supondo que minha opinião valha o preço de um jantar. Sou orgulhoso: acho que vale mais —para mim mesmo, pelo menos.

 

A onda de fechamentos de restaurantes, movimento paralelo e similar ao de abertura, também indica que, passada a empolgação inicial que a mídia produz, quem não tem consistência na cozinha ou não encontra outras formas de se relacionar com o público não sobrevive.

 

(Me desculpe, leitor, esse início indignado; a semana foi difícil: depois de receber diversas mensagens dessa ordem, acompanhei a celebração midiática de uma casa recém inaugurada, aparentemente sem mais méritos do que uma assessoria bastante esforçada.)

 

Felizmente há mais coisas sob o sol, e melhores. E há algo que vale mais do que cem mensagens empolgadas e fotos insistentes no instagram: a recomendação de quem de fato importa. O velho, tradicional, imprescindível boca a boca.

 

Semana retrasada, ouvi de duas pessoas de atitude e paladar respeitáveis um mesmo elogio: Miya. Inevitável ir lá.

 

Após a fachada discreta, espremida entre dois bares vizinhos grandes, um salão pequeno, bem arrumado. Cardápio enxuto, sempre um bom sinal. Preços razoáveis, um degrau abaixo da faixa mínima dos 60 reais, triste padrão atual em São Paulo.

 

Três seções distintas de pratos salgados: petiscos, entradas, principais. Os croquetes de funghi, um dos petiscos, eram agradáveis, embora os cogumelos soassem discretos demais —ainda mais se banhados na pimenta que os acompanhava, malagueta tão picante que merecia um alerta prévio do garçom.

 

A entrada compensou: vieiras sobre purê de couve flor e sob sorbet de salsão e capim santo. O amargor do capim santo se destacava um pouco mais do que deveria, mas os moluscos estavam deliciosos e o prato funcionava muito bem.

 

Entre os principais, o olhete com legumes e limão siciliano confitado veio no papillote —o que não constava do cardápio, nem foi informado pelo garçom. O peixe, de gosto incisivo, justificou o pedido. Também a barriga de porco, macia, era bem acompanhada pelo ótimo purê de castanhas portuguesas.

 

As sobremesas decepcionaram. O bolo de chocolate era inexpressivo e veio em apresentação descuidada, quase desmontado; a geleia de morango que o acompanhava era muito doce. Um sorbet de limão delicioso também acompanhava. Já o ‘arroz com feijão’, combinação trocadilhesca de arroz doce com feijão azuki, era visualmente divertido, mas seco demais —algo complicado quando se trata de arroz doce.

 

O serviço infelizmente não esteve à altura da comida. Fomos atendidos por dois garçons: um pouquíssimo informado, outro excessivamente íntimo e informal, que voltava constantemente à mesa para perguntar se estávamos gostando. Aliás, esse exagero tem se tornado comum nos restaurantes paulistanos. Uma pena.

 

O balanço final diz que o Miya ainda não atingiu velocidade de cruzeiro. Agradou, mas não empolgou. É evidente, no entanto, que a cozinha trabalha com conceitos sólidos, o chef Flavio Miyamura mostra clareza e consistência, serenidade. O Miya, em bom português, não é fumaça. Sabe o caminho certo, veio para ficar.

 

 

Miya

Rua Fradique Coutinho, 47, Pinheiros, São Paulo

tel.  11 2359 8760

http://www.restaurantemiya.com.br

 

 

15 Respostas to “Dos caminhos errados e dos certos”

  1. Laura Says:

    Eu tentei ir ao Miya faz umas 2 semanas –fiz reserva e cheguei no horário–, apenas para ser informada que uma reserva anterior a nossa tinha chegado com 2 pessoas a mais e que, portanto, nos teríamos que esperar uma hora para sentar. Não ficamos, e não sei se volto tao cedo!🙂

  2. alhos Says:

    Laura,
    tudo bem?
    Um absurdo essa história.
    O serviço, de fato, é a parte mais fraca do Miya. Mas a opção de cancelar uma reserva para dar mais espaço a outros comensais ultrapassa os limites do bom senso e do mínimo respeito ao cliente.
    Abraços!

  3. Ricardo Says:

    Olá Alhos, gostei muito da introdução do seu post.

    Um primo meu, que foi chef de um restaurante em SP, me disse que há conceituados blogs de gastronomia que cobram (e não é pouco) para publicar a opinião de um restaurante.

    Segundo meu primo, eles tiveram uma experiência muito positiva no restaurante em que ele trabalhava – houve um aumento expressivo de clientes depois da publicação.

    Eu comecei a selecionar melhor as recomendações de restaurantes após saber disso (deixei de acreditar na idoneidade dos blogs – de certa forma ingênua da minha parte).

    Anotei a dica do Miya, sou fã de barriga de porco. Talvez seja uma boa alternativa para a ótima barriga de porco do Epice.🙂

    Abraços!

  4. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Sinceramente, acho um absurdo. Dos dois lados: de quem cobra e de quem paga. Já cansei de ler entrevistas ou tweets de chefs e donos de restaurantes reclamando da crítica gastronômica; no entanto, muitos deles alimentam (literal e metaforicamente) práticas, no mínimo, questionáveis. O absurdo maior é que os dois lados se beneficiam em detrimento dos interesses dos leitores, que se tornam presas desse acordo subterrâneo.
    A barriga de porco do Miya é muito boa, mas inferior à do Epice.
    Abraços!
    ps. confesso que sua mensagem me deixou curioso sobre que blogs adotam essa prática. rs

  5. Jose Luiz Says:

    Curiosamente também ouvi de dois respeitáveis amigos elogios ao Miya. Não fui ainda e vou esperar até atingir a velocidade cruzeiro. Quanto aos blogs e críticos, a distinção entre os sérios e os ‘outros’ passa necessariamente pela quantidade de críticas existentes. Não é possível que sempre tudo esteja as mil maravilhas… ab!

  6. jb Says:

    alhos e ricardo,

    também fiquei curioso.

    se puder escrever, é bom para todos.

    sinto informar que a barriga de porco saiu do cardápio do epice.

    mas, em seu lugar, entrou um pé de porco esplendoroso.

    abraços!

  7. Jana Says:

    Olá, Alhos.

    Sou nova por aqui e já estou fascinada pelas suas críticas.

    Algumas dúvidas: em linhas gerais, o que você julga caro, regular e barato em relação aos preços dos restaurantes paulistanos? Sei que isso envolve muita coisa, mas tenho notado algumas divergências passeando por alguns blogs.

    E se você já teve alguma experiência vegetariana na cidade.

    Abraços,

  8. alhos Says:

    José Luiz,
    tudo bem?
    Tomara que aprumem logo.
    A irregularidade, um dos maiores males de nossos restaurantes, inviabiliza o contínuo sucesso de tudo.
    Abraços!

    JB,
    preciso provar esse pé de porco…
    Abraços!

    Jana,
    tudo bem?
    Obrigado pelo comentário e, sobretudo, pela leitura.
    Experiências vegetarianas, algumas. Boas experiências vegetarianas, poucas.
    Já comi razoavelmente no Orange e no Bio Alternativa. Mas refeições verdadeiramente boas em restaurantes naturais, aqui em SP, fiz apenas no Moinho de Pedra. Gosto muito do Goshala, mas ele não é exclusivamente natural.
    A questão dos preços é complicada. Como diz um amigo, é melhor falar em ‘valor’ do que em ‘preço’. Em outras palavras, não vale a pena fazer uma má refeição por 15 reais. E às vezes uma por 150 pode valer muito a pena…
    Mas, se deixarmos esse relativismo de lado, tendo a achar barato, atualmente (em SP, mas para muitas outras cidades brasileiras), quando um bom prato custa na faixa de 40/50 e uma boa refeição (entrada+principal+sobremesa, acompanhadas de água) sai por cerca de 120 por pessoa.
    Abraços!


  9. A introdução do texto é a pura expressao da realidade aqui em SP (desconheço esta performance em outras cidades). Projeto elaboradíssimo e geralmente assinado, mais uma assessoria de imprensa são os pilares principais de lugares recem-abertos que, a despeito do investimento, as vezes não decolam e fecham em pouquissimo tempo. Como fica a credibilidade destes blogs que elogiam em troca de remuneração, depois que o restaurante fecha as portas ou troca de chefe prematramente?
    Abraços!

  10. alhos Says:

    Wair,
    tudo bem?
    Há sempre muitas explicações para o fechamento de restaurantes e dificilmente se fica sabendo qual foi (ou quais foram) os motivos decisivos. E em geral há esforço de dizer que o insucesso não se relacionava à comida, mas a outros fatores – o que, acredito, seja em muitos casos verdadeiro.
    Abraços!

  11. Fabio Says:

    Escrevi aqui porque nao tenho twitter. Alem dos mencionados, o Oba aceita no almoço, inclusive em finais de semana.
    Abcs

  12. Fabio Says:

    Faltou completar que eh o cartao VR!

  13. alhos Says:

    Obrigado, Fabio!
    Abraços!

  14. Jose Luiz Says:

    Ola! Ontem finalmente me deixei levar ao Myia. Imaginei que, passado algum tempo, o restaurante já teria atingido a velocidade cruzeiro. Infelizmente ainda falta muito. Após uma bela entrada de foie com doce de leite, chegaram lulas massudas e encharcadas, que pareciam saídas de um dos bares vizinhos. Os pratos, pesados e inexpressivos, não fazem jus a fama e capacidade do chef. O pior é que o Myia estava lá, supervisionando tudo. Um dos garçons, excessivamente intruso, chegou a pegar uma garrafa vazia que estava sobre a mesa e perguntou a todos se estava furada. Uma pena.

  15. alhos Says:

    José Luiz,
    tudo bem?
    Obrigado por seu relato. Uma pena mesmo.
    Abraços!


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