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Ser ou não ser (trattoria)?

22/06/2014

 

Soa quase como uma afetação chamar de trattoria a Trattoria, nova casa Fasano, aberta há uns meses em São Paulo.

 

O salão não é de trattoria, o serviço não é de trattoria, o estilo não é de trattoria e, obviamente, os preços não são de trattoria.

 

O cardápio, sim. Tradicional até a medula, reproduz a mistura de pratos regionais italianos que caracteriza os menus das trattorie, ou das cantinas, paulistanas.

 

Já os resultados, pelo menos no que tange aos pratos que experimentamos numa única visita, ficam a meio caminho: não equivalem —com a graça do Altíssimo— aos das trattorie paulistanas, mas tampouco empolgam. É fácil lembrar de dois ou três restaurantes paulistanos que ofereçam resultados melhores, e a preços mais baixos.

 

Na Trattoria Fasano, meu espaguete aos frutos do mar veio com muitos camarões, mas unanimemente além do ponto. Marisco, havia um único —solitário, o pobrezinho, abandonado pelos colegas— e três anéis finos de lula. Lembrando o que ocorre nas trattorie, o molho proliferava, exagerado, a ponto de o espaguete acabar bem antes dele.

 

Melhor era o tagliatelle no ragu de cordeiro: massa fresca, no ponto, com molho consistente, aromático e saboroso —até mais aromático do que saboroso. O polpettone ao forno, macio e intenso, recheado com uma camada fina de mussarela de búfala, estava ótimo e leve. Um bom espinafre refogado o acompanhava —acompanhamento, diga-se de passagem, pedido à parte.

 

O tiramisù e a pastiera di grano foram servidos gelados e estavam agradáveis —nada além disso, nada próximo do que a imprensa gastronômica acostumou-se a chamar de “padrão Fasano”.

 

Acho que não tomamos as oito garrafas de água que nos cobraram, mas o bom e velho sistema paulistano (não utilizado nas trattorie; apenas nos restaurantes chiques ou candidatos a) de manter a garrafa distante da mesa e o copo do cliente continuamente cheio impede qualquer cálculo mais preciso.

 

Na carta de vinhos não havia exemplares com preço abaixo de três dígitos e nenhum rótulo da Sicília (o único listado não estava disponível).

 

Também a safra do vinho servido não coincidia com a indicada na carta (e, no caso, a diferença era relevante): taí algo que pode ocorrer numa trattoria.

 

Por outro lado, não conheço trattoria que cobre 13,8% de serviço, nem que os cobre inclusive sobre o custo do estacionamento —o antigo e errado serviço sobre serviço.

 

No balanço geral, o jantar foi de razoável a bom no paladar, de ruim a péssimo no bolso. A impressão geral é que a comida da Trattoria Fasano não lembra, nem de longe, a das casas principais da marca: Gero, Parigi, Fasano.

 

E definitivamente: o nome não combina com o lugar e o lugar não combina com os novos ares que os restaurantes de São Paulo parecem querer assumir: menos pompa e afetação, melhor relação custo-benefício.

 

 

Trattoria Fasano

Rua Iguatemi, s/nº, Itaim, SP

tel. 11 3167 3322

 

 

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