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Beato

28/03/2015

 

Num primeiro olhar pelas redes sociais, o mundo das comidas parece ter virado uma imensa Disneylândia: entretenimento ininterrupto, sorrisos estampados nos rostos, infantilidade, disposição lúdica acima de qualquer coisa.

 

Se observarmos melhor, porém, cai essa máscara e emerge outra, assustadora, com toques de declínio e queda do Império Romano: certo tom orgiástico, alegria artificial, despudor a toda prova, bebidas que jorram, ostentação, fluidez ética e moral.

 

Verdade que os dois grupos são mais complexos do que a rápida descrição acima.

 

No primeiro, nem tudo é festa; há também encenação: alguns dos que parecem apenas se divertir, na verdade, colhem frutos bastantes significativos nas verdes matas de sua ilha da fantasia.

 

O segundo talvez seja mais compreensível por meio de uma sentença psicanalítica de botequim: decadência sem elegância.

 

Divirta-se quem quiser, mas meu mundo é outro. E tão exageradamente outro, que chego a implicar, às vezes injustamente, com restaurantes que são endeusados por uma dessas duas turmas, as verdadeiras ou falsas criançonas e os romanos tardios.

 

O efeito é que basta iniciar-se uma celebração exaustiva de alguma casa para me manter afastado de lá.

 

Foi assim com o Beato, na primeira fase. Demorei a ir e, quando fui, encontrei uma cozinha de resultados inexpressivos e as piores cadeiras da face da Terra. E foi assim com o Beato, na segunda fase —só que, felizmente, dessa vez os resultados foram melhores.

 

O Beato —e todos sabem disso— mudou de direção há uns meses e sua cozinha ganhou as mãos e o imenso talento de Alberto Landgraf. O salão abandonou a falsa suntuosidade (e, vale lembrar, as horríveis cadeiras) da primeira fase e assumiu tom mais informal. O cardápio foi montado a partir de um conjunto de petiscos (grafado em português camoniano no menu: snacks), meia dúzia de entradas e oito pratos principais. A carta de vinhos e de cervejas tornou-se enxuta e inteligente. O bar passou a ser liderado por Kennedy Nascimento, que antes trabalhou no MyNY bar e no Épice, do mesmo Landgraf. (Sei que o restaurante prefere não acentuar o E inicial, talvez por temer uma pronúncia aportuguesada e aberta, mas não resisto: acentuo.)

 

Logo depois da reabertura, ganhou ares de nova estrela da gastronomia paulistana e foi cantado em verso e prosa —o que imediatamente me fez evitá-lo. Mais cedo ou mais tarde, sabia, acabaria por conhecê-lo: não havia pressa, não era desses restaurantes bonitinhos, moderninhos, inexpressivos e de vida brevíssima. Um compromisso lá perto, ontem, trouxe a chance para um jantar em família.

 

Dos snacks, comemos a mandioca frita na manteiga de garrafa, com salsinha, e a tapioca com requeijão e carne seca: petiscos de origem idêntica e identicamente deliciosos.

 

Entre os principais, tagliatelle com mexilhões, atum com pupunha e barriga de porco com purê e vagem. Tagliatelle extraordinário no sabor, no cozimento, no molho; infelizmente com pouquíssimos mexilhões, e rijos. Atum saboroso, igualmente no ponto. Maravilhosa barriga de porco, deliciosa vagem, purê quase sem sal.

 

Do bar veio um Bloody Mary bem montado, mas com suco de tomate (caseiro) curado demais e temperado demais para meu gosto. Questão de gosto, claro, ou de um pequeno deslize —pequeno mesmo, perto da qualidade do jantar e dos preços justos do cardápio.

 

Saímos intimamente felizes —a prova dos nove de um jantar. Justamente por isso preferimos não publicar, nas redes sociais, fotos de todos os pratos, carregando nos adjetivos vulgares para celebrar a comida ou o lugar. Tampouco nos fizemos mostrar meio tortos, caricaturas vivas sob a lua, em êxtase gastronômico.

 

Porque um bom restaurante não precisa associar-se à propaganda falsamente espontânea ou ao desvario fingido dos que não percebem que o Império está à beira do abismo.

 

Um bom restaurante —e o Beato em sua nova fase é muito bom— vive da qualidade de seu trabalho.

 

 

Beato

Rua dos Pinheiros, 174, Pinheiros, São Paulo

tel. 11 2538 8107

 

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