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My poor tongue

30/04/2009

 

Entramos na doceria e pedimos dois sorvetes: um para mim, outro para minha filha.

– Como querem? – pergunta a moça.

– No copo. – respondo.

Sentamos numa mesa com minha mulher, que preferiu um doce.

Chegam os sorvetes, num copo de plástico mole, desses de água. A colher, pequena, quase não chega ao fundo dele.

Um pouco pasmos, tomamos.

Minha filha encontra dois belos pedaços de gelo: um no sorvete de baunilha, outro no de framboesa.

Para comprovar que a refrigeração anda com problemas, meu sorbet de chocolate 70% parece crocante de tanto gelinho.

Minha mulher, meio impaciente, se levanta e vai reclamar dos copinhos. Ouve:

 

– Foram eles que pediram.

Acabamos o sorvete e queremos café. Ninguém atende.

Doceria praticamente deserta. Cinco minutos se passam.

Minha mulher se levanta de novo e pede que alguém nos atenda. Demora só mais um pouquinho.

Ao pedirmos os cafés somos novamente acusados pelos copinhos:

 

– Pediram copos: são os únicos que temos.

Não adianta explicar que não cabe ao cliente conhecer os recursos da casa, mesmo se a freqüenta desde o exato dia da abertura e com boa regularidade. Ou que sorvete não pode ser servido em copo mole de água, nem com ordem presidencial.

Tomamos o café e vamos ao caixa pagar a conta. Mais demora.

E a conta inclui 10% de serviço.

10% em doceria, e com esse atendimento?

Saímos de lá sinceramente chateados. Gostamos do lugar.

Onde aconteceu tudo isso?

Na Douce France, que elogiei aqui mesmo, há dez dias.

Em bom português, I burned my tongue…

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Diário de um enforcado

20/04/2009

Ando meio enforcado por conta do Imposto de Renda. Por isso, as idas a restaurantes rarearam um pouco.

Um fim de semana esticado, porém, com uma terça de enforcamento e uma segunda enforcada, merece alguma comemoração. Recolho aqui algumas anotações das andanças.

Sexta à noite: atualização de cardápio

Visita ao Sal para provar dois pratos que não conhecíamos. O nhoque de mandioquinha com ragu de javali e o copa lombo com quiabo, tomate e farofa de pão e maçã.

O nhoque – opinião de minha mulher, especialista no assunto – é o melhor que já provamos. Macio por dentro, selado por fora, com gosto marcante da mandioquinha. O ragu, forte, faz lembrar que comida italiana não é para principiantes… Merece um pão para conter a fúria da carne e do tempero. Mas é bom.

O copa lombo veio num pedaço que dava, por baixo, para dois. Me esforcei e dei cabo – com o auxílio valioso de minha filha. A carne, gorda (no bom sentido) e macia, é assada por horas e mantém o sabor intenso, destacado. Excelente. Os quiabos e a farofa acompanham bem. Dispensaria os tomates, mas acho que a maior parte das pessoas não o faria.

Para acompanhar, um Bergerie de L’Hortus, Pic Saint-Loup. Peguei mania desses vinhos do Languedoc.

Sábado à tarde: minidegustação de sorvetes

Primeiro na Douce France: baunilha, frutas vermelhas e o sorbet de chocolate 70%.

Depois, na Sódoces: laranja e chocolate, cupuaçu, chocolate de origem, baunilha e frutas vermelhas de novo.

Tomamos devagar, sem aquela vontade de tirar o pai da forca. Depois, analisamos criteriosamente um a um, comparamos com cuidado e concluímos: são todos ótimos e não dá para priorizar um ou outro…

Sábado à noite: árabe (mais ou menos) de casa

Uma passagem rápida pelo supermercadinho vizinho, que faz pastas bastante razoáveis. Coalhada, homus e babaganuche. Pão sírio, claro. E uma garrafa de Norteña.

Um telefonema para o Almanara, que pode não ser o Arábia nem a Tenda do Nilo, mas é honesto. Esfihas, kibes e – exigência ininterrupta da Lia – charutinho de folha de uva.

E noite de comilança. O destaque foi o babaganuche, com gostinho mais de queimado, ótimo.

Domingo de manhã: padaria em casa

Já estava tudo preparado para um pão na chapa doméstico. Pão, manteiga boa e, para fechar, melado.

Duas fatias com um toquinho de flor de sal. A terceira levou uma leve camada de melado por cima. Uau!

Domingo à tarde: especialidade da casa

Gosto de pato. Adoro pato. Na verdade, sou absolutamente louco por pato. Um dia, ainda vai brotar pena em mim.

Havíamos comprado uma quantidade industrial de coxas e sobrecoxas congeladas da Vila Germania. E temos um bom reservatório de gordura de pato sempre pronto na geladeira.

Separamos quatro peças, devidamente dispostas e cercadas de gordura numa das nossas novas panelas, que pesam mais que nossa cachorrinha. Ficaram quase fritas (foi a panela? O excesso de gordura?). Depois, forno, com a pele já crocante.

Para acompanhar, cenouras raladas com um tiquinho de creme de leite e batatas raladas no forno. E um Château Puycarpin, bordeaux básico, que caiu muito bem.

E o pato, ah, o pato…