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Itadakimasu

01/04/2012

 

Colaboração e fotos de @bronza

 

A surpresa, o inesperado às vezes alteram radicalmente nossa vida, transformam tudo aquilo em que acreditamos. Quem nunca se deu conta, de repente, de um grande erro que cometia ou do disparate do que dizia?

Não sou, claro, exceção.

Andava outro dia pela Liberdade. Hora do almoço, ligeiramente faminto. Cogitei entrar num ou noutro restaurante, desisti. Preferi flanar por ali, descer uma ladeira, subir outra, virar à direita, à esquerda. A esmo.

De repente, não mais que de repente, vi uma porta minúscula, quase insignificante. Duas pessoas saíam dela, sorridentes em sua conversa de sons que não reconheci.

Por que não arriscar?

Passei a porta, subi os quinze ou vinte degraus que levavam a um salão minúsculo —quatro mesas—, de luzes fracas. Cumprimentei, com ligeira inclinação do dorso, uma senhora que estava encostada à parede meio descascada de um vermelho fanado.

Nenhuma resposta. Mesmo assim dei um passo e meio em direção à mesa mais próxima, única vazia, e me sentei. A senhora veio até a mesa e parou, sempre em silêncio. Ensaiei dizer algo, ela apenas moveu brevemente a cabeça, em recusa: não me entendia. Não falávamos a mesma língua.

Único ocidental por ali, fiz gesto de quem quer o cardápio. Novo silêncio, novo movimento breve e negativo de cabeça. Aparentemente não havia cardápio. Apelei, então, para a linguagem universal: mão na direção na boca, queria comer.

Ela balançou a cabeça breve e agora afirmativamente e se retirou.

Voltou minutos —longos minutos— depois.

Naquele momento vislumbrei o paraíso, manifesto na plasticidade que só a culinária japonesa oferece e, em seguida, no prazer gustativo inenarrável. O mais belo e saboroso teishoku que já provara.

Precisa dizer alguma coisa?

 

Camarõezinhos, legumes e brotos no ponto exato. A anchova, de textura perfeita, tinha pele crocante e era pura suculência.

Croc-croc… Nhac!

 

E o gohan… Ah, o gohan! A imagem fala por si:

Mais que um gohan: um gol-han, gol de placa-han!

 

Para comer com o tato, o olhar, o olfato, a audição (as canções nipônicas completavam o clima). Sentidos eriçados, meu paladar vibrava.

E o bolso agradeceu ao receber a conta de meros 15 reais —cerca 8 euros: em que parte do planeta se come tão bem por tão pouco?

Emocionado como nenhuma comida jamais me deixara, saí de lá em puro enlevo. Não hesitei. Telefonei para meu amigo Bronza, especialista em comida japonesa (ele almoça na Liberdade, em média, seis dias e meio por semana) e consultor para assuntos gastronômicos e fotográficos.

Falei da revelação que vivera —para que serve uma refeição se não nos surpreender?— e propus que voltássemos lá, juntos, no dia seguinte. Ele recusou: demoraria demais, me disse. Marcamos, então, para o jantar do mesmo dia.

Tão empolgado que estava, nem consegui voltar para casa. Também não queria sair do universo japonês em que casualmente penetrara e que me transportara para outros tempos e lugares.

Fiquei zanzando pelas ruas do bairro oriental até que escurecesse e afinal chegasse a hora de jantar.

Demorou. Como demorou!

Às 18h30, hora de reabertura da casa, estávamos lá, na porta.

Bronza veio munido de explícita e impressionante desconfiança. Óbvio que não tinha acreditado nos elogios que eu fizera por telefone. “Você rasgou seda demais”, me disse. Respondi com movimento negativo e breve da cabeça.

Subimos ritualmente os degraus. Lá estava a mesma senhora e a recepção foi idêntica à do almoço: imóvel e silenciosa.

Busquei a mesma mesa, nos sentamos, fiz o gesto de quem quer —precisa— comer.

Aguardamos.

Pedi a Bronza que fotografasse os pratos: era comida de se comer também com os olhos e queria que os leitores do blog percebessem.

Chegaram os fresquíssimos sushis: 

Nham, nham…

 

E os niguiris:

Olha a textura!

 

Comíamos em postura quase religiosa. Vez ou outra, um de nós se levantava de espanto e reverenciava a senhora.

E nem sabíamos o que nos aguardava…

Huuuummm!!!

 

O porco não parecia desse mundo. O molho, concentrado, exalava aromas que nunca havíamos sentido. O sabor… Não, nenhuma palavra conseguiria expressar.

Bronza reconheceu, finalmente, que não havia exagero no que eu lhe dissera. Estávamos diante do melhor restaurante japonês de São Paulo. Japonês de raiz, que oferecia a preços baixíssimos uma impressionante qualidade de ingredientes e uma inacreditável profundidade de sabores.

Mas eu também precisava admitir algo.

Muitas vezes recusei publicar fotos no blog e repeti o mantra —hoje sei, equivocado— de que as imagens não tinham a capacidade expressiva das palavras.

Pedi a ele que autorizasse o uso das fotos e, a bem da verdade, nem devia ter escrito nada no post. Porque agora reconheço: imagens falam mais do que mil palavras.

Pelo menos, só elas conseguem mostrar o que é uma refeição no paradisíaco e incomparável Itadakimasu.

 

Itadakimasu

Rua Maboroshi, 14, Liberdade, São Paulo

(a casa não tem telefone)

 

ps. Caso você, leitor, tenha ficado empolgado ou indignado, alerto:

– repare na data em que o post foi publicado;

– dê uma olhada nos comentários e nas respostas a eles.