Archive for the 'picchi' Category

Meus vinte, hoje

30/08/2011

 

Começou como um desabafo, ao sair de um jantar inexpressivo: ‘Não há, em São Paulo, mais de vinte restaurantes que de fato valham a pena’ — escrevi no twitter.

A cifra é arbitrária. O comentário, idiossincrático. Mesmo assim o repeti mais de uma vez.

Então passaram a me cobrar que fizesse a lista.

Não foi fácil, claro. E ela não representa necessariamente os melhores restaurantes de São Paulo. Três das principais casas da cidade estão ausentes — D.O.M., Maní e La Brasserie de Erick Jacquin — e gosto das três. Apenas não acho que tenham a necessária regularidade, o que muitas vezes torna ruim a relação custo-benefício.

Claro que posso ter esquecido de algum lugar. Assim que lembrar, acrescento. Obviamente, ela está em ordem alfabética. E tem 21 nomes, não vinte.

Finalmente: não custa lembrar que a lista se refere a… hoje. Amanhã pode ser outra.

 

AK Vila

Amadeus

Brasil a Gosto

Chef Rouge

Così

Dalva & Dito

210 Diner

Emiliano

Epice

Fasano

Gero

Ici

Jun Sakamoto

Marcel

Mocotó

Parigi

Picchi

Sal Gastronomia

Tappo

Tordesilhas

Zena Caffè

 

Quatro vezes Itália

27/12/2010

 

Prepare-se, leitor, este será um longo texto. Se quiser desistir, ainda dá tempo.

E tenho que reconhecer: errei.

Errei e voltei a errar todas as vezes em que afirmei que a culinária italiana é mal compreendida no Brasil.

Não é propriamente que eu tenha mudado de ideia: continuo teimosamente a achar que o brasileiro, e mais particularmente o paulistano, se incomoda com os sabores fortes, com a predominância de massas (inclusive nos doces), com a intensidade dos temperos que caracterizam a comida italiana de verdade, do sul ao norte da península e nas ilhas.

Somos historicamente francófilos, e mais recentemente hispanófilos — ou adriànófilos e quejandos. A cozinha italiana, entre nós, virou uma caricatura. E assim foram se acumulando as ‘cantinas’, que pretenderam emular a simplicidade das trattorie e osterie italianas, mas alteraram tudo: do ponto de cozimento das massas ao padrão dos molhos. E passamos a acreditar que aquela era a comida italiana.

No outro extremo, ficaram os restaurantes italianos de alta gastronomia, precisos, perfeitos e caríssimos. Acessíveis a poucos. Dois ou três nomes, e olhe lá: Fasano, Vecchio Torino, Gero — este, um pouquinho mais barato.

E no meio do caminho? Em geral, pedras pouco poéticas, com preços que quase equivaliam aos da alta gastronomia e comida que quase equivalia à das ‘cantinas’. Uma ou outra exceção, e fim.

Por isso escrevi tantas vezes que a culinária italiana era mal compreendida no Brasil e que nos faltavam restaurantes ‘intermediários’, onde fosse possível comer boa comida italiana, sem luxos e sem descaso.

Mas errei. E a comprovação do erro veio nos últimos dez dias, quando fiz quatro refeições em quatro restaurantes italianos, de faixa de preço e padrões diversos.

Picchi, Tappo, Zena, Emiliano.

No Picchi, fiquei com o ótimo ravioli de coelho com molho de assado e ervas. Minha mulher aceitou a sugestão do maître, prato fora do cardápio, e pediu o tagliatelle com camarões grelhados — enormes, bem saborosos e no ponto exato. O semifreddo de nozes, além de ser um incomum caso de semifreddo paulistano que é semifreddo mesmo, é muito bom. O cannoli de creme e chocolate altera o tradicional doce siciliano ao excluir a ricota e as frutas, mas traz massa crocante e recheios marcantes.

Sozinho na Tappo, repeti minha entrada favorita — moela e fígado de frango com cebola e uva, flambados na grappa e sobre torrada — e vi que ela continua fabulosa. O fettuccine à carbonara, preparado com pancetta, matou a saudade de anos sem comer esse prato.

No Zena, minha mulher comeu o gnocchi; eu fiquei com o trenette no pesto. Antes, dividimos uma focaccia recheada de figo, presunto de Parma e queijos diversos. O gnocchi, com stracchino, é dos melhores de São Paulo, macio, leve, no ponto, com tomate fresco, manjericão. O pesto do trenette traz no aroma e no sabor a marca forte da comida italiana.

A salada de codorna com um ovinho no centro, do Emiliano, não deixava dúvida a respeito da qualidade de sua cozinha, embora eu preferisse (notaram que se trata de preferência, certo?) a carne um pouco mais úmida. O tartare de vieiras no limão siciliano, pedido de minha mulher, estava ótimo: tudo gostoso, medido e preciso. Meu leitão de leite, maçã verde, alho negro e farofinha veio macio, suculento, delicioso. A cavaquinha com purê de couve-flor era muito bem servida, mas o crustáceo estava irregular: parte no ponto; outra parte além dele. As sobremesas provadas eram interessantes, mas não estavam no nível dos pratos salgados: a degustação de sorbets e sorvetes combinava sabores bem resolvidos com outros nem tanto; o cannolo de chocolate, embora interessante, não empolgou.

Bons serviços, em todos os casos. Informalidade e correção no Zena; atendimento preciso e gentil da Tappo — já falei antes e repito, é o serviço que me faz sentir mais à vontade em São Paulo. Tanto no Picchi quanto no Emiliano, pareceu-me que houve sensível melhora no serviço desde a última visita (quase um ano atrás). Nos dois, o atendimento tendia ao exagero, ao servilismo e à quase bajulação. Agora mais controlados, os serviços são eficazes e não excedem.

O capítulo couvert merece um comentário à parte. O Zena oferece gratuita e gentilmente grissini com azeite. A Tappo cobra honestíssimos cinco reais por pão, azeite e sal, continuamente repostos — caso você, como eu, não consiga parar de comê-los. No Picchi, os 14 reais do couvert são recompensados pelos ótimos pães, grissini e pela focaccia excelente, juntamente com um quarteto de potinhos, que inclui alho assado, sardella, manteiga e molho cru de tomate. Sempre há uma cortesia do chef (para todas as mesas); dessa vez foi um delicado vitello tonnato. O Emiliano serve pães bons e variados, manteiga, azeite, cebola confitada e queijo de cabra. Uma taça de espumante com desnecessário xarope de cranberry é oferecida, como cortesia, e vem acompanhada de carolinas recheadas com pasta de gorgonzola.

Há óbvia diferença de conceito entre os quatro restaurantes.

O Zena valoriza a cozinha rápida, acessível e prática, e seu menu, com sanduíches, focaccie e pratos mais simplificados, exemplifica a ideia. O agradável espaço do restaurante o transforma numa ótima opção para o dia-a-dia, com sua comida simples e direta.

A Tappo revisita clássicos da culinária italiana, executa-os com solidez, consistência e constância e, aqui e ali, propõe novidades. É o que mais se aproxima do conceito italiano de trattoria — onde se come bem, a bom preço, com acolhimento sincero. É, também, um de meus refúgios prediletos.

O tempero agudo dos pratos do Picchi reforça a dupla convicção: poucos restaurantes servem comida tão enfaticamente italiana quanto o Picchi, poucos restaurantes são tão pouco compreendidos na sua proposta quanto o Picchi. Continuo achando que, Fasano à parte, é o melhor italiano da cidade. A inventividade vem junto com a precisão técnica e o respeito à tradição.

Emiliano tem um dos chefs mais talentosos da cidade e seu trabalho associa a base da cozinha italiana com o apreço por novas possibilidades de combinação e valorização de ingredientes. É certamente um dos dez melhores restaurantes da cidade e não cobra rolha, o que sempre atrai. Mas seus preços prosseguem excessivos, atrapalhando a vontade de voltar.

Por falar em preços… Se colocarmos em ordem crescente, temos: Zena, Tappo, Picchi, Emiliano.

Emiliano se inscreve na mesma faixa das caras casas de alta gastronomia e um jantar a dois (couvert, entrada, principal, sobremesa), sem vinho, passa de 300 reais. No Picchi, o mesmo padrão de refeição gira em torno de 220. Na Tappo fica perto de 150 e no Zena, de 110.

Variação grande, claro. Em todos os casos, porém, a refeição valeu a pena.

Mais do que isso, cruzei a porta do último deles que visitei nessa semana com a convicção de que tinha que escrever e publicar no blog esta mea culpa: errei ao dizer que não é possível, sem gastar uma fortuna, comer boa comida italiana em São Paulo. É, sim. Três das casas acima mostraram isso — a quarta, embora boa, é cara.

Claro que haveria outros exemplos. Ocorrem-me imediatamente os nomes da Osteria del Pettirosso, Buttina, Spadaccino ou Così, na faixa de preço da Tappo. Ou o Piselli, equivalente ao Picchi nos valores cobrados.

Claro também que há muitas casas que mimetizam os grandes e sofisticados restaurantes italianos de alta gastronomia, mas não entregam o que cobram. E existem sempre as ‘cantinas’ de que, pessoalmente, tendo a me manter distante, fora um caso ou outro.

Importante é constatar que, incompreensões à parte, há boa comida italiana em São Paulo.

Pelo menos para mim, isso não é óbvio.


Prêmio Paladar 2009

26/11/2009

Em setembro foram entregues os prêmios da Veja São Paulo — Comer & Beber. Ontem à noite foram distribuídos os do caderno Paladar.

Prêmios, em qualquer área, são referências. São sistematizações.

Por isso, exigem regras prévias que classificam e generalizam: tornam possível a comparação. Afinal, sob olhar rigoroso, tudo pode resultar, numa perspectiva ou noutra, incomparável. O mesmo vale para listas de “melhores livros”, “melhores discos” ou “melhores restaurantes”.

Daí precisarmos abstrair diferenças. Se não o fizermos, viveremos — tal qual Funes, famoso personagem de Borges — num mundo de individualidades absolutas e de pleno relativismo.

Prêmios também implicam inclusões e exclusões. E são sempre passíveis de críticas e rejeições.

Quando se limita tanto — caso do prêmio Paladar, que determina um conjunto fechado de 50 e poucos pratos, 30 e poucos restaurantes — é possível fazer uma longa lista do que não podia ter ficado de fora e perguntar o motivo de certas escolhas.

Quando se abrange tanto — caso do prêmio da Veja SP, que define um universo amplo de restaurantes: quase tudo que há na cidade — é possível questionar a diversidade de critérios em que os jurados se baseiam e duvidar se todos de fato conhecem todos os lugares.

A concepção dos dois prêmios é diversa. O da Veja supõe a presença constante e regular dos julgadores nos restaurantes: trabalha a longo prazo e fotografa com grande angular. O do Paladar valoriza o aqui e agora e fotografa com zoom.

Pessoalmente gosto de ambos. Porque ambos são o que prêmios são: referências.

Não à toa, a Veja SP Comer & Beber virou o verdadeiro guia gastronômico da cidade e o Paladar virou revista para ser melhor guardado. Não à toa, são respeitados dentro e fora da área.

Mas é óbvio: nem todos concordaremos com seus resultados. Sempre há o desconforto com uma ou outra escolha — ou com todas.

Na Veja, que elege “restaurantes”, suponho que o voto deva considerar tudo: da hora da reserva à saída do restaurante. A comida é fundamental, mas não é o único objeto de avaliação. E isso é bom. Porque comer fora envolve um conjunto grande de movimentos — além, claro, da mastigação. Um mau serviço ou um atendimento displicente pode jogar fora a boa qualidade da comida.

No Paladar, que elege “pratos”, creio que deva se restringir ao que foi comido. E, dadas as características do prêmio, naquele dia e naquele horário. O entorno continua importante e merece ser declarado, mas não pode determinar a escolha.

O primeiro “comentário blogueiro” aos resultados do Paladar 2009 destacou a diversidade da opinião dos eleitores. Acho que a variação de voto — e falo aqui especificamente como jurado dessa edição do prêmio, e não como teórico do assunto — resultou, em muitos casos, da irregularidade de nossos restaurantes. Pelo menos quatro pratos que receberam votos — um deles foi o vitorioso em sua categoria — estavam intragáveis em minhas visitas.

E se prêmios são referências, esta é uma questão séria que mereceria melhor discussão. Pagamos 60, 70 reais por um prato e ele pode chegar à mesa cheio de sabor ou totalmente sem gosto. Temperado na medida exata ou carregadíssimo de sal. Claro que todos podem errar e sempre é possível devolver. Mas onde está o controle de qualidade dessas casas? O próprio crítico do Estado, Luiz Américo, falou recentemente disso em seu blog.

Outra questão que o rali do prêmio Paladar levanta — ou, pelo menos para mim, levantou — vem da má qualidade de muitos dos pratos provados. Havia dias em que eu chegava em casa arrasado. Ok, o dinheiro desperdiçado não era meu. Mas quantas vezes já saí de restaurantes com a sensação de injustiça? E quantas pessoas não são lesadas dia-a-dia?

São Paulo tem restaurantes incríveis. Come-se muito bem por aqui, apesar das altas contas. Mas tem também muita coisa ruim, embalada em decorações modernas e bacaninhas.

Também por isso prêmios são referências. Para que as pessoas normais (ou seja, todas aquelas que não vão a 30 e poucos restaurantes diferentes no prazo de 17 dias) tenham alguma base na hora de escolher onde farão aquele jantar da sexta à noite ou onde comemorarão os dez anos de casamento.

Por isso, guardo a edição anual da Veja SP Comer & Beber. Por isso, guardarei a do Paladar.

No final das contas, entre abstrações, generalizações, inclusões e exclusões, calculo que todos ganhamos com a sistematização de avaliações e as comparações que os prêmios oferecem. Desde que, claro, não acreditemos que o gosto e a experiência alheia possam substituir a nossa.

Dois comentários para encerrar.

Primeiro. Um júri popular elegeu o melhor couvert. Claro que também entrei no site do Paladar e dei meu votinho eletrônico. Dividido entre meus dois couverts preferidos (Picchi e AK), acabei por votar no AK.

Segundo. Não vou reproduzir aqui os comentários sobre 50 e poucos pratos que provei. Todos os textos de todos os jurados estão (ou estarão) na página do Paladar — os elogiosos e os críticos, os que levaram o voto e os que não o levaram. Mas me dou o direito de deixar aqui quatro listas:

— a dos melhores pratos que provei durante a maratona;

— e, triste, a dos piores;

— a dos restaurantes que visitei nessas semanas e, hoje, tenho a impressão de que não consigo viver sem eles;

— a dos restaurantes a que não tenho, hoje, qualquer vontade de voltar.

Alguns discordarão. Claro. E ainda bem. Eu mesmo posso, amanhã, discordar. Ainda bem.

 

Os doze melhores pratos (e até arrisco dizer que estão em ordem de classificação — se é que isso é possível):

1. Raviolini de pato, do Fasano (o melhor de todos; de vez em quando ainda fecho os olhos para pescar, semanas depois, um pouco de seu gosto);

2. Paleta de cabrito, do Gero

3. Moules & frites, do Ici

4. Ravioli de quiabo e frango, do Pomodori

5. Pain perdu, do Ici

6. Porco à moda caipira, do Pomodori

7. Paleta de cordeiro, do Maní

8. Robalo com caruru, do Tordesilhas

9. Ovo mollet empanado com purê de pupunha e molho de cogumelo, do Così

10. Tutano, do Ici

11. Arroz Maria Isabel, do D.O.M.

12. Spaghetti ao vôngole, do Marina de Vietri

 

Os dez piores pratos (em ordem alfabética; em alguns deles, erros graves de execução):

— Barriga de porco, do Vito

— Cassoulet, do Freddy

— Costeleta de cordeiro com batata gratinada, do Due Cuochi

— Explosão de chocolate, do Carlota

— Feijoada com carpaccio de pé de porco, do Maní

— Filé au poivre, do La Casserole

— Lasagna alla bolognesa, do Aguzzo

— Moti recheado com chocolate, do Kinoshita

— Rosbife em crosta de lapsang souchong, do Maní

— Tartare de vieira com cítricos, do Eñe.

 

Os quatro restaurantes a que quero voltar logo — até porque o serviço está à altura da maravilhosa comida:

— Fasano

— Ici

— Gero

­— Pomodori

 

Os quatro restaurantes a que talvez demore a voltar — até porque, nos três primeiros casos, a comida, mesmo quando boa, foi azedada pelos erros graves de serviço:

— Due Cuochi

— Le Marais

— Emiliano

— Carlota

 

Comentários de outros blogueiros-eleitores:

Que bicho

Neide Rigo

 


SPRW: Picchi

07/09/2009

 

Nem pretendia ir ao Picchi na RW. O menu não tinha me atraído.

E hoje tampouco pretendia comer fora. No máximo, arriscaria o Marcel, assim que abrisse, para evitar fila.

Mas uma mudança de planos domésticos me deixou sozinho para o almoço, às 13h15 do feriado. Tarde demais para o Marcel. Pensei no Picchi e alterei o caminho para passar defronte: se não tivesse espera, pararia. Caso contrário, comeria em casa.

Com só um terço das mesas ocupado, entrei e sentei.

Aceitei o couvert – que é dos poucos que de fato valem a pena. Mas não valeu. Nem o pão nem o bolinho salgado, normalmente excelentes, estavam frescos. Fiquei ressabiado. E a desconfiança aumentou quando reparei que o chef estava sentado no bar. Atento ao movimento, mas fora da cozinha.

Pedi uma cerveja e, de entrada, a polenta com roquefort. Então, as coisas começaram a mudar. Polenta saborosa, com roquefort diluído em creme,  mas ainda assim marcante. A pimenta seca não deixava o prato picante, mas dialogava bem com o queijo.

De principal, fiquei com o raviolini recheado com carne e legumes ao burro e sálvia. E lá estava a boa massa que é marca da casa e que tem raros equivalentes na cidade – nenhum no bairro. A sálvia dava frescor e adocicava suavemente o prato.

Na hora da sobremesa, o garçom me ofereceu uma terceira opção – além das duas indicadas no menu da semana: crostata de maçã. Valeu a pena escolhê-la: crocante e saborosa.

A flexibilidade, aliás, é algo que, aparentemente, só oferece quem leva a RW a sério. Na mesa ao lado, uma senhora pediu para trocar o molho que acompanhava o penne e o maitre não titubeou: assentiu sem mais delongas.

Enquanto almoçava, aumentou a clientela, que atingiu ¾ das mesas. Tomei o café e saí de lá satisfeito. Na porta, o chef, ainda no bar, agradeceu a visita e eu fiquei com vontade de perguntar a ele por que o Picchi não fica lotado o tempo todo. A qualidade da casa e a consistência da cozinha mereciam mais atenção de uma cidade que, ao menos em tese, preza a comida italiana.

Claro que não perguntei. Ele não saberia a resposta. Nem eu sei decifrar os maus mistérios de São Paulo.

Picchi

Rua Jerônimo da Veiga, 36, Itaim, São Paulo

Tel.  11  3078 9119

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Picchi


Três italianos

24/05/2009

1. Luiz Américo Camargo falou do Picchi no blog e deixou um rastro de tremenda inveja: cacio e pepe e prime rib suíno…

2. Arnaldo Lorençato falou do Così na Veja SP de ontem. E deu vontade de voltar lá…

3. Mais perto de casa (e aberta no domingo), voltei à Tappo, em ritmo solo – algo que não fazia há tempos. A pasta alla Norma estava correta, embora eu a prefira um pouco mais apimentada e com uma ricota mais expressiva. Mas as duas pontas do almoço foram de deixar saudade. O cheesecake caprino com calda de amora (e uma tacinha de vinsanto no acompanhamento) estava maravilhoso: textura, sabor, teor de doçura. Tudo. Mas o auge do almoço foi a entrada: moela e fígado acebolados, com uva na cachaça. Não comia um fegato tão bom desde que a antiga Venitucci fechou as portas. Para acompanhar, o Pasodoble, do ramo argentino da Masi. Agora, soneca. Boa noite, digo, boa tarde.

Duas cenas

03/05/2009

A curiosa

No final de um jantar no Maní, peço a Nota Paulista.

A moça demora; noto que luta contra o computador.

Finalmente, chega à mesa e conta que houve um problema no sistema e não pôde emiti-la. Emitiu a normal, sem CPF.

Mas garante: a nota da próxima conta de mesmo valor que for paga na casa será emitida com meu CPF.

Sem saber o que dizer, agradeço e saio.

A exemplar

Chego para jantar no Picchi. Na porta da casa, duas vagas.

Nem cogito usá-las. Não quero estragar o jantar com um bate-boca prévio com o manobrista sobre o direito de parar na rua.

Apenas desço do carro, abro a porta para minha filha, enquanto o manobrista abre a de minha mulher.

Agradeço e entrego a chave.

Ele me sugere: O Senhor não quer estacionar aqui mesmo?

Surpreso, aceito e completo: Preciso, então, acertar o carro.

E o manobrista arremata: Se esperar um pouco, arrumo e o senhor já pode levar a chave.

Espero 30 segundos enquanto ele estaciona corretamente meu carro, me devolve a chave e deseja um bom jantar.

Não tenho coragem de falar que, com a atitude dele (que devia ser comum, mas é rara), o jantar já começou bem.

Sem saber o que dizer, agradeço e entro.

Na língua do P

01/05/2009

 

Paradoxo começa com p.

E um paradoxo de São Paulo é que, com tantos restaurantes italianos, seja tão difícil comer comida italiana. Claro que sempre tem o Fasano. E o Vecchio Torino. Tinha o Massimo, que não sei como anda depois da saída do próprio.

Mas esses são caros demais.

E as cantinas, com uma ou outra exceção, são horríveis.

Há ainda os que são bons, mas carecem de renovação, como o Tatini.

Talvez por isso um restaurante como o Due Cuocchi faça tanto sucesso. Ser correto, no precário panorama da comida italiana de São Paulo, já é suficiente para ficar lotado continuamente.

Bem perto do Due Cuocchi, porém, fica um restaurante que raramente vejo na mídia, mas que é meu italiano preferido.

E começa com p: Picchi.

Foi com ele, inclusive, que abri esse blog. Mas fazia tempo que não ia.

Pier Paolo Picchi (p, p, p), o chef, tem boa trajetória, que inclui o Emiliano e algumas casas européias de alto nível.

Foi nosso eleito para abrir uma semana doméstica de comemorações.

Ao chegarmos, um pouco depois das 8, estava vazio. Nos preocupamos. Desnecessariamente. Duas horas depois, quando acabávamos o jantar, o salão bonito e elegante, com um mezanino charmoso, estava quase lotado. Nós é que temos mania de comer cedo. Ou os demais paulistanos comem tarde demais.

Tudo começou com um generoso couvert. Excelente sardella, molho de tomate cru (muito bom), pão saboroso, alhinhos cremosos e um bolinho salgado com manjericão, que é uma perdição. Vem, ainda, um caldo de cenoura com gengibre (o gengibre intenso, mas não picante, e cenoura encoberta). É dos poucos couverts que valem a pena e o que custam (12,50).

Após o couvert, há sempre uma cortesia do chef. Houve época em que era uma inesquecível bresaola de atum. Ontem, para delírio de minha filha, foi uma polenta (com p) precisa com ragu de carne bovina. Forte, mas sem exagero. Ótima.

O garçom sugeriu uma entrada e resolvemos topar: carpaccio de peixe-espada (e peixe começa por p) levemente puxado no limão, com lulinhas bem macias, uma rodela de tentáculo de polvo e camarão. Muito bom. E com ingredientes que justificavam o preço, meio alto (35).

Já poderíamos ir embora, satisfeitos, mas ainda faltavam os pratos principais.

Minha mulher pediu uma perdiz (claro: com p) que vinha num molho estilo madeira, acompanhada de bruscheta de espinafre com queijo de cabra. Regular. A bruscheta era gostosa, mas pesada. O molho, forte demais. E a carne da perdiz mais rija do que devia.

Enquanto isso, eu comia o prato com que sonhei no caminho de ida: lombo de leitão numa cama de couve com feijão branco. A couve tem um toque adocicado. O feijão, forte, deve ser preparado ma gordura de porco, pois mantém o sabor do bicho. Delicioso. E o lombo. Ah, o lombo. É, de longe, o melhor porco (qual é a inicial de porco?) servido em São Paulo. Sabor, textura, crocância, intensidade… Tudo.

Não aguentávamos comer mais nada, mas ainda pedimos sobremesa. Minha filha tomou um sorvete de creme, sem grande atrativo. Minha mulher e eu dividimos a pêra (porque pêra é com p!) cozida no vinho, com açafrão e mascarpone. Muito, muito boa.

Saímos de lá de alma lavada: é possível comer comida italiana muito boa em São Paulo, por um preço total de 230 reais (só com água) – que não é barato, mas é honesto.

E a casa começa por p, como suas pastas, que comeremos na próxima visita e que são das melhores da cidade.

Picchi

Rua Jerônimo da Veiga, 36, Itaim,  SP

Tel.  11  3078 9119

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Picchi

Italian food

08/09/2008

 

Comida italiana, às vezes, não é para principiante. Os molhos mais fortes, tantas vezes puxados no vinho, podem assustar. O privilégio a algumas carnes, também.

A ponto de esquecermos que “comida italiana”, a bem da verdade, não existe. Existem muitas comidas regionais e seus infinitos diálogos. E existe uma comida italiana internacionalizada, que recorre a técnicas que estão presentes também na Espanha, na França, no Brasil. Além, claro, de pensar e retrabalhar ingredientes e formas típicas (naturalmente típicas ou tipicamente não-naturais).

Nem sempre o resultado dá certo (e o fracasso também não é exclusividade da gastronomia italiana). Felizmente, com Pier Paolo Picchi, tem dado.

Depois de passar pelo Filomena, pelo Emiliano e por outras casas, Picchi abriu a própria.

E começa uma refeição com um couvert delicioso, composto por um bolo salgado, sardella bem preparada (isto é, radicalmente diferente da encontrada nas cantinas & cia.), molho de tomate fresco, grissini e creme de abóbora.

Depois vem uma oferta da casa: uma inesquecível bresaola de atum, original, intensa e equilibrada, acompanhada de chutney de manga.

O pato ao vinho com lentilhas decepciona um pouco. É bem servido (coxa & sobrecoxa), frito pós-confit, mas a lentilha é quase dispensável (por que não um acompanhamento cítrico?) e o molho de vinho é carregado, pesa um pouco além do que deveria. O resultado do prato é bom, mas não é ótimo.

Só que o atum mi-cuit com risoto de cítricos compensa. O peixe vem precisamente no ponto e, embora o limão do risoto prevaleça a outros cítricos, combina bem e arremata.

Na sobremesa, o óbvio italiano: tiramisù bem preparado, sem álcool. E o café é correto.

No conjunto, 166 reais (um casal, sem vinho – coisas da Lei Seca).

Valeu a pena. Habemos comida italiana a preço honesto.

Picchi

Rua Jerônimo da Veiga, 36, Itaim, SP

tel. (11) 3078 9119

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Picchi