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Perfeito

07/05/2009

 

A Gael Green diz que é o melhor restaurante de Nova York. O Anthony Bourdain, também.

As quatro estrelas dadas pelo New York Times confirmam – uma delas, nos tempos da Ruth Reichl. Aliás, é o único restaurante que recebeu as quatro estrelas três vezes.

Le Bernardin, claro.

Nos despedimos da cidade, em janeiro, com um almoço lá.

O Bernardin é dedicado aos frutos do mar e o chef, Eric Ripert, um dos mais respeitados da cidade.

Salão bonito, discreto, florido e elegante. Louça, cristais e talheres excelentes.

Uns três sommeliers circulando entre as mesas. Atendimento de dois garçons por mesa: atentos e precisos, sem o desagradável estilo pegajoso e bajulador de alguns restaurantes chiques de São Paulo.

A casa propõe preço fechados por pessoa, com direito a escolher, dentre as opções do cardápio, uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. No almoço, 68 dólares; no jantar, 109. Algumas das escolhas implicam acréscimos (por exemplo, se você quiser acompanhamento de caviar iraniano…).

Compare com os preços dos melhores restaurantes de São Paulo e tire suas conclusões.

O couvert trouxe manteiga, variedade de pães (da casa, obviamente) e torradas e um tartare de salmão sem equivalente. Pensei até em perguntar se preparariam um container para que eu trouxesse para o Brasil.

A entrada que minha filha escolheu tinha salmão orgânico defumado, agrião, aipo e maçã, acompanhados por uma emulsão de jalapeño, que atenuava o picante sem eliminá-lo. Ótima.

Minha mulher pediu um atum sobre torrada com um filete de foie. O peixe e o fígado, diversamente gordos e de sabor intenso, combinavam maravilhosamente.

Mas – modéstia de lado – a melhor entrada foi a minha: um conjunto de seis ostras, com variação de tempero e de picante. Cada uma delas era um caso de polícia de tão fresca e gostosa. Tem algum adjetivo acima de maravilhoso? Se lembrarem, por favor, encaixem nesse espaço __________.

E os pratos principais?

Minha filha pediu a arraia com noodle e cogumelos secos, no molho de broto de bambu. Muito gostosa, mas picante demais para um paladar de nove anos: o prato ficou com minha mulher.

E ela então cedeu seu robalo com lagostim (ligeiramente assado), confit de tomate, consommé de bouillabaisse e emulsão (suave) de curry. Você consegue imaginar, leitor, o que é esse prato? Digo-lhe apenas que cedê-lo à filha comprova uma velha máxima: mãe é mãe.

Eu fiquei com o tamboril na panela, com tabule de cuscus israelense, alho negro e molho de lima da Pérsia. O prato valeria a pena só pelo conjunto de aromas que soltava. A lima, o peixe e o alho levam os aromas da acidez da fruta (sim, sei que acidez é sabor, não aroma, mas você sabe do que estou falando) ao discreto cheiro de cogumelo provocado pelo alho e à maresia do peixe.

Meu Deus… Na boca, o alho adoça o paladar e dialoga com a acidez (agora, sim) da lima. O preparo na panela concentra mais o sabor suave do tamboril, cuja textura firme faz subir o tom e deixa a síntese de sabores para as bolinhas de cuscus. Well…

E ainda tinha a sobremesa. Sorvete simples de baunilha para Lia. Gi preferiu a pannacotta à base de iogurte, com sorbet de romã, sorvete de limão, hortelã, raspas de laranja e bolinhas de romã. Dá certo. Muito certo. Minha sobremesa também parecia, pelo cardápio, um pouco rocambolesca. Mas era maravilhosa: tortinha de chocolate amargo, amendoim e caramelo, acompanhada de sorbet de limão com crocante de amendoim e purê de limão-meyer.

Nada a dizer, fora o fato de que tínhamos acabado de fazer uma das melhores refeições da nossa vida.

Ripert circulou pelo salão, trocou meia-dúzia de palavras com cada comensal, confirmou sua boa fama.

Tomamos um expresso e saímos à rua deliciados, após pagar a conta de 238 dólares (só água e, claro, suco de cranberry para Lia), acrescidos da habitual gorjetinha novaiorquina: mais 42.

Caro, é claro. Porém não para os padrões da cidade e, a bem da verdade, nem para os paulistanos, se considerarmos a qualidade de tudo: dos ingredientes ao serviço, da louça ao conceito, da execução ao respeito absoluto ao cliente.

Não tenho gabarito para dizer, nem conhecimento suficiente (há centenas de restaurantes novaiorquinos a que obviamente nunca fui e, entre eles, o Per Se e o Masa), mas acho que Gael Greene, Anthony Bourdain e Ruth Reichl têm razão.

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