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Quero ser Amish!

25/10/2010

 

Tomara que ninguém fique bravo comigo por causa do título-brincadeira. Sou escaldado: certa vez brinquei com bascos e levei pedrada de todo lado.

O fato é que de uma semana para cá cogitei seriamente me tornar Amish.

Claro que isso traria algumas dificuldades: manter o blog, por exemplo.

Mas a compensação seria fabulosa: comer funeral pie regularmente. Talvez me tornasse também um sujeito meio vil, mórbido, torcendo pela morte alheia e pela decorrente torta.

O que é funeral pie?

Torta de cidra, passas e especiarias. A tradição Amish indica, em caso de morte de conhecido, prepará-la e levá-la à casa enlutada.

De tempos para cá, passou também a ser associada ao Halloween e comida no final de outubro.

Quem me explicou, via twitter, foi Flavio Federico, chef pâtissier e dono da Sódoces.

Já faz algum tempo que considero a Sódoces a melhor doceria de São Paulo. Vou lá pelos belos doces e pelo sorvete — algo tão maltratado nesses ares tupiniquins. Cupuaçu, baunilha, chocolate, graviola são meus prediletos. Mais recentemente, o improvável sabor de cerveja preta engrossou a lista.

E, claro, os macarons sem equivalente, que eu conheça, ao sul do Equador. Cambuci, butiá e pistache. E portokali (laranja & chocolate), oiapoque (cupuaçu, chocolate branco e rapadura) e de caipirinha (pois é, não gosto de caipirinha, mas gosto de macaron de caipirinha). Ai.

Nesse final de semana, porém, fui lá com uma ideia fixa: experimentar a funeral pie. E lhes digo uma coisa: vale a pena converter-se. Se não ao anabatismo, pelo menos à gulodice funerária.

A massa preparada pela Sódoces é macia, delicada, crocante, açucarada sem exageros, saborosíssima. O recheio ácido, doce, forte, viciante.

Até que minha questão religiosa se resolva, resta comê-la uma vez por ano — e aproveitar que nessa semana ainda tem.

Mas fica o alerta: se o blog parar subitamente, quiserem falar comigo e não souberem onde me encontrar, mandem uma carta lá para a Pensilvânia, onde estarei todo de preto, perfidamente aguardando a morte de alguém.

Sódoces

Alameda dos Arapanés, 540, Moema, São Paulo

tel.  11  5051 5277


Diário de um enforcado

20/04/2009

Ando meio enforcado por conta do Imposto de Renda. Por isso, as idas a restaurantes rarearam um pouco.

Um fim de semana esticado, porém, com uma terça de enforcamento e uma segunda enforcada, merece alguma comemoração. Recolho aqui algumas anotações das andanças.

Sexta à noite: atualização de cardápio

Visita ao Sal para provar dois pratos que não conhecíamos. O nhoque de mandioquinha com ragu de javali e o copa lombo com quiabo, tomate e farofa de pão e maçã.

O nhoque – opinião de minha mulher, especialista no assunto – é o melhor que já provamos. Macio por dentro, selado por fora, com gosto marcante da mandioquinha. O ragu, forte, faz lembrar que comida italiana não é para principiantes… Merece um pão para conter a fúria da carne e do tempero. Mas é bom.

O copa lombo veio num pedaço que dava, por baixo, para dois. Me esforcei e dei cabo – com o auxílio valioso de minha filha. A carne, gorda (no bom sentido) e macia, é assada por horas e mantém o sabor intenso, destacado. Excelente. Os quiabos e a farofa acompanham bem. Dispensaria os tomates, mas acho que a maior parte das pessoas não o faria.

Para acompanhar, um Bergerie de L’Hortus, Pic Saint-Loup. Peguei mania desses vinhos do Languedoc.

Sábado à tarde: minidegustação de sorvetes

Primeiro na Douce France: baunilha, frutas vermelhas e o sorbet de chocolate 70%.

Depois, na Sódoces: laranja e chocolate, cupuaçu, chocolate de origem, baunilha e frutas vermelhas de novo.

Tomamos devagar, sem aquela vontade de tirar o pai da forca. Depois, analisamos criteriosamente um a um, comparamos com cuidado e concluímos: são todos ótimos e não dá para priorizar um ou outro…

Sábado à noite: árabe (mais ou menos) de casa

Uma passagem rápida pelo supermercadinho vizinho, que faz pastas bastante razoáveis. Coalhada, homus e babaganuche. Pão sírio, claro. E uma garrafa de Norteña.

Um telefonema para o Almanara, que pode não ser o Arábia nem a Tenda do Nilo, mas é honesto. Esfihas, kibes e – exigência ininterrupta da Lia – charutinho de folha de uva.

E noite de comilança. O destaque foi o babaganuche, com gostinho mais de queimado, ótimo.

Domingo de manhã: padaria em casa

Já estava tudo preparado para um pão na chapa doméstico. Pão, manteiga boa e, para fechar, melado.

Duas fatias com um toquinho de flor de sal. A terceira levou uma leve camada de melado por cima. Uau!

Domingo à tarde: especialidade da casa

Gosto de pato. Adoro pato. Na verdade, sou absolutamente louco por pato. Um dia, ainda vai brotar pena em mim.

Havíamos comprado uma quantidade industrial de coxas e sobrecoxas congeladas da Vila Germania. E temos um bom reservatório de gordura de pato sempre pronto na geladeira.

Separamos quatro peças, devidamente dispostas e cercadas de gordura numa das nossas novas panelas, que pesam mais que nossa cachorrinha. Ficaram quase fritas (foi a panela? O excesso de gordura?). Depois, forno, com a pele já crocante.

Para acompanhar, cenouras raladas com um tiquinho de creme de leite e batatas raladas no forno. E um Château Puycarpin, bordeaux básico, que caiu muito bem.

E o pato, ah, o pato…