Sobre Papas, empresas de mudança e mistérios

14/03/2013

 

Foi o Papa alemão, veio o Papa argentino, o mundo girou mais um pouco, a Lusitana continua a rodar e certas coisas do mundo das comidas persistem misteriosas. Já dizia um inglês, que nunca foi Papa e muito menos santo: há mais coisas no céu e na Terra do que supõe nossa filosofia (que, por sinal, não era vã, como algum tradutor criativo inventou e virou clichê).

 

Olhem o quanto se investe na montagem de restaurantes, bares e similares: cifras aqui e ali mencionadas beiram a alucinação.

 

Olhem o quanto se gasta —muitas vezes (aí, sim) de forma vã— em assessoria de imprensa. Quantos almoços e jantares são servidos em troca de uma notinha, de um texto num blog ou da notícia num jornal: poucos, afinal, são os restaurateurs que recusam o carrossel da troca de favores.

 

E tantas vezes não se faz o básico, o óbvio.

 

Casa de chá no Itaim. Recém inaugurada, cheia de bossa, investimento notável. Um dos garçons me recebe simpaticamente, indica uma mesa e apresenta o cardápio. Retira-se enquanto escolho e vai receber um casal que chega.

 

Decido em trinta segundos —na verdade, já sabia o que queria.

 

Duas mesas estão ocupadas, por rapazes mais preocupados com seus computadores que com comidas ou bebidas: eles não requerem a atenção de ninguém.

 

Outra mesa ocupada com três funcionários, um deles com jeito de gerente, conversando.

 

Um rapaz e uma moça, garçom e garçonete, rodam o salão. Em vão tento chamá-los. Um, dois, dez, quinze minutos. Passam por mim várias vezes, olhar no horizonte, minha voz e meus gestos se perdem no ar.

 

Desisto, me levanto e vou para a porta. Antes de sair, inquieto, resolvo alertá-los para o que houve. A moça me pede desculpas. O rapaz me dá as costas e despreza também a reclamação. O que parecia gerente se aproxima ligeiramente, ouve parte da conversa e, prudente, se afasta com pressa.

 

Saio estupefato. Não irritado, nem mesmo indignado. Estupefato. Não havia necessidade de tantos funcionários naquele horário —se houvesse menos gente, o chá custaria mais barato? —, no entanto, mesmo com pessoal em excesso, as coisas não funcionam.

 

Duvido que não tenham realizado treinamento. Só que foi ineficaz. Será que gastaram mais em divulgação que em treinamento? Parece provável.

 

O que explica?

 

Inclusive porque o episódio não é exclusivo dessa casa. Já o vivi dezenas de vezes. Umas cinco ou seis delas num dos restaurantes mais prestigiados da cidade. Mistério profundo, o do desleixo no atendimento básico, quando centenas de milhares de reais são enterradas no negócio.

 

Talvez o que haja no céu não seja exatamente o que há na Terra —não importando quem é o Papa, quem gira e quem roda.

 

Talvez haja uma convicção, muito bem estabelecida, que, com a imprensa especializada a favor, ninguém poderá ser contra. E segue a vida.

 

 

21 Respostas to “Sobre Papas, empresas de mudança e mistérios”

  1. lili Says:

    Nome aos bois, por favor.

  2. Adegão, O Says:

    SENSACIONAL!!! É como uma cia aérea. Preocupa-se muito com o marketing, a publicidade, diferenciais, investem tecnologia para check-in pelo celular. Mas basta um avião atrasar, toda a malha aérea é comprometida, funcionários perdidos, atrasam a vida de todo mundo e ainda por cima é maltratado.

  3. tadzio Says:

    basta uma boa alma buscar contato com os olhos do cliente.

  4. alhos Says:

    Lili,
    tudo bem?
    Não nomeei porque o episódio relatado não é exclusivo do lugar em que ocorreu; ao contrário, é bem comum.
    Mas, de qualquer forma, a casa de chá é a Tea Connection do Itaim e o restaurante citado no fim, em que já demorei mais de vinte minutos para conseguir pedir uma água, é o Maní.
    Abraços!

    Adegão,
    obrigado.
    Um pouquinho mais perigoso, no caso da companhia aérea. rs
    Abraços!

    Tadzio,
    tudo bem?
    Pois é… Antes de servir o chá, dar uma colher de chá…
    Abraços!

  5. Mauro Says:

    Compreendo; também se passa muito comigo. Intuo que a razão seja a contratação de garçons sem vocação: querem estar num lugar bacana, ‘fashionable’, mostrar seus físicos de academia, suas tatuagens, mas não sentem disposição para servir os outros (que, aliás, é um exercício de humildade dos mais gratificantes para a alma).

    Por isso, estão ali, mas não vêem os fregueses (sobretudo os como eu, que não têm cara de milionário, nem são jovens, nem se vestem como dândis), não importa quão motivacional tenha sido o seu treinamento.

    Talvez a Psicopatologia da Vida Cotidiana explique essa cegueira (surdez, às vezes!) como um ato falho…

  6. jb Says:

    ótimo texto.

    grande abraço!

  7. alhos Says:

    Mauro,
    tudo bem?
    É isso mesmo. Low profile não funciona quando a mentalidade de quem atende não é republicana.
    Abraços!

    JB,
    obrigado, meu caro.
    Abraços!

  8. Makamello Says:

    Belo texto . Abs .

  9. Ricardo Says:

    Bem feito! Quem mandou ficar tanto tempo sem postar nada… =)
    Ótimo texto, como sempre.

    Parabéns!

  10. alhos Says:

    Makamello,
    obrigado.
    Abraços!

    Ricardo,
    pois é… rs
    Obrigado, abraços!

  11. Leila Maria Says:

    tenho vontade de encher a bolsa com bolas de ping pong antes de ir a um restaurante. dá pra tacar nos garçons sem machucar.

  12. alhos Says:

    Leila,
    tudo bem?
    Meio radical…
    A verdade é que há muitos lugares em que o serviço é ruim, mas, em outros, o treinamento e a atuação da equipe são de ótimo nível.
    Abraços!

  13. mdv Says:

    Que absurdo. Mas na unidade Lorena sempre fui bem atendido, apesar de haver, tb, os tais gerentes na frente dos seus laptops. (Considerando que é a casa de chá que estou pensando, abs)

  14. alhos Says:

    MDV,
    tudo bem?
    A própria.
    Foi só um exemplo. Cada vez mais me surpreendo com o contraste entre a má qualidade do serviço e o exuberante investimento na montagem das casas.
    Abraços!

  15. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Já sendo repetitivo a Casa da Li fecha e Tea Connection segue. Acho que muitos lugares não se preocupam com isto pois cliente não deve faltar. Mesmo porque as pessoas, atualmente, estão mais preocupadas com suas mensagens no celular do que com outros aspectos banais da vida real. Ninguém mais tem apreço para a observação, o passar lento do tempo, ou como você escreveu no post anterior só para ver a chuva lá fora.

    Abraços


  16. acontece bastante comigo – talvez pelo fato de ir muito sozinho a restaurantes. mas certa vez – depois de uma refeição ótima, de serviço péssimo e atendimento abaixo dao mínimo aceitável – eu mandei um email ao dono do restaurante, reclamando. fui prontamente atendido, com pedidos de desculpas e me informando que prefere clientes que reclamam – pois assim pode corrigir o erro – a clientes que saem insatisfeitos.como tenho lojas e também concordo com a afirmação, cedi. e voltei ao restaurante citado e fui prontamente atendido – e tenho a certeza de que não sabiam que eu era o autor da reclamação.
    isto posto, já tive problemas de atendimento na casa citada em seu post – mas na al. lorena…forte abraço

  17. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    A sobrevivência não vem da qualidade ou do preço, nem a clientela é motivada pela alegria e prazer. Uma tristeza.
    Já comentei outras vezes aqui no blog e repito: o fechamento, há vários anos, do restaurante da Cecilia Judkovitch (primeiro, no Bom Retiro; depois, em Higienópolis) é, para mim, a melhor (e mais triste) ilustração disso.
    Abraços!

    Wair,
    tudo bem?
    Há casas que acatam reclamações imediatamente e transformam um pequeno erro num grande acerto. Tive duas experiências memoráveis nesse sentido: uma no Baby Beef Rubaiyat, outra no Bistrô Charlô. Antes do blog existir, naturalmente.
    Outros preferem transformar o pequeno erro num grande erro, e esses casos são muito mais numerosos.
    Abraços!

  18. Marcia Fujii Says:

    Olá, sr. Alho!
    Ótimo ler um texto seu novamente.
    Pelo que já li no seu blog, acho que somos (ou éramos, devido a citação da Lusitana) vizinhos de bairro e resolvi escrever sobre 2 restaurantes novos do Jardim Paulista: o Mimo, que fica a uns 200 m do meu apto e o dge, que imagino, fique perto da sua casa.
    Nos 2, o ambiente é bem agradável, porém a comida do dge é mais interessante, embora eu e meu marido só tenhamos pedido 2 entradas (que estavam muito boas) e 2 drinks; não chegamos a jantar. Mas a impressão é de que o dono abriu o restaurante para ele e os amigos, não quer intrusos.
    Quero deixar bem claro que detesto quando o dono, garçon ou seja lá quem for gruda na sua mesa e fica tentando te bajular; prefiro quando o garçon deixa a garrafa de vinho na mesa para ser servida por quem está comendo, sem intromissão desnecessária e também não tenho manias persecutórias, frequento bares/restaurantes de 2 a 3 vezes por semana, do Bar do Biu ao Epice, fora o quilo de cada dia no almoço.
    Mas no dge eu me senti como numa festa em que vc descobre que só foi convidado por educação, não era para vc estar lá.
    O garçon estava um pouco destreinado, mas era bem esforçado, só que faltou algo. É o que vc escreveu, alguém gasta muito dinheiro para abrir um negócio e penso que quer que ele vá para frente …mas só seus conhecidos não vão te sustentar. E apesar disso, pretendo voltar e experimentar a feijoada qualquer sábado, sou persistente.
    O Mimo tem um atendimento, ou melhor, uma acolhida melhor, e uma assessoria de imprensa fantástica, desde que abriu, aliás bem antes, já estava na mídia. Até me chamou atenção pois foi o único post recente da Ailin que teve vários comentários, todos positivos em relaçao ao restaurante (geralmente, quando alguém comenta é: que linda a foto, fiquei com água na boca), mas com tudo isso a comida não impressionou, não fiquei com vontade de voltar.
    Puxa, escrevi muito, desculpe, mas sempre tive vontade de me comunicar com vc, uma das poucas pessoas lúcidas e honestas desse mundinho gastronômico.
    Um abraço
    Marcia

  19. alhos Says:

    Marcia,
    tudo bem?
    Muito obrigado por seus comentários e elogios. Tomara que eu mereça. rs
    Somos de fato vizinhos, ou quase. Moro na Campinas, a quarenta metros do Dgé.
    Fui lá cinco ou seis vezes e, no geral, gostei. No início, o bartender era excelente; a moça que o sucedeu trabalha bem, mas (ainda?) não tem o brilho do antecessor. A comida também me agradou quase sempre e os preços são honestos. Felizmente não tive a sua sensação de “estrangeirismo”: o atendimento foi sempre atencioso, embora, de vez em quando, meio atrapalhado.
    Ao Mimo, ainda não fui. Fiquei muito impressionado, tal qual você, com a insistência da divulgação midiática e isso me afastou. Trabalho exagerado de assessoria de imprensa exerce, em mim, o efeito contrário. rs. Mas irei em breve.
    Abraços!

  20. Márcia Lazzarotti Says:

    Alhos,

    como vai? Tudo bem?

    Fugindo um pouco do assunto, li seus comentários sobre restaurantes de Tiradentes (MG). Não sou tiradentina, mas sanjoanense. Também adoro Tiradentes. Não apenas por ser uma cidade bucólica, histórica e extremamente bem preservada, mas pela suas características de misturar o antigo e o novo sem prejudicar seu belo passado colonial.

    Como mineira, afirmo que estamos de braços abertos para recebê-lo, quando algum dia, quem sabe em uma aposentadoria precoce vir morar em Minas.

    Não exerço cargo político, nem tampouco sou rica, sou apenas uma bancária que se deleita com seus belos textos.

    Abraços,

    Márcia de São João del-rei.

  21. alhos Says:

    Márcia,
    tudo bem?
    Muito obrigado pelos comentários e pelo acolhimento.
    Já estou sentindo faltas dos ares daí. Espero voltar logo.
    Abraços!


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