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Esse comboio de corda

15/08/2014

 

Quem escreve sobre restaurantes é um fingidor. Porque poucas coisas são mais fugazes do que uma refeição e tudo aquilo que ela nos oferece ou sonega.

 

No texto, posso sugerir uma impressão, um sabor, o conforto de uma poltrona, a vista aquém e além da janela do salão. Não poderei jamais ceder o lugar ao leitor e fazê-lo reviver aquela hora.

 

O impasse, a rigor, começa antes: tal impressão ou sabor sugeridos já são, por si, evocações, abstrações: o tempo da escrita é outro, o tempo da experiência é inacessível.

 

Não por acaso, o famoso poema de Pessoa que parodiei na primeira frase traz uma estrofe de que muitos se esquecem: ‘E os que leem o que escreve, / Na dor lida sentem bem, / Não as duas que ele teve, / Mas só a que eles não têm.” Viver, narrar, ler: instâncias que se comunicam, entranham-se na profundeza, mas diferem.

 

Talvez por isso sempre hesitei em escrever sobre um restaurante a que vou com alguma regularidade: o Bazzar. Nos últimos dois ou três anos, não houve viagem ao Rio que não incluísse uma ou mais refeições por lá.

 

O almoço tardio ou o jantar precoce, após a primeira jornada de trabalho naquela cidade tão linda, virou quase um ritual. Sento-me no balcão (jamais utilizei as mesas), peço água e uma taça de jerez —vez ou outra, rara, troco o jerez por um dos bons vinhos do dia—, olho o cardápio, faço minha escolha, descanso.

 

Poderia contar de alguns pratos que já comi e de que gostei um pouco mais ou um pouco menos. Dos aviús com ovas de tainha e creme de cará, gostei bastante, assim como do tartare de cavaquinha com azeite de baunilha, da moquequinha de ostras no dendê e do mix de folhas com feijão de Santarém. Já da costeleta de cordeiro com purê de cará, cebola caramelizada e redução de vinho do Porto, gostei menos. O excessivo alho —vejam que ironia— se impunha aos demais sabores. Tampouco me agradou o peito de pato com couve, banana da terra e mandioquinha. Pato além do ponto, rígido demais, pouco suculento.

 

Poderia dizer que a melhor coisa que provei foi a torta de galinha d’angola, com massa ligeiramente adocicada, ervilha, milho, cenoura e pinhão —item do atual cardápio de inverno. E que a pior coisa que comi foi a sobremesa do mesmo cardápio: um suflê de tangerina que chegou ao balcão com erro básico de execução, totalmente murcho e afundado.

 

Poderia dizer, ainda, que o serviço é gentil e a sommelière Flávia é de atenção incomum e de afetação nula: orienta, sugere, comenta, não excede. E poderia falar da incrível possibilidade de tomar em taça —indicação da restauratrice Cristiana Beltrão— um vinho tão delicioso como o Pietra Nera, obviamente siciliano.

 

Mas nada do que dissesse explicaria as seguidas voltas, a sensação de prazer diante daquele balcão. Porque, no fim das contas —eis aqui outro paradoxo—, não é a comida que me leva ao Bazzar. É uma percepção fugidia, afetiva e inexprimível, de que ali me sinto bem, de um jeito que o quotidiano normalmente não permite.

 

Deve ser por isso que o mesmo poema de Pessoa se encerra com uma estrofe que nos faz lembrar que é o coração, esse comboio de corda, que nos move, a entreter a razão.

 

Bazzar
Rua Barão da Torre, 538, Ipanema, Rio de Janeiro
tel. 21 3202 2884

 

Oro

15/02/2014

 

Faz pelo menos dois séculos, dois séculos e meio, que homens discutem o lugar da tecnologia.

 

Quase sempre, a discussão é maniqueísta. Há aqueles que se integram plenamente e celebram cada feito tecnológico como redentor, capaz de salvar a humanidade das ameaças da natureza, de elevá-la a outro patamar na equação das espécies. E há os apocalípticos, que temem as mudanças tecnológicas, que creem mais no seu poder devastador do que na capacidade construtiva.

 

O mesmo pensamento binário leva o primeiro grupo ao fascínio e ao deslumbramento diante das novidades, e o segundo a uma espécie de idealização do mundo natural, à nostalgia de uma era feliz que se teria perdido.

 

Algo, porém, une uns a outros: a simplicidade do raciocínio. Sejamos um pouco mais rudes: a infantilidade de suas crenças e descrenças na tecnologia, a incapacidade de enxergar que o mundo, quando desmistificado, é bem mais complexo.

 

Na cozinha não é diferente. Há três anos quase exatos, saiu o calhamaço de Nathan Myhrvold, Modernist Cuisine. Um jornalista, com a convicção e a segurança que só os muito ignaros alcançam, profetizou: ‘em dois anos, não haverá outros livros de cozinha e todos os restaurantes tomarão Modernist Cuisine como Bíblia.’ Outros simplesmente desprezaram a obra e declararam que jamais a leriam.

 

Da minha parte, preferi temer a aposta futurista e positivista (e, por isso mesmo, ahistórica e anacrônica) de Myhrvold — a despeito da óbvia qualidade de sua pesquisa e de seus experimentos — e mantive minhas barbas grisalhas de molho. Essa relutância virou um texto e me garantiu, por algum tempo, o apelido de ‘ludista’ (claro que quem o usou o fez de forma pejorativa, pois, convictamente desatualizado de tudo, não sabia que os ludistas são hoje vistos de maneira bastante positiva. Mas essa é outra história…).

 

A verdade é que, nesses três anos, pouca coisa parece ter mudado na forma como a maioria dos cozinheiros encara o lugar das novas invenções na cozinha. O tratamento da mídia especializada sobre o assunto tampouco facilita a percepção de que há mais, e mais profundas, coisas no céu e na terra da gastronomia do que normalmente sonhamos.

 

Quer um exemplo categórico de que o emprego intenso de tecnologia na cozinha não pode ser tratado de forma banal e simplista? Vá ao Oro.

 

Felipe Bronze, o chef, conquistou a antipatia de colegas de profissão e a desconfiança de comensais graças aos recursos tecnológicos a que recorre em seus preparos. No outro extremo do fio, ganhou renome e alguma admiração por causa de seu programa de televisão, em que expõe a parafernália tecnólogica e suas possibilidades.

 

Confesso que jamais assisti ao programa e sempre preferi ignorar as críticas sólidas ou maledicentes de seus concorrentes num mercado cada vez mais hostil e em franco processo de encolhimento. Preferi — e sempre prefiro — comer sua comida.

 

Nessa semana, visitei novamente o Oro. A primeira vez tinha sido em dezembro de 2011 e, embora tenha gostado do que comi, não quis escrever sobre o restaurante no blog.

 

No salão relativamente vazio, optei pela degustação intermediária, com sete turnos (há também uma um pouco menor, outra um pouco maior e uma mastodôntica) e harmonização de cerveja e vinho.

 

Não relatarei passo a passo porque não quero cansá-lo ainda mais, pobre e heroico leitor que atravessou sete parágrafos para chegar até a resenha propriamente dita.

 

Digo-lhes, porém, que a achei excessiva na quantidade e na qualidade.

 

Excessiva na quantidade — de que quase não dei conta — porque, por exemplo, o primeiro curso é composto de oito ‘snacks’ e nenhum é diminuto ou pode ser desconsiderado.

 

Deles, o melhor, para mim, foi a compressa de melancia com sardinha curada e ‘brisa de menta’; seguido de perto pela combinação ‘alho e cebola em três preparos’. O ‘bife a cavalo na colher’, que envolve a óbvia transformação de forma e relação entre os elementos do prato tradicional, exagerou no sabor de assado e resultou desequilibrado.

 

Também ‘Carioquices’, penúltimo prato salgado, é múltiplo, com versões próprias de quatro clássicos cariocas. O sanduíche Cervantes e o refrigerante de gengibre que simula o copo de chopp foram meus preferidos: inteligentes, bem construídos visualmente e muito saborosos.

 

Entre os pratos maiores, uma decepção: a lula com edamame, caviar de tapioca e alga era linda, mas sem gosto.

 

Três pratos — todos de elaboração técnica precisa e com amplo recurso a novidades tecnológicas — estavam, por sua vez, extraordinários. A rabada com polenta (defumada e toque de tutano), farofa de milho e agrião foi das melhores que já provei. O filhote (com purê de beterraba perfumado com cumaru, limão siciliano e castanhas do Pará) tinha sabor intenso, claro e definido. A cavaquinha grelhada com purê frio de pistache, limão siciliano e pupunha crocante foi o melhor prato da noite e, até agora, do ano.

 

De ‘Brasilidades’ — versões de doces tradicionais brasileiros — não posso falar. Minha resistência já se esgotara: apenas as provei rapidamente. Antes delas, porém, o sorvete de capim limão com algodão doce e saúva encerrou deliciosamente a refeição.

 

Repito: o Oro ajuda muito a pensar o lugar da tecnologia na cozinha. Desde que você não tenha preconceito, claro (mas, com preconceito, como ir até a geladeira da própria casa?).

 

Existem excessos, sem dúvida, e alguma pirotecnia desnecessária, como o preparo de sorvete com nitrogênio líquido diante do cliente (que vi em visita anterior) ou o exagero do serviço na descrição longa, detalhada e algo cansativa dos preparos.

 

Existe também o trabalho preciso da sommelière para harmonizar pratos cuja relação com vinho é sempre difícil (pela quantidade de ingredientes, pelas combinações inusitadas). Cecilia Aldaz o faz aparentemente com serenidade e sem ostentação. E ainda para dois minutos ao lado da mesa para conversar sobre… Borges!

 

Existe, sobretudo, uma capacidade de transformar o imenso edifício das quinquilharias tecnológicas em pratos saborosos. Vários deles certamente poderiam ser feitos de outra maneira. Só que não o foram e o resultado que de fato importa para o comensal — comida excelente — foi obtido.

 

Sempre vale a pena (não custa lembrar) deixar na gaveta as convicções acríticas, os maniqueísmos crédulos, os pressupostos categóricos, as conclusões antecipadas. Entender que — já disse Lezama Lima — só o difícil é estimulante. E esse difícil resulta das relações complexas, mesmo se elas à distância parecem simples; ele resulta de uma percepção mais elaborada do mundo.

 

A vida, afinal, não é unívoca. Por que então nossa relação com a tecnologia, dentro e fora da cozinha, o seria?

 

 

 

Oro

Rua Frei Leandro, 20, Jardim Botânico, Rio de Janeiro

tel.  21 7864 9622

 

 

Continua lindo

03/08/2013

 

Que o Rio de Janeiro continua lindo, todos sabem.

 

Mas meu Rio, a cidade que adoro, não é a do cartão postal. É menos natureza e mais ruas antigas, casas e endereços que já vieram abaixo, pequenos refúgios rodeados de livros, um café aqui, outro ali. Lugares, no mais das vezes, passados ou imaginários.

 

Esse, o roteiro de meus cinco dias de férias —os primeiros em quase um ano, talvez os últimos até julho do ano que vem.

 

Andanças, naturalmente, incluem algo de comida, embora não custe repetir: por mais que goste de frequentar restaurantes, não viajo para isso. Ou seja, a escolha do almoço e do jantar, com raras exceções, depende do trajeto do dia, do quanto tenho de dinheiro no bolso, das vontades e conversas de quem me acompanha nos passeios.

 

Sem contar que qualquer pretensão de boa resenha sobre restaurante carioca é inútil: qualquer delas será inferior ao incrível e detalhado mapa de comidas do meu blog-guia quando vou para lá: Pra quem quiser me visitar, de Constance Escobar.

 

Mesmo assim, não resisto a escrever sobre meia dúzia de lugares. E a sequência, abaixo, é para criar algo de expectativa: da pior para a melhor refeição.

 

E a pior ocorreu poucos minutos depois do desembarque no Santos Dumont e da chegada ao apartamento. (Apartamento situado, vejam que coisa, nos arredores da turbulenta casa do governador; a vantagem foi assistir aos protestos diretamente da janela, com direito a aspiração de um tiquinho de gás lacrimogêneo. Acontece.)

 

Jobi, ali do lado. Décadas de tradição e uma das minhas mais desagradáveis refeições em décadas: bolinho de bacalhau inexpressivo, com cheiro e gosto forte de óleo; bolinho de aipim bom, acompanhado, porém, de carne seca incrivelmente salgada; lulas empanadas moles, moles, moles, sem sabor.

 

Pouco melhor que a primeira (bem pouco) foi a antepenúltima refeição, quando o peso da partida já começava a incomodar, mas os itinerários pelo centro machadiano e a visita à sensacional mostra da Coleção Roberto Marinho, no Paço Imperial, ainda agitavam o esqueleto: Brasserie Rosário.

 

Lugar delicioso, na rua e na parte em que o Rio se reinventa: para algo, afinal, têm que servir a Copa e as Olimpíadas —além, naturalmente, dos benefícios que trazem para empreiteiras, especuladores do mercado de imóveis e outros dragões de dentes afiados.

 

Pena que a comida da Rosário seja fraca, fraquíssima, tão diferente dos vigorosos preços no cardápio. Pelo menos, foi o que se percebeu na ácida e insossa salada Caesar, na salada Printanière, com tantos elementos e tão pouco gosto, e no amolecido penne com salmão.

 

Algo melhor foi o jantar no Gonzalo, churrascaria uruguaia. O filé mignon veio numa porção bem servida e estava macio e saboroso. Já a fraldinha, embora no ponto, carecia totalmente de gosto.

 

Mas não desanime, leitor, as coisas estão melhorando: o desapreço cronológico da resenha embute um salto de qualidade… E é agora.

 

Pipo, a nova casa, bar, de Felipe Bronze, chef do ótimo Oro. Pastéis de queijo Campo Redondo com alho porró e de bochecha de boi com milho, pimenta biquinho, azeitona, tucupi e ovo. Ambos na fronteira do desequilíbrio, mas aprumados e bons: o alho porró e a azeitona tomam conta da cena (e da boca) na primeira mordida, mas depois cedem lugar aos demais sabores. O sanduíche Cervantes faz referência ao clássico bar carioca e traz, no pão de leite, barriga de porco saborosa, precisa e crocante, “compressa” de abacaxi, maionese e mostarda. Excelente. E bem acompanhado pelas cervejas (Summer Ale e Pale Ale) criadas especialmente para a casa —ideia que vem proliferando (obrigado, Senhor!) nos novos restaurantes.

 

Chico & Alaíde: nas palavras de minha filha, um sonho de bar, onde quase tudo que comemos estava bom ou muito bom. (já explico o “quase”, leitor. Paciência, por favor, já deu para notar que esse é um post longo, exageradamente longo).

 

Na categoria bom: camarão empanado com batata palha (“choquinho”) e caldinho de feijão. Na categoria muito bom: rabada com polenta, bolinho de aipim com carne seca e pastel de siri.

 

Quanto ao “quase”: um dos petiscos, o bolinho de caruru com vatapá, estava muito além de muito bom. Estava sensacional, daquelas comidas que não dá para esquecer.

 

Para fechar, duas ou três refeições no Celeiro, que merecerá, no futuro, um post só dele e que continua a ser o restaurante por quilo mais caro das sete galáxias e, ao mesmo tempo, o único restaurante por quilo que será lembrado no Juízo Final, como prova da existência do Altíssimo. Sempre muito bom.

 

E o jantar de despedida do Rio, véspera de vir embora, obviamente no Roberta Sudbrack — de que já falei em outro post e de que certamente falarei muito pela vida afora. Não deu para provar o novo cardápio —só dois pratos dele (na degustação de nove) eram servidos no dia—, mas ainda assim confirmou as impressões das três visitas anteriores: é, de longe e sem hesitação, o melhor restaurante que conheço no Brasil.

 

Ah, antes que me esqueça… O Rio de Janeiro, é óbvio, continua lindo.

 

 

Jobi

Avenida Ataulfo de Paiva, 1166, Leblon, Rio de Janeiro

tel. 21 2274 0547

 

Brasserie Rosário

Rua do Rosário, 34, Centro, Rio de Janeiro

tel. 21  2518 3033

 

Gonzalo

Avenida Bartolomeu Mitre, 450, Leblon, Rio de Janeiro

tel. 21 3796 3342

 

Pipo

Rua Dias Ferreira, 64, Leblon, Rio de Janeiro

tel. 21 2239 9322

 

Chico & Alaíde

Rua Dias Ferreira, 679, Leblon, Rio de Janeiro

tel. 21 2512 0028

 

Roberta Sudbrack

Rua Lineu de Paula Machado, 916, Jardim Botânico, Rio de Janeiro

tel. 21 3874 0139

 

Da vida

22/10/2011

Quase no final de “Manhattan”, Isaac —o personagem de Woody Allen— deita-se no sofá e, gravador em punho, começa a listar as coisas pelas quais a vida merece ser vivida.

A cena parece ser simples, mas não é. Tampouco é fácil montar a lista, embora alguns dos itens soem prosaicos, quase banais.

E assim a tensão entre a simplicidade da resposta e a complexidade da pergunta —o dilema existencial por excelência— transforma o rápido monólogo em uma das passagens mais líricas do cinema.

É provável que você, leitor, já tenha se feito a mesma pergunta. Eu me fiz, claro. Várias vezes. E como ainda espero viver muito —no mínimo, o dobro do que já vivi—, sei que ainda a refarei. O próprio filme de Woody Allen, aliás, é item fixo da minha lista.

Pois desde a semana passada uma refeição passou a fazer parte dos motivos que justificam meus 47 anos —no geral, felizes, mas, humano entre humanos, também marcados, aqui e ali, por horas difíceis.

Os primeiros indícios de uma noite linda vieram com o pão crocante, a manteiga, o mandiopã, o salaminho artesanal do Sul, as gougères de Gruyère: petiscos que antecediam o menu de nove tempos do restaurante de Roberta Sudbrack.

Durante cerca de três horas e meia, comi a incrível canjiquinha de milho com ovas, o aspargo branco e seu caramelo, o delicado tataki de atum, o preciso ravioli de abóbora, a crocante pele de milho com foie gras ralado e semente de figo, o afinado trio queijo-kinkan-broa de milho, o delicado sorbet de goiaba.

Um vermelho —com lentilhas e azeite— que me deixou azul de alegria. O melhor cordeiro que me lembro de ter provado. O melhor mil folhas, dentre as centenas que já comi.

Tudo simples e tudo complexo.

Simplicidade, afinal, inclui gesto amplo, lentidão. Transforma o banal em profundo.

Simplicidade, afinal, é sempre sofisticada, nunca imediata ou grosseira.

Por tudo isso e muito mais, jantar assim é uma das coisas pelas quais a vida merece ser vivida.

 

 

Roberta Sudbrack

Rua Lineu de Paula Machado, 916, Jardim Botânico, RJ

tel.  21  3874 0139

Relatos edificantes

03/11/2009

 

Quando se vai muito a restaurante, coleciona-se um bom número de histórias sobre pequenos deslizes, médias grosserias e grandes equívocos.

São de diferentes espécies.

Há os casos risíveis: por exemplo, o do garçom que instruiu minha mulher sobre como pedir água ou do que quis se certificar se o café estava mesmo gelado.

Há os que nos deixam profundamente irritados, como ser ultrapassados numa fila de espera por alguém com evidentes laços de amizade com a casa.

E há os que mostram negligência pura e simples com clientes que não chamam atenção e que, aos olhos da equipe de garçons, parecem não interessar à casa.

Abaixo, alguns desses casos.

Todos ocorreram nas duas últimas semanas e são histórias, digamos, edificantes.

Todos ajudam a lembrar que o bom restaurante não se resume à comida: ele começa no telefonema da reserva e termina na hora em que o cliente recebe o carro de volta (isso, claro, quando não há rescaldo posterior da comida).

Todos também dão conta de como muitas casas aprenderam a cobrar caro, mas não a tratar bem os comensais. Em bom português: a respeitá-los.

A eterna espera

Chegamos ao Garcia & Rodrigues ao meio-dia e meia de um domingo. Queríamos comer algo rápido, até porque nosso avião nos esperava. Todas as mesas ocupadas. O rapaz da porta nos avisa: “só um minuto, a próxima é de vocês e já há uma mesa liberando.” Ótimo.

Atrás de nós, começa a crescer a fila de espera. Dez minutos depois, o rapaz chama um grupo de quatro pessoas e as encaminha para uma mesa no piso superior.

Um pouco espantados, nos dirigimos a ele e perguntamos: por que não nós? A resposta é cândida: “vocês são três e a mesa é de quatro”.

Insistimos um pouco sobre a sutil diferença espacial entre três e quatro, aparentemente ignorantes de que há quatro consumidores numa mesa de quatro e apenas três, na de três.

Mais cinco minutos se passam. Uma mesa de dois lugares é liberada. Aguardamos ansiosos a limpeza e a chamada de nosso nome.

Nesse momento duas moças entram no restaurante, atravessam toda a fila, cumprimentam o rapaz da porta pelo nome e ele, que também sabe o nome delas, as leva à nova mesa vaga.

Já irritados, voltamos a perguntar sobre nossa suposta precedência e ouvimos explicação categórica: “elas já tinham vindo antes e não encontraram mesa. Saíram e agora voltaram.”

Nos olhamos perplexos e cogitamos ir embora. Mas isso implicaria iniciar nova espera, etc. E tínhamos o avião…

Mais cinco minutos (vinte no total), vaga uma mesa de quatro pessoas. O rapaz da lista percorre a fila com o olhar, hesitante.

À beira de um ataque de nervos, olhamos duro para ele e — vejam só que sujeito gentil — ganhamos a mesa.

Mesa para três

Às vezes tenho a impressão que alguns restaurantes simplesmente gostariam de proibir a ocupação de mesas em número ímpar. No nosso caso, o incômodo que provocamos é ainda maior, uma vez que o “terceiro elemento” é uma criança, que, aos olhos de muitos garçons, cria sempre a expectativa de problemas.

Havíamos feito reserva para o Due Cuochi Cucina há dez dias, com a paciência de Jó de ouvir a voz sempre áspera da atendente, que parece fazer um favor ao cliente por reservar mesa.

Fomos os primeiros a entrar no restaurante, no horário da abertura noturna, e nos encaminharam para uma mesa de dois, espremida entre a parede e outras duas mesas.

Até tentamos nos acomodar, mas era complicado. Uns vinte minutos depois, e logo que conseguimos chamar a atenção de algum garçom, minha mulher, moça de funda esperança, perguntou a ele se não poderíamos passar para mesa maior, em que… coubéssemos (a ocupação da casa, nesse momento, era de cerca de 40%).

Ouvimos um rotundo não, seguido de explicação: “Aquelas mesas são para quatro e agora estão vazias, mas daqui a pouco, a senhora vai ver, fica tudo lotado.”

Fazer o quê? Comemos lá, tentando enxergar em meio à obscuridade, com o caminhão de lixo fazendo barulho ao lado e dando cotoveladas uns nos outros. Sem contar o imenso prazer de ouvir as conversas das mesas vizinhas (relatos de viagens, vejam que interessante!).

Desconfortáveis, apressamos nossa refeição e saímos de lá assim que deu, uma hora depois.

A casa tinha, nessa altura, ocupação de 70% e as mesas “para quatro pessoas” (e não três) continuavam vazias.

Um educador

Num país em que a educação anda tão em baixa, é bom encontrar pessoas dispostas a ensinar aos ignorantes.

Num almoço no Dalva & Dito, minha mulher e eu pedimos “uma água sem gelo e sem gás e uma com gelo e com gás”.

Minutos depois, chegam as águas. Uma sem gelo e sem gás. A metade da outra (com gelo e com gás) é despejada num copo cheio de pedras de gelo.

Minha mulher percebe e fala ao garçom: por favor, eu não quero gelo no copo.

E ouve a importante instrução, dita em tom duro, de evidente autoridade: “Então, a senhora tinha que ter pedido ‘água gelada’, e não ‘com gelo’. ‘Com gelo’ é assim.”

Evidentemente contrafeito, afasta o copo e pega outro, onde derrama o resto da garrafa.

A primeira metade da garrafa não foi reposta e dali a pouco tivemos que pedir outra. Mas desta vez acertamos no pedido.

Professor rigoroso e de uma tradição mais antiga e ríspida de docência, o garçom conseguiu nos ensinar a pedir água. Tanto que, daí para frente, sempre pedimos “água gelada” quando queremos apenas água com gelo.

Confirmação

Fim de uma boa refeição no Kinoshita, nosso café demora e chega gelado à mesa. Engolimos.

Na hora de pagar a conta, comentamos o fato com o garçom. Ele lamenta e, em seguida, pergunta: “Mas vocês têm certeza de que estava mesmo frio?”

Refletimos com calma, analisamos, abalizamos, pesamos, sopesamos e concluímos: sim, estava.

Gentilmente, ele nos trouxe outros.

Pólo norte ruidoso

Deve ser carma. Não pode ser outra coisa. Há casas que só colhem elogios e onde nunca conseguimos fazer uma refeição sem enfrentar problemas sérios.

Fomos conhecer o Le Marais, irmão francês e quase vizinho do Due Cuochi. O sistema de reserva dos dois é semelhante: você espera na linha por cinco minutos, escutando musiquinha chata, explica a três pessoas o que quer e, finalmente, ouve a voz tolerante de quem vai, vá lá!, aceitar sua reserva para dali a duas semanas.

Chegamos e a casa estava vazia. Minutos depois, outro casal. Ar geladíssimo e música altíssima.

Escolhemos os pratos e pedimos ao maître, com gentileza, se seria possível abaixar um pouco o som e descongelar um pouco o salão. A resposta é gentil: “Claro, claro.”

Em seguida, ele vira as costas, dá dois passos e, sem ter feito qualquer das duas coisas, se planta ao lado da porta de entrada e não olha mais para nossa mesa.

Punidos pela audácia de semelhante pedido, nos conformamos. Minha mulher enrola uma malha no pescoço. Uma pena que o prato não tivesse salsinha para colocar no ouvido, no estilo Asterix.

Ao sairmos de lá, o mais rápido possível, celebramos deixar o continente ártico e poder ouvir o silêncio das ruas de São Paulo. Sim, elas nos pareceram incrivelmente silenciosas.