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Fábula

05/08/2015

 

No cinza de uma tarde de agosto, ele deixou a filha no teatro e seguiu em frente.

 

Os dias andavam ariscos, ríspidos, os meses, os dois últimos anos. As férias recentes não tinham sido suficientes. O que havia nele era sobretudo cansaço.

 

Passou pela porta do Conceição como passara tantas outras vezes, mas dessa vez havia algo de mecânico no andar, de pouco humano. E mecânico foi o cumprimento, lançado de longe à dona do lugar.

 

Sentou-se e, como desde cedo aprendera que nada cura mais que um livro, abriu o seu e avançou por uma história triste, toda feita de perda e desencontro.

 

O silêncio emoldurado de jazz dissolveu, por três horas, o mundo torpe de fora e, para prosseguir nos números, ele leu um livro, tomou três cafés e comeu um pedaço de brownie.

 

Quando saiu de lá, era fim de tarde e o céu azulava. Ao descer os degraus da rua, deu um abraço e um beijo na Talitha, melhor cozinheira que ele conhecia em São Paulo. Seguiu para reencontrar a filha e, junto com ela, uma vida que — tal qual o Conceição provou naquela tarde — pode ser melhor.

 

*

 

 

ps. Não sei se voltarei a escrever no blog. Até acho provável que sim, mas hoje não sei. O silêncio dos últimos meses já mostrou que compartilho o cansaço do personagem do conto. Se de fato acabar agora, dias antes de o blog completar nove anos, gosto que seja com um comentário sobre o Conceição Discos e Comes, esse lugar único, que oferece muito mais do que ótima comida. Afinal, o blog nunca tratou só de comida: começou como uma brincadeira, virou um exercício de paladar e texto e quase sempre foi feliz.

 

 

Beato

28/03/2015

 

Num primeiro olhar pelas redes sociais, o mundo das comidas parece ter virado uma imensa Disneylândia: entretenimento ininterrupto, sorrisos estampados nos rostos, infantilidade, disposição lúdica acima de qualquer coisa.

 

Se observarmos melhor, porém, cai essa máscara e emerge outra, assustadora, com toques de declínio e queda do Império Romano: certo tom orgiástico, alegria artificial, despudor a toda prova, bebidas que jorram, ostentação, fluidez ética e moral.

 

Verdade que os dois grupos são mais complexos do que a rápida descrição acima.

 

No primeiro, nem tudo é festa; há também encenação: alguns dos que parecem apenas se divertir, na verdade, colhem frutos bastantes significativos nas verdes matas de sua ilha da fantasia.

 

O segundo talvez seja mais compreensível por meio de uma sentença psicanalítica de botequim: decadência sem elegância.

 

Divirta-se quem quiser, mas meu mundo é outro. E tão exageradamente outro, que chego a implicar, às vezes injustamente, com restaurantes que são endeusados por uma dessas duas turmas, as verdadeiras ou falsas criançonas e os romanos tardios.

 

O efeito é que basta iniciar-se uma celebração exaustiva de alguma casa para me manter afastado de lá.

 

Foi assim com o Beato, na primeira fase. Demorei a ir e, quando fui, encontrei uma cozinha de resultados inexpressivos e as piores cadeiras da face da Terra. E foi assim com o Beato, na segunda fase —só que, felizmente, dessa vez os resultados foram melhores.

 

O Beato —e todos sabem disso— mudou de direção há uns meses e sua cozinha ganhou as mãos e o imenso talento de Alberto Landgraf. O salão abandonou a falsa suntuosidade (e, vale lembrar, as horríveis cadeiras) da primeira fase e assumiu tom mais informal. O cardápio foi montado a partir de um conjunto de petiscos (grafado em português camoniano no menu: snacks), meia dúzia de entradas e oito pratos principais. A carta de vinhos e de cervejas tornou-se enxuta e inteligente. O bar passou a ser liderado por Kennedy Nascimento, que antes trabalhou no MyNY bar e no Épice, do mesmo Landgraf. (Sei que o restaurante prefere não acentuar o E inicial, talvez por temer uma pronúncia aportuguesada e aberta, mas não resisto: acentuo.)

 

Logo depois da reabertura, ganhou ares de nova estrela da gastronomia paulistana e foi cantado em verso e prosa —o que imediatamente me fez evitá-lo. Mais cedo ou mais tarde, sabia, acabaria por conhecê-lo: não havia pressa, não era desses restaurantes bonitinhos, moderninhos, inexpressivos e de vida brevíssima. Um compromisso lá perto, ontem, trouxe a chance para um jantar em família.

 

Dos snacks, comemos a mandioca frita na manteiga de garrafa, com salsinha, e a tapioca com requeijão e carne seca: petiscos de origem idêntica e identicamente deliciosos.

 

Entre os principais, tagliatelle com mexilhões, atum com pupunha e barriga de porco com purê e vagem. Tagliatelle extraordinário no sabor, no cozimento, no molho; infelizmente com pouquíssimos mexilhões, e rijos. Atum saboroso, igualmente no ponto. Maravilhosa barriga de porco, deliciosa vagem, purê quase sem sal.

 

Do bar veio um Bloody Mary bem montado, mas com suco de tomate (caseiro) curado demais e temperado demais para meu gosto. Questão de gosto, claro, ou de um pequeno deslize —pequeno mesmo, perto da qualidade do jantar e dos preços justos do cardápio.

 

Saímos intimamente felizes —a prova dos nove de um jantar. Justamente por isso preferimos não publicar, nas redes sociais, fotos de todos os pratos, carregando nos adjetivos vulgares para celebrar a comida ou o lugar. Tampouco nos fizemos mostrar meio tortos, caricaturas vivas sob a lua, em êxtase gastronômico.

 

Porque um bom restaurante não precisa associar-se à propaganda falsamente espontânea ou ao desvario fingido dos que não percebem que o Império está à beira do abismo.

 

Um bom restaurante —e o Beato em sua nova fase é muito bom— vive da qualidade de seu trabalho.

 

 

Beato

Rua dos Pinheiros, 174, Pinheiros, São Paulo

tel. 11 2538 8107

 

A casa da minha avó

11/03/2015

 

A casa da minha avó era, na verdade, um apartamento, em plena Avenida Paulista.

 

(Antes houve outra, casa mesmo, no bairro de Santana, onde ela e meu avô foram morar depois que se casaram, em 1924. Lá viveram quarenta anos e justo no ano em que nasci mudaram-se para o apartamento da Paulista.)

 

A casa da minha avó ficava num prédio listrado, décimo-primeiro andar, na esquina da Paulista com a rua Maria Figueiredo. Eu almoçava lá quase todo dia, entre a escola e o curso de inglês ou antes da tarde em casa —também na Paulista, dois quarteirões distante— com meus livros e meus times de botão.

 

Ela aprendeu a cozinhar com alguém, porque era boa cozinheira. Aliás, ótima cozinheira. Filha da portuguesa Diolinda e de Hermann —prussiano que abandonou a família e a religião para se casar com uma católica—, não pôde herdar de nenhum deles a competência nas panelas. O pai nada entendia de cozinha e a mãe morreu cedo demais. Mas com alguém ela aprendeu.

 

Minha avó se chamava Mercedes e herdou do pai outros traços e o temperamento: valorizava o rigor, raramente ria e se irritava com as piadas e quase ininterruptas brincadeiras de meu avô (um sujeito maravilhoso, mas que não aparecerá nessa história).

 

Nos almoços diários, lá pelo começo dos anos 70, eu comia seu trivial e alguns pratos de que nunca me esqueci: a torta de maçã incomparável, a pamonha macia e suculenta (que, num belo dia, recebeu, sabe-se lá como, respingos de detergente e ganhou um singular gosto de sabão), o cozido, o incrível fígado acebolado, a sardinha escabeche.

 

De lá para cá se passaram muitos anos, demais até. Ela morreu em 79 e, de novo, nenhum legado culinário restou.

 

O filho mais velho casou-se e mudou, ainda antes de meus avós virem morar na Paulista; sua vida transcorreu em outro meridiano e os contatos, desde então e até hoje, foram fugazes.

 

O filho do meio, espécie de ídolo familiar, referência constante das histórias que cruzam gerações, era meio adoidado e tinha o coração maior do que o mundo —tão grande que se cansou cedo da vida e também não chegou a conhecer o apartamento da Paulista.

 

A filha mais nova, minha mãe, sempre odiou cozinhar e fugia da cozinha quando podia.

 

Os acasos da sorte fizeram com que outras comidas aparecessem no meu horizonte e que a da minha avó (juntamente com a que minha outra avó e meu pai, também excelentes cozinheiros, faziam) ficasse apenas na memória.

 

Comi, por exemplo, muitas sardinhas, preparadas de todas as formas, inclusive escabeche; umas ruins, outras boas, nenhuma igual.

 

Mas a vida tem lá suas armadilhas, também boas ou ruins, e justamente numa das semanas mais tristes que já vivi, a da morte de minha mãe, comi uma sardinha que me levou de volta àquela mesa de quarenta e poucos anos atrás.

 

Foi no almoço de ontem, na Taberna da Esquina. Eu estava sozinho, mas havia muito mais gente na minha mesa: avô, avó, irmã, mãe. Todos em torno da sardinha, todos envolvidos num daqueles rituais meio inconscientes e confusos, de que precisamos para seguir em frente.

 

Claro que nada garante que a memória não tenha me enganado e oferecido, na imaginação, aquilo que a vida não podia mais dar. É até provável que tenha acontecido exatamente isso.

 

Mas não importa, porque a ausência, de pessoas, casas e sardinhas, essa ausência assimilada, como diria Drummond, ninguém a rouba mais de mim.

 

 

 

Pão e esperança

17/07/2014

 

Pão é assunto sério.

 

Pão, no fundo, é tudo: está naquela lista dos alimentos vitais. Está no café da manhã, com manteiga e geleia, e está no fim de tarde, com a taça de vinho, o copo de whisky ou o drinque. Está no almoço ou no jantar, acompanhado de azeite e, conforme o caso, um tiquinho de sal. Ou —sem mais delongas— puro.

 

Porque pão, no fundo, não tem hora ou lugar: está no princípio, no meio, no fim. Resgata alguma sensação atávica de fome sentida e saciada, alguma memória involuntária de dias bem vividos.

 

Uma mordida e tudo se aquece: corpo, alma e arredores.

 

Desde que seja pão bom, claro.

 

E pão bom de verdade, em terras tupiniquins, é raro.

 

No meu aniversário, em maio, ganhei um ótimo pão, preparado por um amigo cultor e fazedor de pães de primeira. Durou três dias e, na última fatia, pensei comigo mesmo, enquanto uma lágrima corria pelo rosto: nesse ano não comerei pão igual ou melhor. Claro que o lamento foi menos importante do que a sensação de conforto e prazer ao mastigar aquele bocado.

 

Eis que um dia me deparei, no instagram, com certas fotos de pães.

 

Ok, leitor, eu também não acredito no instagram, nem na maioria das fotos de comidas que circulam por lá. Umas são horrorosas, outras são falsas. Umas são ostentação tonta; outras são deslumbre baldio. A maioria —também sei disso— é marketing mascarado e descarado.

 

Mas preferi acreditar naquelas fotos de pães. E procurei a padeira, uma moça chamada Flávia D’Angelo Maculan. Descobri como encomendá-los e consegui um: semolina e gergelim.

 

Extraordinário.

 

Troquei confidências com um amigo, que no mesmo dia experimentara um com nozes, e concordamos: aqueles pães eram a melhor notícia do mundo das comidas nos últimos tempos. Representavam um pouco de fôlego, o oxigênio na hora em que tudo parece irreversivelmente perdido.

 

Eram a simplicidade e a profundidade de que precisamos para viver. Eram o antônimo da afetação e da falsidade.

 

Rapidamente encomendei outros, igualmente sensacionais: nozes, multigrãos, azeitonas e o absurdamente bom, talvez imbatível, pão com polenta bramata, sementes de abóbora e alecrim.

 

Virou hábito regular e agora cogito requisitar um fornecimento vitalício.

 

Voltei, inclusive, a acreditar que o mundo talvez tenha salvação e o coração dos homens não esteja tão embrenhado nas trevas.

 

Esperança, enfim. Esperança com cheiro e sabor de pão.

 

 

 

 

ps. fundamental: Flávia Maculan (@fdmaculan no instagram ou fdmaculan@me.com) prepara os melhores pães de São Paulo —quiçá do hemisfério Sul e de boa parte do hemisfério Norte— na própria casa, em forno comum.

 

Ser ou não ser (trattoria)?

22/06/2014

 

Soa quase como uma afetação chamar de trattoria a Trattoria, nova casa Fasano, aberta há uns meses em São Paulo.

 

O salão não é de trattoria, o serviço não é de trattoria, o estilo não é de trattoria e, obviamente, os preços não são de trattoria.

 

O cardápio, sim. Tradicional até a medula, reproduz a mistura de pratos regionais italianos que caracteriza os menus das trattorie, ou das cantinas, paulistanas.

 

Já os resultados, pelo menos no que tange aos pratos que experimentamos numa única visita, ficam a meio caminho: não equivalem —com a graça do Altíssimo— aos das trattorie paulistanas, mas tampouco empolgam. É fácil lembrar de dois ou três restaurantes paulistanos que ofereçam resultados melhores, e a preços mais baixos.

 

Na Trattoria Fasano, meu espaguete aos frutos do mar veio com muitos camarões, mas unanimemente além do ponto. Marisco, havia um único —solitário, o pobrezinho, abandonado pelos colegas— e três anéis finos de lula. Lembrando o que ocorre nas trattorie, o molho proliferava, exagerado, a ponto de o espaguete acabar bem antes dele.

 

Melhor era o tagliatelle no ragu de cordeiro: massa fresca, no ponto, com molho consistente, aromático e saboroso —até mais aromático do que saboroso. O polpettone ao forno, macio e intenso, recheado com uma camada fina de mussarela de búfala, estava ótimo e leve. Um bom espinafre refogado o acompanhava —acompanhamento, diga-se de passagem, pedido à parte.

 

O tiramisù e a pastiera di grano foram servidos gelados e estavam agradáveis —nada além disso, nada próximo do que a imprensa gastronômica acostumou-se a chamar de “padrão Fasano”.

 

Acho que não tomamos as oito garrafas de água que nos cobraram, mas o bom e velho sistema paulistano (não utilizado nas trattorie; apenas nos restaurantes chiques ou candidatos a) de manter a garrafa distante da mesa e o copo do cliente continuamente cheio impede qualquer cálculo mais preciso.

 

Na carta de vinhos não havia exemplares com preço abaixo de três dígitos e nenhum rótulo da Sicília (o único listado não estava disponível).

 

Também a safra do vinho servido não coincidia com a indicada na carta (e, no caso, a diferença era relevante): taí algo que pode ocorrer numa trattoria.

 

Por outro lado, não conheço trattoria que cobre 13,8% de serviço, nem que os cobre inclusive sobre o custo do estacionamento —o antigo e errado serviço sobre serviço.

 

No balanço geral, o jantar foi de razoável a bom no paladar, de ruim a péssimo no bolso. A impressão geral é que a comida da Trattoria Fasano não lembra, nem de longe, a das casas principais da marca: Gero, Parigi, Fasano.

 

E definitivamente: o nome não combina com o lugar e o lugar não combina com os novos ares que os restaurantes de São Paulo parecem querer assumir: menos pompa e afetação, melhor relação custo-benefício.

 

 

Trattoria Fasano

Rua Iguatemi, s/nº, Itaim, SP

tel. 11 3167 3322

 

 

Na esquina

03/05/2014

 

Esquina, lugar de encontro.

 

E a Esquina Mocotó nasceu, provavelmente, com a vocação dos encontros.

 

Em primeiro lugar, o que reúne a cozinha despojada e de viés popular do vizinho Mocotó com a gastronomia ascendente de uma cidade que se pretende grandiosa nas comidas —ou de um país que vende, para o exterior, uma imagem vaidosa, imprecisa e algo caricatural de suas origens e práticas culinárias.

 

Em segundo lugar, um encontro social: o do morador do centro ou dos bairros ricos, que concebe (mesmo que não confesse) seu passeio à Vila Medeiros como um gesto sociológico.

 

Poderia ter dado errado; felizmente deu certo. E, se deu certo, foi porque há algo que ultrapassa, e com facilidade, os esquematismos sociais e os maniqueísmos dos discursos: a boa comida.

 

O Mocotó servia e serve boa comida; o Esquina Mocotó serve boa comida. Dissolvem-se assim as teorias e confirma-se o prazer de comer —o que, convenhamos, é o que importa num restaurante.

 

Esquina Mocotó foi o lugar que escolhi para comemorar um encontro pessoal: o dos 50 anos, que completarei daqui a uns dias. E, numa sexta-feira quase feriado, dois de maio enforcado, cruzei os doze quilômetros que me separam da Zona Norte.

 

Curioso é que nossa refeição foi, a seu modo, uma demonstração de outro encontro, nem tão feliz: o da boa —na verdade, ótima— comida com uma experiência algo desagradável.

 

Porque a comida é o principal numa casa, mas não é imune aos problemas que podem cercá-la.

 

A caipirinha desequilibrada, por exemplo, em que o caju mal dava o ar da graça e o gengibre (na combinação com abacaxi) parecia totalmente ausente.

 

Ou o serviço, incrivelmente simpático e imensamente confuso. Com 80% das mesas ocupadas, penamos (e dois casais mais velhos, das mesas vizinhas, seguiam destino igual) para conseguir que alguém anotasse nossos pedidos ou trouxesse aquela garrafa de água, já pedida e quase esquecida.

 

Também a reserva de mesa com vários dias de antecedência não nos salvou de receber provavelmente a pior do restaurante: nos acomodaram, três pessoas, numa mesa para dois ao lado da área de espera, com vista para a parede. Quando a casa lotou e novos comensais aguardavam sua vez, precisávamos desviar de bolsas e cotovelos. Ruim.

 

Lutamos para abstrair o entorno e olhar para o lado bom —era uma comemoração, afinal, e de meio século de vida.

 

Pois a comida nos salvou. A extraordinária Porcaria —já e justamente decantada em verso e prosa— abriu o almoço, com ótimos embutidos, um porco na lata meio inexpressivo e dadinhos de porco sensacionais: foi necessário, inclusive, pedir uma porção inteira só deles.

 

Minha filha escolheu a carne de sol com baião de dois sertanejo. Embora não estivesse tão boa quanto a que comi em outra visita, a carne era suculenta e de gosto bem definido. O baião de dois parece mais italiano que sertanejo —assemelha-se a um risoto—, mas a procedência é secundária em relação ao sabor.

 

O pirarucu, acompanhado de cuscuz/farofa de castanha do Pará e vegetais —prato de minha mulher—, estava tenro, delicado, incisivo. O cabrito com que sonhei no caminho não podia ser servido, por falta do ingrediente. Fiquei com a costelinha de porco, macia, viva, deliciosa, servida com uma das tantas farofas excelentes da casa: foi o melhor prato.

 

Na sobremesa, ótimo sorbet de jabuticaba e excelente panna cotta de umbu, ligeiramente atrapalhada pelo dulçor excessivo da calda.

 

Valer a pena, valeu. Se dependesse do funcionamento geral da casa, não voltaria lá tão cedo. A depender da comida, quero ir lá toda semana.

 

Mais do que a localização geográfica —na esquina, essa metáfora—, talvez o contraste ajude a compreender a peculiaridade do restaurante, a demonstrar suas ambiguidades, a definir sua relação com o irmão e vizinho Mocotó.

 

Ou, ainda, a ilustrar os caminhos nada lineares ou regulares por onde circulam os restaurantes paulistanos.

 

 

Esquina Mocotó

Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1104, Vila Medeiros, SP

tel. 11 2949 7049

 

Dois bares

27/01/2014

 

Dois bares.

 

Um fica na entrada de um restaurante razoável; outro, no andar de cima de um ótimo restaurante.

 

Um fica relativamente perto de onde trabalho e distante de casa; outro, relativamente perto de casa e distante do trabalho.

 

Num deles, os drinques são absolutamente sensacionais: do Negroni, cujo campari é envelhecido em bálsamo, ao Scofflaw, com xarope caseiro de romã; do Bloody Mary, com suco de tomate preparado lá mesmo, ao Gentleman’s Soul (Gentleman Jack, xarope de bordo, bitter Truth Peach, limão siciliano e toque defumado); do clássico Dirty Martini ao, digamos, aromático Penicillin. Todos precisos, perfeitos, impressionantes.

 

No outro, a carta de whiskies é excelente e os drinques são corretos, sem margem a grandes decepções ou exclamações: Whisky Sour, Porto tônica, Negroni, Old Fashioned, Dry Martini.

 

Num, há opções variadas de comida — sanduíche de porchetta e trio de sanduiches de vitelo empanado à frente. No outro, prevalecem pratos frios, com destaque para os bons sanduichinhos de ragu de javali.

 

Num, o salão é agradável e a música, para meu gosto, desagradável. No outro, a música é ótima e o salão é maravilhoso, com poltronas inesquecíveis — daria para morar lá.

 

Nos dois, o atendimento é atencioso, gentil, cuidadoso.

 

Não tenho dúvida de que prefiro a comida e os drinques do primeiro; não tenho dúvida de que prefiro ir ao segundo. E isso não é um paradoxo: o prazer de frequentar um lugar não depende apenas do que é diretamente servido.

 

Importante é que os dois são necessários para São Paulo, cidade tão maltratada, sobretudo por seus moradores.

 

Os dois são das melhores coisas que aconteceram por aqui nos últimos tempos.

 

Um é o Isola; outro é o Admiral’s Place.

 

 

 

Isola

Avenida Juscelino Kubitschek, 2014 (Shopping Iguatemi JK), Vila Nova Conceição, tel. 11 3168 1333

(na entrada do Tre)

 

Admiral’s Place

Rua Minas Gerais, 350, Higienópolis, tel. 11 3257 1575

(no andar de cima do Sal Gastronomia)

 

 

Cinco

25/01/2014

 

O Comida (Folha de S. Paulo) da última quarta-feira, dia 22/1, reuniu dicas de diversas pessoas, numa comemoração do aniversário de São Paulo.

 

Minhas dicas estão aqui, na versão abreviada pela edição do jornal.

 

Abaixo, o texto integral:

 

 

1.

Ali, na mesa para duas pessoas que fica ao lado da janela, com uma boa cerveja, um bom chopp e um prato de bolinho de virado à paulista na frente: o Aconchego Carioca-São Paulo não está no bairro do Paraíso, mas fica muito perto de meu paraíso pessoal.

 

2.

Ao contrário do que muita gente pensa, o Marcel não se resume aos suflês (embora eles sejam ótimos). Nas mãos de um dos grandes chefs de São Paulo, tem o menu degustação de melhor relação custo-benefício da cidade. E tem o incrível suflê (voltamos a eles…) de cupuaçu, que combina a tradição francesa com algo de Brasil.

 

3.

Repare na poltrona. Repare na música. Repare na, digamos, atmosfera. Repare: são raros os bares de São Paulo com o charme e o estilo do Admiral’s Place, que, com poucos meses de vida, já é clássico. E, depois dos whiskies e dos drinques, ainda dá para descer a escada e comer o nhoque de mandioquinha com ragu de javali do Sal Gastronomia, uma massa categórica e contundente.

 

4.

Uma entrada. Mas você pode pedir porção maior, como prato principal. Ou porção dupla, tripla, quádrupla. Porque a moela confitada com fígado de frango e uvas, flambados na grappa, não é apenas um dos melhores pratos da Tappo Trattoria. Depois que se come pela primeira vez, vira uma necessidade do dia a dia.

 

5.

Você tem um sake para chamar de seu? Eu tenho. Chama-se Nakadori Zaku Miyabino Tomo. Quem indicou foi o Alexandre Tatsuya Iida, mais conhecido como Adegão, da Adega do Sake. Bateu o olho clínico em mim e, paft!, sugeriu. Quando tomei, custei a acreditar: era uma versão minha, só que bem melhorada e engarrafada.

 

Kampai

26/10/2013

 

Este post é uma homenagem.

 

Homenagem e agradecimento, ambos necessários.

 

Porque os dias atuais, bem sabemos, são confusos. Inclusive no mundo das comidas e bebidas.

 

Durante muitos anos, minha bebida foi o vinho, quase exclusivamente. Depois, vieram umas decepções com gentes que o rodeiam e bateu a curiosidade de testar outras bebidas.

 

Cerveja, gim, whisky. E drinques, que vez ou outra ensaio fazer. É lúdico e é bom.

 

Mas o post não trata de nenhuma dessas; ele fala de sake.

 

Não entendo nada de sake. Bulhufas.

 

Para saber um pouco mais, duas ou três vezes visitei a Adega de Sake, na Liberdade, olhei, ouvi explicações do Alexandre Tatsuya Iida —vulgo Adegão—, comprei uma coisa ou outra.

 

Quando a Adega se transferiu para Moema, fui conhecer a nova loja. Alexandre, então, depois de explanações que foram uma verdadeira aula, apontou uma garrafa e me disse: “Este é o seu sake. Ele se parece com você.”

 

Em seguida, falou da origem da marca e explicou a bebida do seu jeito: com metáforas e analogias, com pequenas parábolas. Constrói uma situação imaginária, insere personagens nela. Em vez de se limitar a esquecíveis descrições organolépticas, ele narra; narrando, interpreta.

 

É assim que orienta os clientes; creio que é assim que  enxerga o mundo. Gosto de pensar —talvez seja clichê de quem não entende nada, mas, ainda assim, gosto de pensar— que é um modo muito oriental de olhar a vida: revestido de simplicidade, de afabilidade, só que denso de profundidade; intenso e melancólico, preciso e indireto.

 

Se não me engano, naquele dia, comprei uma garrafa de shochu e três de sake. Bebi um dos sakes, gostei muito. Bebi o shochu, também gostei.

 

Só ontem, porém, meses depois, abri a garrafa do “meu sake”. E um carrossel de aromas e sabores me entorpeceu. Foi uma das bebidas de que mais gostei na vida. Mas foi mais que isso: houve uma satisfação, um reconhecimento tão prazeroso e surpreendente quanto estranho e tocante.

 

Me dei conta de que o sujeito que me associou àquela bebida mal me conhece: sabe de mim por meia dúzia de visitas às suas lojas, pelo que lê no blog ou no twitter.

 

Foi aí que entendi: o jeito de olhar a vida, independentemente de ser ou não oriental, é em primeiro lugar um jeito de olhar, é a disposição de olhar o outro e de fato enxergá-lo.

 

Que coisa! Que diferença de quase tudo que nos cerca! Quão extraordinário é esse aprendizado do olhar —e ainda mais porque talvez inconsciente, intuitivo—, sobretudo num mundo tão autocentrado, de enjoativos egocentrismos à flor da pele, como é o das comidas e das bebidas.

 

Por isso, este post é uma homenagem e um agradecimento.

 

Por ensinar —junto com incontáveis coisas sobre shochus, whiskies japoneses e sakes— que ainda há quem se importe com o outro e seja capaz de enxergá-lo.

 

Obrigado, Adegão.

 

 

 

ps. o sake em questão é o Nakadori — Zaku Miyabino Tomo.

Adega de Sake

Alameda dos Nhambiquaras, 1089, Moema, São Paulo

tel. 11 4304 0025

São Paulo é feia.

08/10/2013

 

Você já ouviu essa frase hoje?

 

Provavelmente.

 

E ontem e anteontem e assim por diante até retrocedermos a 25 de janeiro de 1554. Um bandeirante e um jesuíta talvez tenham olhado o horizonte (na época, creia, era possível enxergar o horizonte desde o planalto) e constatado: São Paulo é feia.

 

Hoje, quatrocentos e cinquenta e tantos anos depois, virou mania dizer que São Paulo é feia. Assim, os paulistanos professam com louvor sua peculiar forma de destratar a cidade em que vivem.

 

Têm razões de sobra, é claro: umas quatrocentas e cinquenta e tantas logo me vêm à cabeça.

 

Sem falar que esse masoquismo urbano virou também uma manifestação cult: fica subentendido que o interlocutor conhece muitas outras cidades, todas naturalmente superiores a São Paulo e, em seu requinte de urbanista, sabe bem avaliá-las e compará-las.

 

E assim vemos elogios rasgados a lugares horríveis (não, não citarei cidades muito piores do que São Paulo), sempre vistos na perspectiva do turista, jamais do morador. São Paulo, afinal, é feia: basta constatar.

 

Acontece que, embora seja (conforme bem sabemos) feia, São Paulo tem coisas sensacionais.

 

Pense no Effendi.

 

Ande meio quarteirão para a direita e verá uma infinidade de lojas mal ajambradas, com vitrines idênticas e gosto duvidosíssimo.

 

Ande meio quarteirão à esquerda e estará no coração das trevas da Cracolândia.

 

Então não ande, fique sentado ao balcão e peça uma das melhores, talvez a melhor esfiha de São Paulo. Preparada na hora, massa saborosa, bem assada, cobertura deliciosa de carne, queijo, espinafre ou basturma.

 

Diante dos seus olhos (lembre-se: você não andou à direita, nem à esquerda e ainda está sentado ao balcão, esperando a esfiha ficar pronta), uma televisão exibe programas a que você jamais assistiria na sua casa. Acima e abaixo da tv, bebidas que você nem lembrava mais que existiam — e era melhor mesmo não lembrar.

 

Mas a esfiha está ali, incólume aos modismos e às frases feitas e artificiais de chefs que se divisam com publicitários.

 

Ela, a esfiha do Effendi.

 

Porque São Paulo é feia. Mas felizmente também é linda.

 

 

 

[ps. Vivi 48 anos e meio, dos meus 49, em São Paulo. Acho São Paulo feia e acho São Paulo linda. Hoje, depois de comer, às dez e meia da manhã, uma esfiha de queijo com basturma no balcão do Effendi, acho que São Paulo é muito mais linda do que feia.]

 

 

 

Effendi

Rua Dom Antônio de Melo, 77, Luz, São Paulo

tel. 11 3228 0295