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SPRW: Antiquarius

03/09/2009

 

O Antiquarius é um dos restaurantes de clientela mais homogênea em São Paulo. Homogênea na faixa etária, na posição social, no estilo e até no vestuário. No almoço ou no jantar, o panorama se repete quase desde a fundação.

Por isso, o mais interessante da visita à casa nesta SPRW foi ver a incrível variação do público.

Enquanto esperávamos, ouvimos dois casais jovens conversarem sobre a formalidade do serviço. Temiam não saber como se comportar.

Numa mesa atrás de nós, quatro moças bebiam muito (muito!), falavam alto e uma delas, meio trôpega, chegou a quebrar uma taça. Uma hora ela se levantou, passou ao lado do garçom e sussurrou-lhe que gostaria de mais um pouco de vinho. Repreendida pela amiga, reagiu vigorosamente, ameaçando revelar como esta era “de verdade”.

À minha esquerda, três moços de camiseta, todos no início dos trinta, comiam os mesmos pratos e falavam de futebol, num ritmo de informalidade que contrastava com o ar sisudo do lugar.

À direita, quatro garotos – bandas de rock na camiseta larga e menos de vinte anos – discutiam e riam em meio a uma quantidade imensa de latas de Coca-Cola e Guaraná.

Minha mulher e eu almoçamos ouvindo vozes e notando personagens que, provavelmente, jamais cogitaram ir àquele restaurante e estavam aproveitando os preços baixos da RW.

No ambiente tradicional, soturno e carregado do Antiquarius, havia vida – porque vida é variação, é diferenciação. Pessoas de verdade, daquelas que encontramos na rua. Daquelas para quem uma visita a um restaurante famoso é evento para ser lembrado por muito tempo. Gente de todos os estilos, roupas e idades.

Entendemos, naquele instante, o significado de uma Restaurante Week. Descobrimos também como existe gente disposta a freqüentar restaurantes, bastando, para isso, que os preços sejam acessíveis.

Este, o lado feliz de nosso almoço no Antiquarius.

Nota ao leitor

Havia duas possibilidades para comentar nossa visita: mostrar o lado feliz por meio de uma perspectiva, digamos, etnográfica ou falar da refeição em si. Preferi a primeira.

Se tivesse optado pela segunda, reclamaria de algumas coisas:

– da rispidez da encarregada da reserva;

– do desrespeito à reserva (reserva-se para chegar e sentar, não para ter direito “à próxima mesa de dois que liberar” – o que aconteceria em 25 minutos);

– da estapafúrdia sugestão (que está sendo colocada em prática) de reunir grupos diferentes numa mesma mesa para “agilizar a espera” (fiquei pensando se proporiam isto à clientela regular da casa);

– da temperatura (bem fria) e da consistência (puxa-puxa) da tigelinha de bacalhau da entrada;

– do arroz quase empapado com cordeiro cozido muito além do ponto do “arroz de cordeiro”;

– da batata-palha amolecida do “bacalhau Antiquarius”, do bacalhau seco, rijo e aparentemente bem distinto do que é normalmente servido na casa;

– da taça grosseira de vidro em que serviram meu vinho (minha mulher ficou lisonjeada por receber uma de cristal);

– do garçom destacar que a taça de vinho era “dez real” (sic);

– da taça de vinho servida não ultrapassar 100 ml;

– do café mal tirado, com borda queimada;

– da ausência de açúcar para o café (ok, minha mulher e eu não adoçamos o café, mas como eles sabiam disso?);

– dos muitos cacos de vidro que ficaram no chão (lembram-se que a moça quebrou a taça?), sobre os quais a cliente da mesa ao lado teve que passar, com cuidado;

– de alguns cacos de vidro, nada pequenos, que continuaram no chão depois que o maître determinou a limpeza do lugar.

Para evitar ter que falar de tudo isso, preferi falar do público.


Antiquarius

Alameda Lorena, 1884, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  3082 3015

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Antiquarius


Tradicional

30/08/2009

 

Só fui a Portugal uma vez e faz muitos anos. Quinze, para ser mais preciso. E confesso que não foi lá essas coisas.

Lisboa estava em obras, para responder a exigências da Comunidade Européia. Eu, em meio às atividades de um congresso imenso e infértil, tentei conhecer a cidade e comer bem. Mas a cidade era hostil e os amigos, parcos. Minha namorada e eu não vivíamos os melhores dias de nossa história e… Bem, vou poupá-los de detalhes íntimos.

O fato é que as poucas lembranças boas que guardei são as de uma fortaleza moura e de um jantar num restaurante apropriadamente chamado Atira-te ao rio, às margens do Tejo, onde, em companhia de quatro amigos, demos cabo de dez garrafas de um agradável branco da José Maria da Fonseca.

Do congresso não lembro nada. Nem o que falei, muito menos o que ouvi. Mas todo mundo sabe que congressos servem para flerte e turismo, não para boa atividade intelectual. Fora isso, fiz jantares até bons, mas sempre peixes além do ponto, em molhos profusos e pesados. E doces conventuais que provocavam aquela dor atrás da orelha, sinal de que o açúcar estava batendo na aorta – junto com o amor, que naqueles dias andava de folga.

Um dia ainda voltarei a Portugal e mudarei minha impressão da boa terra. Até que isso ocorra, e a cada vez que vou a um dos restaurantes portugueses de São Paulo, fico cá a relembrar aqueles quinze dias, sem nenhuma mitologia da saudade. Porque o padrão da comida é idêntico. Às vezes, bem executado, às vezes, mal. Mas sempre comida pesada, desmedida, anacrônica. Luiz Américo de Camargo, crítico atento, já comentou a falta de renovação das casas portuguesas da cidade.

Recentemente almocei no Bela Sintra. O restaurante é bonito, bem mais agradável do que a casa que lhe deu origem. O serviço é atencioso. O couvert, dos melhores de São Paulo, tem bolinhos de bacalhau e croquetes que dão vontade de nunca parar de comer. A carta de vinhos é relativamente restrita e traz poucos rótulos abaixo de 100 reais, mas oferece opções.

E a comida? Muito boa, dentro da proposta.

Minha mulher pediu um bacalhau à Herdade do Esporão. Posta bonita, assada no azeite, coberta de alho-porró, acompanhada de legumes e verduras fritas (a cenoura estava rija, mas a rúcula frita estava ótima, ligeiramente adocicada) e batatas. Ótimo pescado, que poderia ter saído do forno bem antes – mas não no conceito que preside a casa.

Preferi o arroz de pato, farto e gostoso, mas carregado demais no bacon, cujo sabor se sobrepunha muitas vezes ao da ave.

De sobremesa, minha filha ficou com os ovos nevados, de apresentação linda e lúdica; minha mulher preferiu a salada de laranja (laranja em rodelas com calda) e eu, para levar o tradicionalismo às últimas conseqüências, pedi ovos moles. Doce, doce, doce. Doce.

Pratos principais e sobremesas bem feitos, gostosos, com ingredientes de ótima qualidade. Mas tudo pesado e antigo – para o bem e para o mal. Porque tradição é importante e não pode ser jogada no lixo, mas tampouco deve se impor e nos amarrar a um passado genérico, bruto, impermeável.

Saí do restaurante lembrando de 94, minha solitária visita a Portugal. Reconheci mais uma vez que A Bela Sintra é das melhores casas de São Paulo na sua especialidade e que cumpre integralmente o que promete, ainda que a preços altos demais.

Não sei quando voltarei. A Portugal, queria voltar para apagar as marcas ruins da primeira viagem. Para descobrir o que há de novo na gastronomia de lá, que ainda não chegou a São Paulo. Ao Bela Sintra, voltarei hora dessas.

Mas não deixa de ser um pouco desconfortável pensar que, daqui a dez dias ou quinze anos, pode estar tudo igual.

A Bela Sintra

Rua Bela Cintra, 2325, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  3891 0740

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): A Bela Sintra