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Bom, barato e inteligente

19/03/2009

Comida tem que ser, em primeiro lugar, boa de comer.

Comida boa pode ser cara ou barata. Em São Paulo, quase sempre é cara.

Embora preço seja subjetivo e circunstancial.

Gastar 300 reais por cabeça – no Jun, por exemplo – é trocá-los por um prazer e algumas horas de tremenda satisfação.

Desperdiçar 20 – ou pior, 150 – numa biboca que serve uma porcaria revolta.

Voltei ao Sinhá no domingo passado para comer bem e barato.

Houve época em que trabalhava bem perto e almoçava lá sempre.

O tempo passou, meu emprego mudou e só de vez em quando provava o trivial bem montado do chef Julio Bernardo.

Chef Julinho, como gosta de ser chamado, é um polemizador na gastronomia paulistana. Por conta disso, parece que colecionou inimigos e adquiriu fiéis adeptos.

Eu, que vivo em outro mundo, não me interesso por essas brigas. As do mundo em que trabalho já são suficientemente encarniçadas e baldias para que eu não precise recorrer a outras. Resumo-me a ler o que ele escreve em seu concorrido blog. Às vezes, concordo; outras vezes, não. Às vezes rio, em outras me irrito. É assim a vida.

Mas me interesso pela comida que ele serve por 30 reais, no almoço de domingo, e um pouco menos durante a semana.

Me interesso por sua proposta – sim, tem uma – de recuperar pratos da cozinha regional brasileira, executá-los de forma que contornem os riscos do super-aquecimento de um bufê e oferecer variações inteligentes de alguns preparos, incorporando ingredientes e combinando tradições e tempos.

Me interessam os legumes pouco cozidos do bufê de saladas, que mantêm a crocância e o sabor do ingrediente de boa procedência. Me interessa seu pãozinho de tapioca, que pode vir acompanhado do chutney de manga, cheio de gosto da fruta.

Me interessam os deliciosos chips de abobrinha – que minha filha (que não gosta de abobrinha) adorou.

Ou o escondidinho de carne seca, um dos melhores pratos – superior, por exemplo, ao Baião-de-dois, que estava um tanto inexpressivo, e à boa-mas-não-empolgante costelinha barbecue.

Me interessa o bife ancho, saído da grelha do fundo do salão e melhor que o de muita churrascaria bacana por aí: macio, saboroso, grelhado no tempo e no ponto certo.

Na sobremesa, o inventivo e bom tiramisù de rapadura, puxado no álcool. O brownie de chocolate branco com castanha do Pará e sorvete de framboesa é doce demais para o meu gosto, mas é fácil perceber que é bem concebido e preparado. Sem contar o leve e delicado pudim de leite – que tem o óbvio, mas tantas vezes perdido, gosto de leite.

Para fechar, um expresso bem tirado.

Tudo isso antes de pedir a conta de 120 reais (dois adultos e uma criança – que paga metade do valor do bufê) e sair de lá caminhando pela rua dos Pinheiros com a sensação do bom e do barato, da comida honesta, que concilia idéias novas e ocasionais adaptações de clássicos com execução correta. Comida que vem – algo raríssimo num bufê – no ponto certo de cocção.

Comida – que mais dizer? – muito boa de comer.

Sinhá

Rua Antonio Bicudo, 25, Pinheiros, São Paulo

Tel.  11  3081 4627

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Sinhá