Uma noite no jardim de inverno

13/08/2013

 

Poucas coisas são mais perigosas, no mundo das comidas, do que certos eventos gastronômicos: jantares com chefs convidados, festival disso ou daquilo. Aprendi a evitá-los depois de ter caído em algumas armadilhas.

 

Certa vez tive o duvidoso prazer de acompanhar a animada conversa da chef siciliana convidada, confortavelmente sentada na mesa ao lado, enquanto enfrentava massas muito mal preparadas. Outra vez, num “festival” de Jerez e presunto cru, me deparei com três ou quatro reles fatias do presunto e tive que implorar ao garçom para conseguir uma segunda taça de Jerez.

 

A verdade é que tais eventos são, quase sempre, uma espécie de show-room: prestam-se à divulgação de um restaurante ou produto. Neles, a comida só é protagonista na aparência.

 

Pior ainda é quando, investidos de suposto glamour, os eventos atraem cardumes de exibicionistas e a comida… Bem, nesses casos, calculo que ninguém se importe muito com a comida.

 

Três semanas atrás, no entanto, recebi uma mensagem que divulgava um jantar especial. Intitulado “(Re)conheça jardim de inverno”, tinha a ambição de apresentar plantas — comestíveis, claro — inusuais nos cardápios. Seriam seis pratos, elaborados por Alberto Landgraf, Alex Atala, Fernanda Valdivia, Helena Rizzo, Roberta Sudbrack e Rodrigo Oliveira. Ou seja, uma boa ideia e alguns dos melhores chefs hoje em atividade no Brasil.

 

Comentei em casa que tudo parecia interessante: pela proposta, pelos cozinheiros e pelo fato de o evento ser idealizado pelo C5 — Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, liderado pelo mestre Carlos Dória.

 

Foi então que ouvi algo ainda mais interessante: e se o jantar fosse meu presente do dia dos pais?

 

Como você sabe, caro leitor, é indelicado, muito indelicado, recusar presente dessa ordem…

 

E assim fomos nós, plena segunda à noite (tendo que levantar às 5h30 da terça), para a Manioca — do Maní —, que organizou e hospedou o evento.

 

No coquetel de abertura, com petiscos sensacionais de Helena Rizzo, o destaque foi o peixinho-da-horta — peixe planta, não bicho — com ovas de truta.

 

Em seguida, o desenrolar do cardápio:

— batata doce, pera fermentada, capuchinha e iogurte (Landgraf);

— purê de taioba com moela e coração de galinha (Atala);

— pargo pochê em vinagrete de ora-pro-nóbis e cúrcuma (Sudbrack);

— cozido de guandu com caldo de suã, abóbora, vinagreira e barriga de porco brulée (Oliveira);

— mil folhas com sorvete de lírio do brejo (Rizzo);

— suflê de chocolate com sorbet de banana e bacupari (Valdívia).

 

Salgados e doces muito bons, mas o purê de taioba com moela e coração ia além e o cozido de guandu & cia. era arrebatador: foi o grande prato da noite.

 

Para acompanhar o coquetel e os dois primeiros pratos, champagnes. Para os demais, vinhos nacionais: chardonnay para o pargo, merlot para o guandu, espumantes para os doces. Bebidas boas, generosa e ininterruptamente repostas — algo quase inacreditável em eventos gastronômicos e altamente preocupante para quem devia dirigir depois.

 

Um presente de dia dos pais maravilhoso, claro.

 

Qual é a conclusão? Duas conclusões.

 

A primeira é que continuarei evitando eventos gastronômicos — o jantar de ontem não tem qualquer relação com festivais e visitas de chefs convidados. Foi, em dois adjetivos, um jantar sério e lúcido: afinal, o que estava em jogo ali era o desenvolvimento e a divulgação de uma ideia, de um conceito. Claro que tal ideia e qual conceito podem ter, ou vir a ter, sentido comercial, mas a lógica que presidia o jantar não era a do mercado, em sua fúria sanguinária, na busca imediatista por consumidores.

 

A segunda é que ideias e conceitos podem (e devem) ser postos à mesa. Numa época em que tantos cozinheiros fazem suas ideias (ou as alheias) prevalecer ao sabor, tendemos a reagir ao excesso de conceituação e pirotecnia no mundo das comidas. Mas só e simplesmente porque muitas vezes as ideias são mal traduzidas  para o prato.

 

Ou porque as pessoas esquecem de oferecer o que há de mais elementar em qualquer refeição: o prazer de comer.

 

 

15 Respostas to “Uma noite no jardim de inverno”

  1. Sérgio S. Says:

    Caro Alhos,
    parabéns pelo dia dos pais e pelo presente que você recebeu.
    Realmente interessante, não parece nem de longe ter sido representativo dos famigerados eventos gastronômicos.
    Pessoalmente, teria sido um desafio encarar o prato com moela, uma das pouquíssimas comidas que não me apetecem de jeito nenhum.
    Um abraço,
    Sérgio


  2. Acompanhei de longe e tive a mesma impressão: a de que o prato do Rodrigo parecia ser o melhor da noite. Experimentei versão deste prato há cerca de um ano, num festival fora do Brasil, e penso nele até hoje.

  3. alhos Says:

    Sérgio,
    obrigado.
    Não posso dizer o mesmo… Sou louco por moela.
    Recomendo, se quiser fazer um teste, que prove o prato de moelas e fígado na grappa, da Tappo Trattoria, uma das melhores entradas servidas em restaurantes paulistano.
    Abraços!

    Constance,
    todo o jantar foi muito bom, mas o prato do Rodrigo Oliveira estava mesmo sensacional.
    Beijos!

  4. Janaina Says:

    Análise precisa, Alhos! Uma vez mais. Presentão de dia dos pais. Sua filha acertou em cheio!
    Adorei encontrar você e conhecer a família!
    Beijos,
    Janaina

  5. carlos doria Says:

    Alhos, é muito estimulante ler isso! Obrigado.

  6. alhos Says:

    Janaina,
    obrigado.
    Ótimo (sempre) encontrá-la.
    Beijos!

    Dória,
    quem deve agradecer sou eu.
    Abraços!

  7. Ana Says:

    Excelente mesmo. Mas, na verdade, o C5 e o Carlos Doria foram os idealizadores do evento, que foi organizado pelo Manioca.


  8. Os pratos continuam? Ou foi samba de uma noite só? Amei a idéia.

  9. alhos Says:

    Ana,
    obrigado pela correção. Acertei o texto, indicando que foi idealizado pelo C5 e organizado e hospedado pelo Maní-Manioca.
    Abraços!

    Cris,
    uma noite só. Espero que haja outros eventos e outras noites.
    Beijos!

  10. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão,

    Com esta descrição tão deliciosa não tem pude evitar uma pontinha de inveja…rsrs.. Presente merecido.

    Abraços

  11. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Obrigado.
    É inveja merecida. rs
    Abraços!


  12. Desculpa, mas inveja mode on…
    adoro moela. e ora pro nobis, quase desconhecida aqui (só vejo nas Minas Gerais)
    ótimo tema, sorte de quem esteve lá para comprovar isto. forte abraço!

  13. alhos Says:

    Wair,
    tudo bem?
    Tomara que a experiência se repita.
    Abraços!

  14. Alessandra Says:

    Oi,

    Desculpe invadir seus comentários desta forma, mas trabalho na http://www.zomato.com, a plataforma social de descoberta de restaurantes que cresce mais rápido no mundo e chegaremos em SP em outubro. Estamos conversando com diversos foodies, blogueiros e jornalistas.

    Qual seria a melhor forma de entrarmos em contato?

    Obrigada,
    Alê

  15. alhos Says:

    Alessandra,
    tudo bem?
    Pode me escrever no email alhospassas@uol.com.br
    Abraços!


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