Posts Tagged ‘gastronomia italiana’

De Gênova

10/10/2009

Pode parecer incrível, mas é difícil comer boa massa em São Paulo.

Fora os grandes (e caros) restaurantes italianos, conto três ou quatro casas que nunca me decepcionaram no ponto da massa, no molho ou, mais comum, em ambos.

Uma delas é o Zena Caffè, que homenageia a cidade de Gênova no nome e que já teve uma ótima trofie, massa típica da Ligúria. Tiraram do cardápio e, cada vez que vou lá, sonho reencontrá-la. Ainda não consegui.

Enquanto isso, fico com a salada de folhas verdes, frutas e flores, que recebe molho bem dosado de balsâmico, azeite, mel e pimenta rosa e varia os ingredientes conforme a estação. Na última vez, tinha alface, rúcula, rúcula italiana e endívia, manga, morango, kiwi e figo. Bolinhas de queijo de cabra e chips de presunto cru acompanhavam e davam um toque agradável de sal.

As foccaccie e as bruschette são boas e a única decepção fica por conta dos arancini com mix de cogumelos, uma boa idéia que resulta numa porção simpática de mini-bolinhos, mas de sabor inexpressivo.

Mas voltemos às massas porque são elas que importam. Principalmente se for o prato de trenette ao pesto. Mais lígure, impossível. E precisa no ponto da massa e no equilíbrio do molho. Os pinoli e o manjericão (cultivado em vasos à vista do cliente) têm aquele sabor que nos lembra por que a culinária italiana é inesquecível, por que tem a solidez de séculos. Solidez que nenhum espanhol metido a cientista vai abalar.

De sobremesa, a focaccia doce com pêssego é agradável, mas não empolga. Deliciosa é a sacripantina: pão-de-ló embebido em café e licor, com creme de mascarpone.

A única coisa que falta, no Zenna (além, claro, da volta da trofie), é uma oferta mais diversificada de vinho em taça (os três ou quatro rótulos normalmente oferecidos não empolgam) – inclusive italianos e de sobremesa. No site constam rótulos de vinsanto e de passito di panteleria, mas não havia em nenhuma das visitas.

O serviço é bastante gentil e simpático, apesar de inexperiente, e o ambiente, que combina o visual de restaurante com o de empório (felizmente sem afetação), é agradável, tanto na parte externa quanto na interna.

Sobretudo: ajuda a aumentar a limitada lista das casas que servem boa massa (e, no geral, boa comida italiana) a preço não-astronômico. O que não é pouco e nos faz pensar que, afinal de contas, é possível comer massa de qualidade relativamente em conta numa cidade que tem dezenas de restaurantes italianos, mas pouquíssimos que prestam.

Zena Caffè

Rua Peixoto Gomide, 1901, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  3081 2158

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Zena Caffè

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SPRW: Picchi

07/09/2009

 

Nem pretendia ir ao Picchi na RW. O menu não tinha me atraído.

E hoje tampouco pretendia comer fora. No máximo, arriscaria o Marcel, assim que abrisse, para evitar fila.

Mas uma mudança de planos domésticos me deixou sozinho para o almoço, às 13h15 do feriado. Tarde demais para o Marcel. Pensei no Picchi e alterei o caminho para passar defronte: se não tivesse espera, pararia. Caso contrário, comeria em casa.

Com só um terço das mesas ocupado, entrei e sentei.

Aceitei o couvert – que é dos poucos que de fato valem a pena. Mas não valeu. Nem o pão nem o bolinho salgado, normalmente excelentes, estavam frescos. Fiquei ressabiado. E a desconfiança aumentou quando reparei que o chef estava sentado no bar. Atento ao movimento, mas fora da cozinha.

Pedi uma cerveja e, de entrada, a polenta com roquefort. Então, as coisas começaram a mudar. Polenta saborosa, com roquefort diluído em creme,  mas ainda assim marcante. A pimenta seca não deixava o prato picante, mas dialogava bem com o queijo.

De principal, fiquei com o raviolini recheado com carne e legumes ao burro e sálvia. E lá estava a boa massa que é marca da casa e que tem raros equivalentes na cidade – nenhum no bairro. A sálvia dava frescor e adocicava suavemente o prato.

Na hora da sobremesa, o garçom me ofereceu uma terceira opção – além das duas indicadas no menu da semana: crostata de maçã. Valeu a pena escolhê-la: crocante e saborosa.

A flexibilidade, aliás, é algo que, aparentemente, só oferece quem leva a RW a sério. Na mesa ao lado, uma senhora pediu para trocar o molho que acompanhava o penne e o maitre não titubeou: assentiu sem mais delongas.

Enquanto almoçava, aumentou a clientela, que atingiu ¾ das mesas. Tomei o café e saí de lá satisfeito. Na porta, o chef, ainda no bar, agradeceu a visita e eu fiquei com vontade de perguntar a ele por que o Picchi não fica lotado o tempo todo. A qualidade da casa e a consistência da cozinha mereciam mais atenção de uma cidade que, ao menos em tese, preza a comida italiana.

Claro que não perguntei. Ele não saberia a resposta. Nem eu sei decifrar os maus mistérios de São Paulo.

Picchi

Rua Jerônimo da Veiga, 36, Itaim, São Paulo

Tel.  11  3078 9119

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Picchi


Uma trattoria

18/08/2009

 

O rol das boas cantinas – aquele nome que resolveram dar às trattorias paulistanas – é pequeno. Mínimo. Quase inexistente.

Uma das raríssimas boas é a Buttina.

Comemos uma entrada agradável (prato de frios, queijos, pão e azeite) antes de pedir dois tortelli de pato com molho de tomate pelado e um ravióli de muzzarela de búfala.

O recheio do tortelli (que era mais um ravióli) era farto e com sabor ótimo e intenso de pato. O de muzzarela de búfala era mais óbvio, mas igualmente bem preparado e com muzzarela de boa qualidade no recheio. Molhos saborosos e densos, na proporção correta.

As duas massas feitas obviamente na casa e servidas no ponto certo. Obrigação? Claro. Mas tem muita cantina por aí que só usa grano duro e serve massa molenga, encharcada em molho ralo. E ainda ganha prêmio – talvez porque reúna uma pseudo-intelectualidade e faça o ar cult. Sei lá.

A pastiera di grano era correta y no más, enquanto a cassata carecia de fruta cristalizada e padecia de excesso de calda (o que acelerou o derretimento do sorvete). Bom o sorvete de flocos, também da casa.

Tomamos um Villa Montes Cabernet Sauvignon, a preço decente, e águas. O café de cafeteira foi inteiramente dispensável. Serviço extremamente atencioso.

Uma refeição memorável? Certamente não. Mas quem vai a uma cantina não está à espera de grandes emoções. Quer um jantar honesto, bem feito. E a Buttina oferece isso, com o adendo interessante de algumas massas criativas.

Uma trattoria boa, enfim.

Buttina

Rua João Moura, 976, Pinheiros, SP

Tel.  11  3083 5991

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Buttina


O direito de comer – final

07/07/2009

Foi Drummond, lá pelo início dos anos 30, que desabafou: Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.

Ele reagia às vanguardas da década de 20 e a seu culto furioso de tudo que é novo. O novo como um valor em si, absoluto, excludente.

Confesso que muitas vezes sinto algo parecido. Me incomoda, nas vanguardas, sobretudo a arrogância com que se apresentam. A crença orgulhosa de conhecerem uma verdade a que os demais não têm acesso. Pode ser vanguarda na política, nas artes visuais, na literatura, na gastronomia. Iconoclastas, vanguardistas refutam a tradição como se fosse bloco único, idolatram a novidade e se apresentam como anjos anunciadores do futuro.

Claro que é possível e desejável mudar. Mais: é inevitável. Ingênuo e prepotente é supor-se portador da verdade sobre o futuro e acreditar que o futuro é um e único.

Mas por que falar de vanguarda? Já faz algum tempo que a idéia desapareceu do mundo das artes ou se pulverizou em múltiplas aparições. Na verdade, a idéia de vanguarda se esfarelou juntamente com a crença de que o tempo é linear e a história, pré-definida.

Curiosamente, porém, a palavra ganhou força – faz mais de uma década – no universo da gastronomia. E chefs, críticos e críticas acharam que deviam optar entre a tradição e a inovação, como se fossem inconciliáveis. Como se fosse possível conceber uma sem a outra.

E assim se formaram times que passaram a jogar um Fla-Flu infinito, em que só perde quem quer comer bem. Restaurantes passaram a se definir e a ser definidos em termos antagônicos.

Os integrados à vanguarda rechaçaram as casas tradicionais por considerá-las ultrapassadas ou incapazes de inovar. Não perceberam que não era uma limitação? Era uma opção, lícita como qualquer outra, desde que bem executada.

Os que associaram a vanguarda ao apocalipse acreditaram que o fim dos tempos estava próximo e passaram a tremer todas as vezes em que ouviam falar, por exemplo, de espuma. Não perceberam que o novo é importante, até para que o tradicional ganhe expressividade e se atualize?

Para que tudo isso, meu Deus?, quase perguntou Drummond em outro verso.

Não sabemos todos que não há inovação que não dialogue com a tradição? Não sabemos todos que não há tradição que não possa encontrar seu lugar no presente e no futuro? Sabemos, claro. E sabem todos aqueles que, discursos a parte, praticam gastronomia honesta e de bom nível e não se deixam levar pelas águas turbulentas do confronto político.

É possível existir, numa mesma cidade, casas com projetos radicalmente diferentes? Claro que é. Possível e desejável. Então por que rejeitar o diferente, quando ele cumpre o que promete e oferece qualidade?

Nas últimas semanas, visitei mais de uma vez o Vecchio Torino. O nome já anuncia a opção gastronômica – na geografia e no tempo. Para dizer melhor: na tradição.

Alguns amigos meus nem passam perto e torcem a boca quando ouvem o nome. De outro lado, a clientela do restaurante é nitidamente de habitués e gente mais velha que eu (e olhe que sou mais velho do que a maioria das pessoas com que convivo). Mais da metade de quem o freqüenta cumprimenta o garçom pelo nome e o garçom conhece previamente seus gostos. Dificilmente um deles jantaria, digamos, no Maní.

Minha mulher e eu comemos o couvert, que está entre os melhores de São Paulo e tem anchovas fabulosas. No lugar da entrada, dividimos o famoso nhoque da casa: nove bolinhas para cada um. Todas inesquecíveis, dissolvem na boca. Enquanto isso, nos esforçamos no manejo da colher para não deixar escapar nem uma gota do molho maravilhoso de tomate fresco e queijo Fontina. Tem nhoque melhor em São Paulo? Duvido.

Como principal, minha mulher pediu o pargo, mas não havia. O garçom sugeriu um robalo, que chegou macio e delicioso, com molho de tomates frescos e alcaparras, acompanhado de brocoli. Básico e bom. Eu comi o ossobuco acompanhado de risoto. No centro do osso, uma colherzinha para pescar o tutano. Bom? Fabuloso, absurdamente macio e com sabor intenso. Ou seja, como um ossobuco tem que ser.

De sobremesa, um creme de mascarpone, que devia ser eternizado na galeria dos sabores essenciais.

Café e conta astronômica (turbinada pela caríssima carta de vinhos), com um deslize: a cobrança de 10% sobre o valor do estacionamento, serviço sobre serviço.

Tradicional, sim. Porque há dias em que a gente cansa de ser moderno e quer ser eterno. Como o Coliseu, como o bronze, como a cobertura de algumas ruas torinesas, como a comida de um restaurante que sabe que o passado não é dejeto; é matéria sobre a qual se trabalha incessantemente, para mantê-lo presente.

Tomara, hora dessas, que meus amigos vanguardistas vão lá. No mínimo, para depois me dizerem se ainda acreditam que a gastronomia tem sentido único. No máximo, para que reconheçam algo sagrado e tantas vezes banalizado: o direito de comer – bem. E sem rótulos.

[a guisa de making of da série… Quando saímos do restaurante, minha mulher brincou: “será que tem lugar mais tradicional?” Respondi: “Não sei…  Se for tão bom, ótimo.” Então, ela completou: “E se molecularizassem o ossobuco?” E começamos a imaginar a “releitura” (epa, esse conceito é dos anos 60!) do ossobuco. No dia seguinte, em casa, veio a idéia de fazer a breve novela. Se alguém ficou chateado com a brincadeira, decepcionado porque o restaurante do capítulo 1 não existe de fato, peço desculpas. Mas que foi divertido, foi]

Vecchio Torino

Rua Tavares Cabral, 119, Pinheiros, SP

Tel  11  3816 0592

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Vecchio Torino

O direito de comer – capítulo II

05/07/2009

[Prévia Advertência

Cuidado, leitor, cuidado. Não se afobe. Não vê que o mundo é cheio de gente apressada?  Comida apressada e leitores mais apressados. Veja: foi a pressa que fez Brutus dar ouvido ao diz-que-diz e correr à escada do Senado. No que deu? Matou o pai e ainda entrou para a história como tonto.

Quer outro exemplo? Dou. Faz poucos dias, minha tia, senhora feita, andava com fome. Faltou-lhe paciência e entrou no primeiro lugar que viu. Nem conto o que ingeriu. Esta, afinal, é uma prévia advertência, não um remate de males. Tampouco são linhas com vocação escatológica. Deixo isso para os programas infantis e me atenho ao que tenho de dizer: não tenha pressa. O apressado, diz o ditado, vira crudista.

Digo mais: não acredite naqueles que falam que de novela basta o princípio e o fim, abandonado o meio. São uns despeitados que nunca fariam o Sansão num filme épico. Admira que não estejam numa passarela. Não, leitor, todos os capítulos são precisos. De outro jeito, perde você o fio, logo depois o interesse (que é a meada), e fico cá eu sem leitor.

Portanto, não comece a ler essa breve novela (não tema: é breve) pelo capítulo 2. Retroceda um pouco ou olhe de lado. Vê essa ligação aí, que diz capitulo 1? É ela. Vá, leia e volte. E, para mostrar que terá uma recompensa, já aviso: quando voltar, lido o capítulo 1, pule a advertência prévia, que não é assim tão breve, e passe logo ao 2.]

Capítulo 2

O mundo em derredor era um ruído incomum. Alta, longa e na dúvida majestosa, uma voz se aproximava.

Eu, perdido em minha crispação, não via nada ou discernia o que me cercava. Senti, porém, as gotas frias do suor que corriam pela nuca e algum tremor nas zonas periféricas.

A voz chegou mais perto e notei que não era uma, eram duas, três vozes que me falavam.

Abri finalmente os olhos, na expectativa de encontrar o garçom e, quem sabe?, um carpaccio de stracotto alla fiorentina ou um omelete de mascarpone.

A princípio tonto, entre a doçura e o frenesi, envolvido num mar de moléculas, só podia perceber três sombras. Aos poucos elas se definiram e, no lugar do garçom, estavam minha mulher, minha filha e minha cachorrinha-salsicha – viva, crua e peluda.

Como foram parar lá? Aliás, onde eu estava?

Falavam comigo e o vozerio ganhava significado. Olhos abertos, encontro gentes, sala e computador defronte. Ultrapasso o umbral do delírio e consigo reagir, voz vacilante: “Ma dove siamo?”. Uns minutos mais e entendo o que me dizem: “Você está bem?”, “Pai, o que está acontecendo?”, “Au, au!”

A consciência, essa desejada das gentes, retorna e me vejo diante das fotos que o pessoal do Bicho postou, em segunda mão, sobre a nova temporada do El Bulli. Só que os pratos eram outros, embora as novidades, paradoxalmente, talvez fossem as mesmas. Súbito me passa uma idéia pela cabeça: como o novo fica rapidamente velho, meu Deus!

Minha mulher volta a perguntar se estou bem. Hesitante, faço um gesto positivo qualquer. Ela insiste, ainda preocupada: “Vamos mesmo jantar fora ou é melhor cancelar a reserva no Vecchio Torino?”

Ouço o nome do restaurante a que iríamos e entendo a dinâmica do delírio. Esconjuro os instantes passados, seco o resto do suor, percebo minhas mãos firmes. Desvio o olhar – ainda atônito, não mais angustiado – da tela do computador e percebo que misturei, numa catarse esdrúxula, as imagens que via com a refeição que pretendia fazer. Rompo o círculo mágico e, antes de ir para o banho, respondo, confiante e aliviado: Sim.

[Pois é, leitor, nada como um final feliz, não é? Mas a saga continua. No próximo post, a descrição da visita ao Vecchio Torino e, ao final, uma breve explicação sobre a origem da série]

O direito de comer – capítulo I

04/07/2009


O garçom me trouxe o i-pod e pediu que o colocasse. Com voz macia e olhar gentil, sugeriu o volume 1. Não fosse eu impor a audição aos demais sentidos.

Suave e delicado, o som começou a entrar pelos ouvidos. Vento, farfalhar de folhas, ruídos de pequenos insetos.

Quase imergia quando notei que o rapaz posicionava, à minha frente, todo um arsenal.  Quatro pequenos balões, dois vermelhos e dois amarelos, se alternavam em torno do espaço em que ficaria o prato. À direita e à esquerda, instrumentos desenvolvidos no próprio restaurante e que substituiriam, com vantagem, os talheres que alguns restaurantes, hóspedes do passado, ainda insistem em usar.

Havia um pequeno perfurador com um círculo na outra ponta, onde se via o logotipo elegante e criativo do restaurante. Havia um artefato curvo e macio, colorido, parecido a uma esponja bem seca. Havia dois pegadores (um marrom, outro violeta), como os de salada, recobertos com uma película fina e sedosa.

Meus ouvidos filtravam o som bucólico do i-pod. Meus olhos assistiam ao espetáculo de cores e formas.

Chegou o prato, branco-polar com desenho de formas irregulares negras e marrons. Sobre ele, um tutano esferificado sobre espuma de ossobuco. Quatro cubos os ladeavam, de um violeta forte.

O garçom me orientou a manejar o pegador marrom com a mão direita. Devia aprisionar as pequenas esferas, uma a uma (a suavidade da película não permitiria que elas se rompessem), e levá-las à boca. Simultaneamente, o polegar e o dedo mínimo da mão esquerda controlavam o perfurador e estouravam um dos balõezinhos amarelos.

O ar exalado pelo balão trouxe às minhas narinas o inconfundível aroma de risoto, enquanto a esfera de tutano explodia seu sabor na boca. Sincronização perfeita, que contava ainda com os mugidos, ao longe, que saíam pelos fones do i-pod.

Em seguida (e sempre seguindo as rigorosas instruções do garçom), mergulhei o artefato curvo e macio, esponjoso, na espuma de ossobuco e o levei à boca com a mesma mão direita. A esquerda perfurou o balão vermelho e o cheiro de tomates frescos da Toscana me invadiu no exato instante em que espremi a esponja e deixei a espuma escorrer pela boca.

O segundo pegador serviu-me para envolver um dos cubos violetas. Larguei-o delicadamente sobre a língua e, em segundos, me dei conta que nenhum rótulo de Gaja podia superar a sensação que aquele barolo gelificado proporcionava, sobretudo quando associado aos mugidos cada vez mais próximos e ao ruído de bovinos pastando que o i-pod oferecia.

Alternei os elementos e os balões até encerrar o prato. Olhei em volta, tecnoemocionado, e não vi o garçom. No i-pod, o som parara.

Onde ele estaria? Teria ido buscar a sobremesa? Me traria mais surpresas? A sensação de abandono fazia parte da refeição? Ativaria algum sentimento ainda estático? Aprofundaria o êxtase? O que estava acontecendo?

[Aguarde, leitor, o próximo capítulo. O que virá? Ar refrigerado de grana padano? Semifreddo di caponata? Em breve, neste mesmo blog]

Così Così

31/05/2009

 

A amiga e leitora Carola me enviou um comentário sobre o Così.

O que ela conta coincide com vários relatos que tenho ouvido sobre o restaurante novo de Renato Carioni.

Por isso, resolvi publicá-lo aqui (e agradeço, de saída, à Carola):

“Fomos ontem ao Così; diga-se de passagem… bem Così  così !!!

Como estávamos em 2 e não tínhamos reservado a mesa do chef (4 a 6 pessoas) não podíamos pedir o menu degustação!

Resolvemos fazer a nossa degustação.

Pedimos uma taça de espumante para começar a olhar o menu (só tem espumante Casa Valduga).

De antipasto, pedimos o ovo mollet (com lentilhas, molho cremoso e foie gras). Estava bem feitinho e saboroso, um prato bem de inverno, com bastante pancetta.

O primo piatto foi uma decepção. Pedimos a lasagna de pato com cogumelos e abóbora. O pato parecia carne louca e o cogumelo estava sem sabor; acho que  a abóbora passou correndo, pois não a vi nem senti, mas a massa estava no ponto.

Como secondo, fomos de paleta de cordeiro com caneloni de pimentão recheado de cuscuz marroquino. A paleta estava extremamente macia, mas o acompanhamento não agradou: o pimentão atrapalhou o vinho que levamos (um Barbaresco – R$ 30 a rolha) e não gosto de cuscuz doce (com damasco, uvas passas etc.).

Devíamos ter pulado a sobremesa, pois não deu para comer o cheesecake de doce de leite. A massa parecia biscoito Maria com bastante manteiga; o recheio eu não sei o que era, mas definitivamente não nos agradou. Raspamos o doce de leite da cobertura e só!

Conta R$ 180 o casal – custo beneficio bem Ok para São Paulo.

O restaurante é bem bonito, adorei ficar vendo a cozinha e, no andar de cima, um cara fazendo a massa a noite inteira!

No final das contas, acho que o Chef Renato vai se dar bem lá, já que o bairro ao lado (Higienópolis) tem alto poder aquisitivo e carência de restaurante italiano!

Serviço meio confuso, mas gentil.”

Lost in Lisbon

29/05/2009

 

Na noite em que fomos jantar no Jun, mas o Jun não foi (vide post anterior), nos vimos perdidos, sem pai, nem mãe, na Rua Lisboa.

O que fazer? Pretendíamos beber um espumante no Jun. Por isso, estávamos sem carro.

Quais as opções? Vagar de táxi, à procura de um restaurante? Voltar para casa e pegar o carro? Ir a um de nossos “restaurantes de segurança” (aqueles onde sempre comemos bem)? Não sabíamos.

Entramos num táxi, meio sem rumo. Rodamos cinqüenta metros e vimos a Genova – “culinária regional italiana”. Pagamos o valor da bandeirada, descemos, entramos na trattoria.

As cenas e diálogos a seguir, verídicos!, resumem e ilustram nossa noite.

Personagens

A: minha mulher

B: eu

C: o garçom

Abrem-se as cortinas.

Cena 1: O cardápio

A (meio indignada): Só tem massa seca? Nenhuma fresca? Como assim? O Pasquale está fazendo escola!

B (preocupado): É…

A (um pouco mais indignada): Como pode ser “culinária regional” se não tem massa fresca?

B (um pouco mais preocupado): É…

A (um pouco mais tranqüila, após um bom gole do Primitivo di Manduria, da Masseria Trajone, com sobrepreço honesto): Você já resolveu o que vai pedir?

B (em dúvida): Não sei, pensei na pasta alla Norma, mas já comi uma no domingo, na Tappo. Não sei… Epa, mas o que um prato siciliano está fazendo no cardápio de um restaurante genovês?

A (duvidosa): E a lingüiça toscana?

B (meio indignado): E por que não tem troffie, que é da Liguria, onde fica Gênova?

A e B (espantados): Gozado…

Cena 2: O serviço

A (ainda inconformada, mas esperançosa): Vocês têm algum prato do dia?

C (categórico): Temos, sim, senhora. Nhoque e Ossobuco…

[A sorri ao ouvir “nhoque”; B saliva ao ouvir “ossobuco”]

C (continuando): ... mas nhoque, hoje, não tem. Nhoque é só na quinta.

[A fica novamente decepcionada]

B (ainda interessado): Acho que vou pedir o ossobuco.

C (esclarecendo): Não tem ossobuco…

B (sem entender nada):

C (arrematando): Ossobuco é só no sábado.

[A e B se olham um tanto aparvalhados e pedem a C mais tempo para escolher]

Cena 3: Hora de comer

[A finalmente pediu Fusilli com mollica (miolo de pão torrado, esfarelado e refogado com anchova, alho e pimenta), rúcula, azeite, sal grosso, e ervas;

B finalmente pediu “Bavette ao pesto genovese”: azeite, alho, manjericão, pinoli, manteiga, pecorino e parmesão.

Ambos esperam os pratos e conversam. Ficaram relativamente satisfeitos com a escolha. Pelo menos foi o mais próximo de algo genovês que havia no cardápio. Enquanto esperam, bebem o vinho e comem o pão italiano do couvert, com sardela agradável, mas muito líqüida, e manteiga carregada de alho. Chegam os pratos]

A (sentindo-se segura): De vampiros, estamos protegidos. Dá para sentir o cheiro do alho do meu prato?

B (sentindo-se seguro): Dá. Do seu e do meu. E do da mesa vizinha.

[A e B começam a comer com a sensação de que estão envoltos numa nuvem de vapor de alho]

B: Forte para cachorro, o meu. Mas saboroso.

A: O meu também. Mas a mollica é boa.

[Passam-se alguns minutos]

A: É, está bem feito. Massa no ponto. Mas acho que não chego ao fim. Está muito forte.

B: Pois é, o meu também.

[Passam-se mais alguns minutos]

A (exausta): Nossa, vou parar. Por que tanto molho, meu Deus? E tão forte…

B (guloso, já sem massa no prato, mas com uma grande quantidade de molho): Vou comer um pouco desse molho com pão…

[Ambos finalmente param de comer. B, mais guloso (ele ainda não sabe que depois se arrependerá disso), come todo o molho restante, com pão. A e B decidem provar o pudim de pão, como sobremesa. Acham o pudim gostoso, embora excessivamente doce. Dão um sorriso. Até esqueceram que foram jantar no Jun e o Jun não foi. Pagam a conta de 180 reais e acham que o jantar foi razoável, mas o preço é um pouco mais alto do que deveria. Saem, pegam o táxi de volta para casa]

Cena 4: Nel letto

[Caro leitor, se você se empolgou com o título porque imaginou que ele antecipava descrições detalhadas de safadeza, está redondamente enganado. São 4 da manhã no apartamento de A e B. A, que é um anjo e sabe a hora de parar de comer um prato exagerado no tempero, dorme o sono dos anjos. B, que foi guloso, não consegue esquecer do molho, que ele teve a ousadia de comer até o fim. Percebe que o jantar não foi ruim, mas que ele cometeu um erro grave e que o molho não lhe sairá do estômago se não se levantar. Levanta-se, sai do quarto, encosta a porta e, cabisbaixo, vai para o escritório, onde se senta à frente do computador e começa a trabalhar umas quatro horas antes do que pretendia. Antes de abrir o Word, ainda se pergunta, baixinho: ]

B (indagativo): Por que o Jun não foi? Por que a cantina se chama Genova? E por que eu tinha que comer aquele molho até o fim???

Fecham- se as cortinas.


Genova

Rua Lisboa, 346, Pinheiros, SP

tel. 11 3064 3438

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Genova

Três italianos

24/05/2009

1. Luiz Américo Camargo falou do Picchi no blog e deixou um rastro de tremenda inveja: cacio e pepe e prime rib suíno…

2. Arnaldo Lorençato falou do Così na Veja SP de ontem. E deu vontade de voltar lá…

3. Mais perto de casa (e aberta no domingo), voltei à Tappo, em ritmo solo – algo que não fazia há tempos. A pasta alla Norma estava correta, embora eu a prefira um pouco mais apimentada e com uma ricota mais expressiva. Mas as duas pontas do almoço foram de deixar saudade. O cheesecake caprino com calda de amora (e uma tacinha de vinsanto no acompanhamento) estava maravilhoso: textura, sabor, teor de doçura. Tudo. Mas o auge do almoço foi a entrada: moela e fígado acebolados, com uva na cachaça. Não comia um fegato tão bom desde que a antiga Venitucci fechou as portas. Para acompanhar, o Pasodoble, do ramo argentino da Masi. Agora, soneca. Boa noite, digo, boa tarde.

Pato na Tappo

16/05/2009

 

A primeira vontade de voltar ao Tappo aconteceu quando o Júlio Bernardo recomendou, no Twitter, o pato de lá.

A segunda foi hoje cedo.

Fazia uma semana que só comia salada. Adoro salada, mas temi enlouquecer. Ou pior: virar vegetariano.

Acordei, tomei banho e fui à escola da minha filha. Ótimo sábado literário, com direito a um lindo sarau de lindos poemas. No meio da confusão de gentes e livros, vi de longe o Benny Novak, cujos filhos também estudam lá.

Troquei olhares cúmplices com minha mulher e decidimos silenciosamente onde iríamos almoçar.

A Tappo foi aberta há uns dois anos e, no início, oscilou um pouco. Depois se consolidou, com massas de primeira e um dos mais agradáveis ambientes de São Paulo: simples, aconchegante, charmoso.

Mais barata do que o Ici, outra casa de Novak, a Tappo não é uma trattoria lá muito ortodoxa. Começa com a mezuzá na porta e prossegue com os toques peculiares de alguns pratos.

O couvert, no entanto, é 100% italiano. Pão, azeite e sal. Não precisa mais se o trio for bom. E, no caso, é. Ainda mais para quem estava de regime…

Outra das coisas boas da Tappo é a lista de vinhos da casa, sempre bons e em doses variáveis. Ia tomar sozinho: fiquei com 250 ml do pinot noir da Viña Carmen.

Depois, uma boa massa com sardinha para minha filha e o magret de pato com risoto de feijão verde para minha mulher.

O molho de tomate estava mais picante do que o paladar da Lia suporta; então ela avançou no prato da mãe. Mãe – sabe-se disso – é mãe. Se considerarmos que também roubei umas fatiazinhas do magret, podemos dizer que esposa é esposa…

Risoto como poucos de São Paulo: granudo sem ser pesado. Arroz exato. E ótimo, o pato.

Quase pedi minha massa favorita: a pasta alla Norma – que, boa, é rara em São Paulo. Mas ando numa fase suína (exceto no que tange a assuntos futebolísticos, é óbvio); por isso, fui no carré de porco com repolho roxo e maçã. À parte, couve-flor gratinada com curry.

O molho do porco é ótimo e só perde para o próprio porco, fabuloso. Para meu gosto, um dos dois melhores de São Paulo. O repolho e a maçã, ótimos.

A couve-flor é boa e o curry é presente, mas não tão forte. Só que eu dispensaria. Acho que o prato já se completa sem o anexo.

De sobremesa, o óbvio: cannoli, para lembrar minha paixão siciliana. Massa fina, crocante, sequinha. Perfeito. Prefiro o recheio mais tradicional, sem o chocolate, mas não tenho como reclamar do que vem dentro dos três tubinhos por pessoa servidos na Tappo.

Para fechar, o Nespresso bem tirado curto e uma conta justa de 220.

São Paulo tem poucos restaurantes italianos bons e não caríssimos – já falei isso aqui no blog. Mas eles são bem bons.

Comer um pato na Tappo, além da sonoridade meio trocadilhesca, é uma boa pedida. Se vier com massa, porco e cannoli, nem se fala.

Amanhã ainda tenho um almoço decente. Depois, toca voltar para a salada…

Tappo Trattoria

Rua da Consolação, 2967, Cerqueira César, SP

tel. 11  3063 4864

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Tappo