Meus oito anos

29/10/2014

 

Em agosto, esse blog fez oito anos, desde seu início no uol. Em setembro, completaram-se seis anos aqui no wordpress. Em outubro, ele ultrapassou a casa dos 400 mil acessos.

 

As três cifras tinham passado despercebidas até agora; hoje me dei conta delas e resolvi escrever, embora não tenha vontade de comemorar. Basta notar que há mais de dois meses, desde o mesmo agosto, não publico nenhuma resenha. Abandonei o blog? Não, mas confesso que anda difícil prosseguir.

 

Seis ou oito anos atrás, a gastronomia brasileira vivia dias de efusividade. Havia um pouco de tudo —inclusive falso glamour, modismo, alguma pilantragem e excesso de pretensão—, mas sobretudo vontade e ânimo nas cozinhas, nas redes sociais e nos jornais. A imprensa especializada mostrava o potencial do que poderia ser pensado e discutido, os chefs tateavam e inventavam. Era divertido e gostoso comer fora.

 

Seis ou oito anos depois —hoje—, o gás acabou. Foram-se os tempos algo heroicos e germinaram, brotaram e proliferaram o oportunismo e o cinismo. Os preços dos restaurantes, que nunca foram baratos, ultrapassaram qualquer limite do bom senso. Os cardápios se repetem ou repetem velhas fórmulas, requentadas em óleo queimado.

 

O conceito de crítica se alastrou, a ponto de incluir a publicidade —explícita ou mascarada—, e é espantoso que poucos percebam que essa fronteira é necessária. As redes sociais tornaram-se espaço de exibicionismo sem graça e sem gosto, de adulação recíproca (em geral, falsa) entre donos de restaurantes e foodies —esses personagens que seriam normais, talvez inevitáveis, se fossem tratados como clientes comuns e não passassem a pautar a ação e a vontade de muitos.

 

A imprensa gastronômica ficou à mercê dos releases (mal) escritos por inefáveis assessores de imprensa ou dos agrados de comerciantes e importadores —no fundo, trocar a opinião por uma caixa de vinho, por um atendimento preferencial ou por um jantar é apenas corrupção, e barata. Os eventos gastronômicos se tornaram o melhor jeito de captar recursos e passaram a abrigar lances publicitários, clichês, performances vazias e gastrogroupies em ebulição.

 

Claro que existem exceções. A um quarteirão da minha casa, abriu o Micaela —tão pequeno quanto bom. Em Santa Cecília, uma das melhores cozinheiras de São Paulo, Talitha Barros, criou o maravilhoso Conceição Discos & Comes —onde às vezes cogito morar. Consigo ainda lembrar de dois restaurantes que, salvo engano, não entram no jogo da divulgação paga: o Sal e o Bravin. No universo da crítica, Arnaldo Lorençato, Helena Galante, Luiz Américo Camargo e Constance Escobar continuam a mostrar competência, honestidade e seriedade. É pouco, é minoritário.

 

Talvez seja um olhar pessoal, contaminado por meu meio século de vida, que embale a nostalgia e o pessimismo. Talvez sejam as inúmeras histórias que ouvi —muitas das quais confirmei— nesses seis ou oito anos. Talvez seja o cansaço de observar a canalhice quase ritualística de um ou outro personagem desse mundo das comidas. Talvez seja um período de ajuste do mercado. Talvez seja a saudade que tenho da aurora do meu blog, que os anos não trazem mais.

 

A verdade é que não vejo qualquer motivo para comemorar.

 

 

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25 Respostas to “Meus oito anos”

  1. Patricia Lopes Says:

    Parabéns! Sigo teus passos há bastante tempo e não me arrependo por isso! 😉
    Fico feliz (triste, na verdade, por ter isso a dizer…) que você tem essa coragem de dizer o que é certo!
    Há quase 3 anos voltei a morar no Brasil, depois de 8 anos fora. Estava feliz e ansiosa com o “boom” que havia acontecido na área gastronômica. Hoje tenho o mesmo sentimento que você. Estou cansada do gourmet…

  2. alhos Says:

    Patricia,
    obrigado.
    Esse termo “gourmet”… Que mal fez, não?
    Abraços!


  3. Lúcido e, acima de tudo, corajoso. Obrigada por existir.

  4. Reinaldo Mandacaru Says:

    Parabéns! Vida longa para o Alhos, passas & maçãs.
    Sempre informativo, sem se corromper com jabás & afins.
    Continue postando!!!
    Abraços!

  5. alhos Says:

    Constance,
    obrigado – não só pelo comentário.
    É recíproco, você sabe. Sabe também que há, no texto, muito de nossas conversas.
    Beijo.

  6. alhos Says:

    Mandacaru,
    muito obrigado.
    Abraços!

  7. Flavio Says:

    Parabéns pelo trabalho alhos! Seus textos são muito bons.
    Curiosidade : Como você se porta perante a convites dos restaurantes ? Nunca aceita ? Ou aceita com restrições ?


  8. Alhos, tem horas que realmente dá preguiça de tudo: das pessoas, dos chefs popstar e dos jornalistas “gourmet”. Tem horas que escrever dói, pois um bom prato de comida – isolado dos holofotes e dos celulares – é o suficiente. Por favor, não desista. Acredito que seja um ajuste de mercado como a proliferação das duplas sertanejas na década de 1990. Surgem 404 e ficam 2. Mesmo assim, questiona-se a qualidade.
    Abraços,
    Rodrigo Caetano, do Gastronomix

  9. alhos Says:

    Flavio,
    obrigado.
    Não aceito nunca. Acho impossível avaliar quando não se paga a conta.
    Abraços!

  10. Daniel Says:

    Não desista, Alhos. Por favor, persista.

  11. Luiz Américo Says:

    Caro,
    Uma honra ser citado nesta festa não-festa. Como leitor, sinto-me grato por essa já longa trajetória – e sempre torço para que venha uma nova postagem. Fique com a parte boa da história, no que se refere ao panorama: com tantos altos e baixos, com tantas fases diferentes ao longos desses anos, ainda há onde comer bem. Parabéns!


  12. Curiosamente também estou desanimada de escrever no meu blog. Quando o idealizei há três anos queria fazer algo diferente do que vinha acontecendo na capital mas vejo que as pessoas não estão preparadas para isso pois não conseguem digerir textos críticos que sugerem alguma reflexão.

    Da mesma forma, as assessorias de imprensa assediam os blogueiros com trocas de favores, jantares, vinhos em busca de uma notícia copiada e colada sobre o cliente. Sobre restaurantes poucas vezes me dei ao luxo de escrever, apenas quando a experiência realmente era louvável (ou o contrário) e com contas pagas por mim.

    Se tudo isso é um problema em SP, imagina em Brasília! Blogueiros se dão ao luxo de se convidarem para eventos e se acham importantes no cenário gastronômico local.

    No fim, sempre volto atrás e resolvo escrever outro “post” na tentativa de inspirar e mudar essa realidade.

    Sucesso e força de vontade! Não desista!

  13. alhos Says:

    Rodrigo,
    obrigado. Desculpe a demora na liberação de seu comentário. Ele caiu, sei lá por quê, na caixa de spam, e só o vi hoje.
    Um prato de comida, é disso que precisamos, não da espuma que o cerca.
    Abraços!

    Daniel,
    obrigado. Sigamos.
    Abraços!

    Ana Paula,
    obrigado. Mesmo tendo um blog, não compreendo o conceito de “blogueiro”.
    Abraços!

  14. alhos Says:

    Luiz Américo,
    obrigado.
    A honra, no caso, é minha. A parte boa da história é o que faz prosseguir; prossigamos.
    Abraços!

  15. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Como seu leitor tenho a comemorar a clareza o equilíbrio de seus comentários em todos esses anos. E claro, como não poderia deixar de ser, os textos deliciosamente bem escritos.

    Como escreveu Saramago:“Não sou pessimista, o mundo é péssimo. São os pessimistas os únicos que querem mudar o mundo. Para os otimistas tudo está muito bem. Deveria-se fazer profissão e militância do pessimismo”.

    Grande Abraço

  16. alhos Says:

    Ricardo,
    obrigado duplo ou triplo: pelo comentário, pela citação de Saramago e, principalmente, pelas leituras constantes.
    Abraços!


  17. Belíssimo texto caro Alhos. A gastronomia, hoje em dia, mais parece um smartphone. Faz de tudo menos telefonar. Espero que, quando essa onda acabar, os restaurantes voltem a cozinhar, atender bem QUALQUER um e pensem mais na comida.
    Um forte abraço!!! Adegão.

  18. Paula Germano Says:

    Parabens pelo post. O mais sincero, honesto e corajoso que vi nos ultimos tempos. Tambem estou cansada dessa babacao em volta da gastronomia.
    Me entristece ver que, hoje, as pessoas formadoras de opiniao nao passam de poucas pessoas endinheiradas que, do assunto, nada entendem. Uma pena..
    Fico pensando se em outras cidades grandes no mundo afora, esse credito desnecessario tbm e’ dado a esse tipo de pessoa.
    Longa vida a carne seca e por um mundo com menos dry age.

  19. alhos Says:

    Adegão,
    obrigado.
    Ótima comparação! Tomara, tomara.
    Abraços!

    Paula,
    obrigado.
    Acho que, fora do Brasil, há setores em que esse comportamento se reproduz, mas calculo que seu impacto na ação de chefs e críticos seja menor.
    Abraços!

  20. Bruno Rabello Says:

    Acho que entre os que demonstram competência, honestidade e seriedade na crítica gastronômica deve ser incluído o JB do Boteco do JB. Para mim, ele desempenha um papel fundamental contra o deslumbramento!

  21. Isabelle Lindote Says:

    Sinto muito que não tenha vontade de comemorar, pois é por conta de blogs como os seus que sinto cada vez mais vontade de conhecer lugares que valem a pena. Eles existirão enquanto existirem cozinheiros em busca de oferecer boa comida, independentemente dos holofotes. Sempre há um espacinho para a felicidade de provar pratos feitos com amor – e escrever sobre eles. Neste post mesmo você cita locais sobre os quais ainda não havia escrito e que podem render textos mais saborosos de serem feitos e lidos. Parabéns e vida longa! 🙂

  22. alhos Says:

    Bruno,
    desculpe-me a demora na liberação do comentário. Ele caiu na caixa de spam e só hoje o encontrei.
    Muito obrigado pelo comentário.
    Abraços!

    Isabelle,
    obrigado.
    Sim, há muitos lugares interessantes pela frente.
    Abraços!

  23. Adriana Says:

    Alhos,
    Devemos mesmo nos questionar sobre o que fazemos, como fazemos e com qual finalidade. As nossas ações deveriam sempre estar pautadas no outro, no que provocamos, no que despertamos ao nosso redor. Na minha opinião seus textos são um alento para pessoas que como eu gostam do alimento e de tudo que o rodeia. Você humaniza estes momentos e disto todos nós precisamos. Tolstoi tem uma frase que gosto muito:” O lugar que ocupamos é menos importante do que aquele para o qual nos dirigimos”. Não nos abandone!!


  24. Pelo mesmo sentimento, somado a novas tarefas profissionais (essas rentáveis) que sugam nosso tempo, Débora e eu acabamos com o Brincando de Chef, criado no início de 2006. Nem fizemos post de despedida, a chama foi se apagando até simplesmente não renovarmos o domínio. Foram ótimos tempos aqueles, quando quase nada existia de “blogagem gastronômica”. Principalmente pelos grandes amigos que fizemos, dos quais seguimos próximos. Mas toda boa história também precisa de um ponto final. Só espero que o do Alhos e Passas ainda demore, mas talvez seja egoísmo puro desse leitor aqui.

    abraços,

  25. alhos Says:

    Adriana,
    obrigado.
    Sigamos em frente.
    Abraços!

    Fernando,
    obrigado.
    Não sei bem até quando, mas, por enquanto, seguimos.
    Abraços!


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