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O doce e o salgado

28/03/2012

 

Dia de semana, vontade de comer fora de casa.

 

Pegamos nossa filha na escola e fomos em busca do restaurante em que pretendíamos almoçar. Cheio. Espera de quarenta minutos. Inviável.

 

Atravessamos a rua e entramos no Na cozinha.

 

Pequeno, informal. Almoço executivo a bom preço, mas preferimos recorrer ao cardápio.

 

Boa porção de pastéis, enquanto esperávamos os principais — minha mulher escolhera o cupim de panela com mandioca frita e quibebe; minha filha, o penne com mix de cogumelos e aroma de trufas; eu optei pelo baião de dois com medalhão de filé, farofa e melaço.

 

Porções grandes, quase exageradas. Massa no ponto certo, carnes corretamente preparadas.

 

Uma característica do cupim e do baião, no entanto, nos chamou atenção para um fenômeno que parece se alastrar por São Paulo: a tendência a adoçar os pratos salgados.

 

Veja, leitor, não tenho nada contra a combinação de doces com salgados.

 

Ao contrário: lembranças infantis me trazem almoços preparados por meu pai, pródigo e preciso na associação desses sabores mais complementares que antagônicos.

 

O cuidado, no entanto, precisa ser redobrado. Facilmente o dulçor impera, rompe o equilíbrio.

 

Não sei se é tendência atual —paulistana? Brasileira? Global?—, mas cada vez mais a presença do doce ofusca outros ingredientes, se impõe antes da sobremesa.

 

Infelizmente foi isso que aconteceu com nossos pratos do Na cozinha. Talvez um problema de concepção, talvez um erro de execução.

 

Tanto que até desistimos da sobremesa: a cota de açúcar consumida nos principais já bastava. O garçom, porém, ofereceu um simpático manjar com flores, cortesia da casa. Aceitamos e gostamos.

 

Não gostamos, porém, da conta final. Quase duzentos reais para um almoço casual é demais (alguém poderia dizer, e com razão: bem feito, quem mandou não optar pelo almoço executivo?).

 

Preço salgado (peço, claro, desculpas pelo trocadilho…), indicativo de outra tendência, igualmente preocupante, de muitas casas de São Paulo: ultrapassar os limites razoáveis do que é possível cobrar em função do que é servido e nas condições em que é servido.

 

Na cozinha é restaurante simples —intencionalmente simples—, adequado para refeições ágeis, rápidas.

 

Ao cobrar preços tão excessivos quanto o dulçor de nossos pratos, prejudica seriamente a relação custo-benefício e, num certo sentido, se descaracteriza: afinal, informalidade —qualquer informalidade— não combina com excessos.

 

 

Na cozinha

Rua Haddock Lobo, 955, Jardim Paulista, São Paulo

tel. 11 3063 5377