O direito de comer – final

Foi Drummond, lá pelo início dos anos 30, que desabafou: Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.

Ele reagia às vanguardas da década de 20 e a seu culto furioso de tudo que é novo. O novo como um valor em si, absoluto, excludente.

Confesso que muitas vezes sinto algo parecido. Me incomoda, nas vanguardas, sobretudo a arrogância com que se apresentam. A crença orgulhosa de conhecerem uma verdade a que os demais não têm acesso. Pode ser vanguarda na política, nas artes visuais, na literatura, na gastronomia. Iconoclastas, vanguardistas refutam a tradição como se fosse bloco único, idolatram a novidade e se apresentam como anjos anunciadores do futuro.

Claro que é possível e desejável mudar. Mais: é inevitável. Ingênuo e prepotente é supor-se portador da verdade sobre o futuro e acreditar que o futuro é um e único.

Mas por que falar de vanguarda? Já faz algum tempo que a idéia desapareceu do mundo das artes ou se pulverizou em múltiplas aparições. Na verdade, a idéia de vanguarda se esfarelou juntamente com a crença de que o tempo é linear e a história, pré-definida.

Curiosamente, porém, a palavra ganhou força – faz mais de uma década – no universo da gastronomia. E chefs, críticos e críticas acharam que deviam optar entre a tradição e a inovação, como se fossem inconciliáveis. Como se fosse possível conceber uma sem a outra.

E assim se formaram times que passaram a jogar um Fla-Flu infinito, em que só perde quem quer comer bem. Restaurantes passaram a se definir e a ser definidos em termos antagônicos.

Os integrados à vanguarda rechaçaram as casas tradicionais por considerá-las ultrapassadas ou incapazes de inovar. Não perceberam que não era uma limitação? Era uma opção, lícita como qualquer outra, desde que bem executada.

Os que associaram a vanguarda ao apocalipse acreditaram que o fim dos tempos estava próximo e passaram a tremer todas as vezes em que ouviam falar, por exemplo, de espuma. Não perceberam que o novo é importante, até para que o tradicional ganhe expressividade e se atualize?

Para que tudo isso, meu Deus?, quase perguntou Drummond em outro verso.

Não sabemos todos que não há inovação que não dialogue com a tradição? Não sabemos todos que não há tradição que não possa encontrar seu lugar no presente e no futuro? Sabemos, claro. E sabem todos aqueles que, discursos a parte, praticam gastronomia honesta e de bom nível e não se deixam levar pelas águas turbulentas do confronto político.

É possível existir, numa mesma cidade, casas com projetos radicalmente diferentes? Claro que é. Possível e desejável. Então por que rejeitar o diferente, quando ele cumpre o que promete e oferece qualidade?

Nas últimas semanas, visitei mais de uma vez o Vecchio Torino. O nome já anuncia a opção gastronômica – na geografia e no tempo. Para dizer melhor: na tradição.

Alguns amigos meus nem passam perto e torcem a boca quando ouvem o nome. De outro lado, a clientela do restaurante é nitidamente de habitués e gente mais velha que eu (e olhe que sou mais velho do que a maioria das pessoas com que convivo). Mais da metade de quem o freqüenta cumprimenta o garçom pelo nome e o garçom conhece previamente seus gostos. Dificilmente um deles jantaria, digamos, no Maní.

Minha mulher e eu comemos o couvert, que está entre os melhores de São Paulo e tem anchovas fabulosas. No lugar da entrada, dividimos o famoso nhoque da casa: nove bolinhas para cada um. Todas inesquecíveis, dissolvem na boca. Enquanto isso, nos esforçamos no manejo da colher para não deixar escapar nem uma gota do molho maravilhoso de tomate fresco e queijo Fontina. Tem nhoque melhor em São Paulo? Duvido.

Como principal, minha mulher pediu o pargo, mas não havia. O garçom sugeriu um robalo, que chegou macio e delicioso, com molho de tomates frescos e alcaparras, acompanhado de brocoli. Básico e bom. Eu comi o ossobuco acompanhado de risoto. No centro do osso, uma colherzinha para pescar o tutano. Bom? Fabuloso, absurdamente macio e com sabor intenso. Ou seja, como um ossobuco tem que ser.

De sobremesa, um creme de mascarpone, que devia ser eternizado na galeria dos sabores essenciais.

Café e conta astronômica (turbinada pela caríssima carta de vinhos), com um deslize: a cobrança de 10% sobre o valor do estacionamento, serviço sobre serviço.

Tradicional, sim. Porque há dias em que a gente cansa de ser moderno e quer ser eterno. Como o Coliseu, como o bronze, como a cobertura de algumas ruas torinesas, como a comida de um restaurante que sabe que o passado não é dejeto; é matéria sobre a qual se trabalha incessantemente, para mantê-lo presente.

Tomara, hora dessas, que meus amigos vanguardistas vão lá. No mínimo, para depois me dizerem se ainda acreditam que a gastronomia tem sentido único. No máximo, para que reconheçam algo sagrado e tantas vezes banalizado: o direito de comer – bem. E sem rótulos.

[a guisa de making of da série... Quando saímos do restaurante, minha mulher brincou: “será que tem lugar mais tradicional?” Respondi: “Não sei...  Se for tão bom, ótimo.” Então, ela completou: “E se molecularizassem o ossobuco?” E começamos a imaginar a “releitura” (epa, esse conceito é dos anos 60!) do ossobuco. No dia seguinte, em casa, veio a idéia de fazer a breve novela. Se alguém ficou chateado com a brincadeira, decepcionado porque o restaurante do capítulo 1 não existe de fato, peço desculpas. Mas que foi divertido, foi]

Vecchio Torino

Rua Tavares Cabral, 119, Pinheiros, SP

Tel  11  3816 0592

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Vecchio Torino

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O direito de comer – capítulo II

[Prévia Advertência

Cuidado, leitor, cuidado. Não se afobe. Não vê que o mundo é cheio de gente apressada?  Comida apressada e leitores mais apressados. Veja: foi a pressa que fez Brutus dar ouvido ao diz-que-diz e correr à escada do Senado. No que deu? Matou o pai e ainda entrou para a história como tonto.

Quer outro exemplo? Dou. Faz poucos dias, minha tia, senhora feita, andava com fome. Faltou-lhe paciência e entrou no primeiro lugar que viu. Nem conto o que ingeriu. Esta, afinal, é uma prévia advertência, não um remate de males. Tampouco são linhas com vocação escatológica. Deixo isso para os programas infantis e me atenho ao que tenho de dizer: não tenha pressa. O apressado, diz o ditado, vira crudista.

Digo mais: não acredite naqueles que falam que de novela basta o princípio e o fim, abandonado o meio. São uns despeitados que nunca fariam o Sansão num filme épico. Admira que não estejam numa passarela. Não, leitor, todos os capítulos são precisos. De outro jeito, perde você o fio, logo depois o interesse (que é a meada), e fico cá eu sem leitor.

Portanto, não comece a ler essa breve novela (não tema: é breve) pelo capítulo 2. Retroceda um pouco ou olhe de lado. Vê essa ligação aí, que diz capitulo 1? É ela. Vá, leia e volte. E, para mostrar que terá uma recompensa, já aviso: quando voltar, lido o capítulo 1, pule a advertência prévia, que não é assim tão breve, e passe logo ao 2.]

Capítulo 2

O mundo em derredor era um ruído incomum. Alta, longa e na dúvida majestosa, uma voz se aproximava.

Eu, perdido em minha crispação, não via nada ou discernia o que me cercava. Senti, porém, as gotas frias do suor que corriam pela nuca e algum tremor nas zonas periféricas.

A voz chegou mais perto e notei que não era uma, eram duas, três vozes que me falavam.

Abri finalmente os olhos, na expectativa de encontrar o garçom e, quem sabe?, um carpaccio de stracotto alla fiorentina ou um omelete de mascarpone.

A princípio tonto, entre a doçura e o frenesi, envolvido num mar de moléculas, só podia perceber três sombras. Aos poucos elas se definiram e, no lugar do garçom, estavam minha mulher, minha filha e minha cachorrinha-salsicha – viva, crua e peluda.

Como foram parar lá? Aliás, onde eu estava?

Falavam comigo e o vozerio ganhava significado. Olhos abertos, encontro gentes, sala e computador defronte. Ultrapasso o umbral do delírio e consigo reagir, voz vacilante: “Ma dove siamo?”. Uns minutos mais e entendo o que me dizem: “Você está bem?”, “Pai, o que está acontecendo?”, “Au, au!”

A consciência, essa desejada das gentes, retorna e me vejo diante das fotos que o pessoal do Bicho postou, em segunda mão, sobre a nova temporada do El Bulli. Só que os pratos eram outros, embora as novidades, paradoxalmente, talvez fossem as mesmas. Súbito me passa uma idéia pela cabeça: como o novo fica rapidamente velho, meu Deus!

Minha mulher volta a perguntar se estou bem. Hesitante, faço um gesto positivo qualquer. Ela insiste, ainda preocupada: “Vamos mesmo jantar fora ou é melhor cancelar a reserva no Vecchio Torino?”

Ouço o nome do restaurante a que iríamos e entendo a dinâmica do delírio. Esconjuro os instantes passados, seco o resto do suor, percebo minhas mãos firmes. Desvio o olhar – ainda atônito, não mais angustiado – da tela do computador e percebo que misturei, numa catarse esdrúxula, as imagens que via com a refeição que pretendia fazer. Rompo o círculo mágico e, antes de ir para o banho, respondo, confiante e aliviado: Sim.

[Pois é, leitor, nada como um final feliz, não é? Mas a saga continua. No próximo post, a descrição da visita ao Vecchio Torino e, ao final, uma breve explicação sobre a origem da série]

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O direito de comer – capítulo I


O garçom me trouxe o i-pod e pediu que o colocasse. Com voz macia e olhar gentil, sugeriu o volume 1. Não fosse eu impor a audição aos demais sentidos.

Suave e delicado, o som começou a entrar pelos ouvidos. Vento, farfalhar de folhas, ruídos de pequenos insetos.

Quase imergia quando notei que o rapaz posicionava, à minha frente, todo um arsenal.  Quatro pequenos balões, dois vermelhos e dois amarelos, se alternavam em torno do espaço em que ficaria o prato. À direita e à esquerda, instrumentos desenvolvidos no próprio restaurante e que substituiriam, com vantagem, os talheres que alguns restaurantes, hóspedes do passado, ainda insistem em usar.

Havia um pequeno perfurador com um círculo na outra ponta, onde se via o logotipo elegante e criativo do restaurante. Havia um artefato curvo e macio, colorido, parecido a uma esponja bem seca. Havia dois pegadores (um marrom, outro violeta), como os de salada, recobertos com uma película fina e sedosa.

Meus ouvidos filtravam o som bucólico do i-pod. Meus olhos assistiam ao espetáculo de cores e formas.

Chegou o prato, branco-polar com desenho de formas irregulares negras e marrons. Sobre ele, um tutano esferificado sobre espuma de ossobuco. Quatro cubos os ladeavam, de um violeta forte.

O garçom me orientou a manejar o pegador marrom com a mão direita. Devia aprisionar as pequenas esferas, uma a uma (a suavidade da película não permitiria que elas se rompessem), e levá-las à boca. Simultaneamente, o polegar e o dedo mínimo da mão esquerda controlavam o perfurador e estouravam um dos balõezinhos amarelos.

O ar exalado pelo balão trouxe às minhas narinas o inconfundível aroma de risoto, enquanto a esfera de tutano explodia seu sabor na boca. Sincronização perfeita, que contava ainda com os mugidos, ao longe, que saíam pelos fones do i-pod.

Em seguida (e sempre seguindo as rigorosas instruções do garçom), mergulhei o artefato curvo e macio, esponjoso, na espuma de ossobuco e o levei à boca com a mesma mão direita. A esquerda perfurou o balão vermelho e o cheiro de tomates frescos da Toscana me invadiu no exato instante em que espremi a esponja e deixei a espuma escorrer pela boca.

O segundo pegador serviu-me para envolver um dos cubos violetas. Larguei-o delicadamente sobre a língua e, em segundos, me dei conta que nenhum rótulo de Gaja podia superar a sensação que aquele barolo gelificado proporcionava, sobretudo quando associado aos mugidos cada vez mais próximos e ao ruído de bovinos pastando que o i-pod oferecia.

Alternei os elementos e os balões até encerrar o prato. Olhei em volta, tecnoemocionado, e não vi o garçom. No i-pod, o som parara.

Onde ele estaria? Teria ido buscar a sobremesa? Me traria mais surpresas? A sensação de abandono fazia parte da refeição? Ativaria algum sentimento ainda estático? Aprofundaria o êxtase? O que estava acontecendo?

[Aguarde, leitor, o próximo capítulo. O que virá? Ar refrigerado de grana padano? Semifreddo di caponata? Em breve, neste mesmo blog]

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Hoje, nas bancas

Imperdível o Paladar de hoje.

Peixes & crustáceos. Com a receita do robalo recheado da Bella Masano.

Matéria e entrevista com Mark Kurlansky, um dos meus escritores favoritos de gastronomia. Autor de livros imperdíveis sobre bacalhau e história do sal.

Crítica de Luiz Américo de Camargo sobre dois italianos muito bons, que em geral são ignorados. O Marina di Vietri, que eu adoro, finalmente reconhecido. E o Café Toscano, que vou logo conhecer.

Para arrematar, texto de Luiz Horta sobre harmonizações de peixes e frutos do mar. Começa com uma empolgante sugestão de lagosta com Sauternes e encerra com o elogio à versatilidade da querida, maravilhosa, impressionante, quotidiana… manzanilla!

Leiamos, comamos e bebamos – já dizia meu avô.

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Roux

Muitas vezes temos preguiça de provar lugares novos. E com razão. De cada oito – indica a AlhoData – apenas um paga a pena.

Por isso a desconfiança se misturava com a curiosidade com que chegamos ao Roux, pertinho de casa. Chegamos, inclusive, cedo demais, e tivemos de fazer hora até o restaurante abrir.

Sentamos e recebemos o couvert. Manteiga temperada, azeite e três tipos de pão: um bolinho e uma trança adocicados e pão salgado. Bons, mas melhor foi a observação do garçom: os pães, as massas e os sorvetes são da casa. Depois ainda saberíamos que o couvert não é cobrado.

Alívios numa cidade em que trattoria que só serve massa seca ganha prêmio e onde pãozinho murcho e gelado com manteiga industrializada supostamente valem 10 ou 15 reais.

Pedimos a polenta com lagostim (uma entrada) para minha filha. Minha mulher preferiu o medalhão com molho de mostarda, batata com queijo no forno e legumes. Eu queria o ossobuco. Mas não tinha; então, fiquei com o lombo de leitão, acompanhado de torta de batata com alecrim, maçã caramelada e pimenta.

Não provamos o picci, massa que está presente em muitos itens do cardápio e que terá de esperar a próxima visita.

Os pratos, bastante fartos, vieram bem preparados e correspondiam à descrição do cardápio. Saborosos, com ingredientes de boa procedência e execução correta. Meu lombo levou o troféu de melhor prato da noite, embora o medalhão estivesse quase à sua altura.

A carta de vinho, com sobrepreço de 100-110% nos rótulos mais baratos, ofereceu um agradável cabernet sauvignon uruguaio, Cepas Nobles (72 na carta; 33 na importadora), que acompanhou bem nossos pratos.

O serviço é um pouco atrapalhado, mas educado e atencioso. O único deslize ficou por conta de não terem avisado que o prato de minha filha era apimentado – o que a levou a abandoná-lo. Na verdade, era o resultado mais fraco dentre o que provamos. Bom o ragu de lagostim, mas com polenta flocuda e fraca.

As sobremesas pedidas também não ficaram à altura dos pratos quentes. Os sorvetes, em que pese o voto de louvor por serem caseiros, eram medianos. Fraco, o de baunilha, embora feito de fava. Apenas razoável, o de chocolate branco. Bom, bom mesmo, estava o de cardamomo, que acompanhava e fez valer a pena a dacquoise de café, cujo pão de ló carecia de maciez.

Para fechar bem, café Illy, meu favorito. A conta ficou em honestos 218.

No teto, lustres bonitos sugeriam um estilo clássico atualizado. No conjunto, a decoração da casa segue a mesma linha e simboliza a comida do chef Arthur Sauer. Sem recorrer (com a graça do Altíssimo) a emulsões, esferificações e componentes sintéticos em profusão, pratica uma culinária de risco menor (mas nem por isso fácil) e bastante correta. Sabe ler e adequar receitas tradicionais, dá toques pessoais e mostra consistência. Promissor.

Ou seja, se seguirmos fielmente a proporção indicada pelo AlhoData, os próximos sete serão ruins… Tomara não.

Roux

Rua Ministro Rocha Azevedo, 1101 , Jardim Paulista, SP

Tel. 11  3062 3452

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Roux

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Piscidade

Minha mulher e eu estamos na meia-idade.

A expressão é feia e cafona, mas otimista: sugere que ainda viveremos o mesmo tanto que já vivemos. Pas mal.

Para alguns, meia-idade é a idade do réptil: você começa a enrugar e sente mais frio, principalmente nos extremos – daí ser também a idade da meia.

Para outros, é a idade do lobo ou da loba, cuja voracidade por carne jovem e tenra se acentua, às vezes no limite do ridículo.

Nós preferimos evitar a reptilização ou a lupanização. Meia dúzia de valores e alguns cuidados físicos ajudam.

No entanto, cada vez mais nos damos conta de que estamos na idade do peixe, piscidade.

Não, não melhoramos em natação, nem passamos a soltar bolhas. E tomamos o cuidado de observar se andam brotando guelras e escamas pelo corpo.

Também na nossa filha, que está na primeira idade, embora acredite estar na segunda.

Porque cada vez mais comemos peixes e outros animais marinhos.

Nessa semana mesmo, fizemos seis refeições seguidas com esses animais.

A melhor delas foi a do domingo, dia em que completamos onze anos de casados (sim, casamos tarde para os padrões brasileiros) e, para comemorar, fomos comer… bichos do mar!

Num dos melhores, talvez o melhor restaurante de pescados de São Paulo. Com uma chef muito talentosa: Bella Masano.

Amadeus.

Ele não aparece tanto na mídia quanto deveria, nem é muito lembrado quando se fazem as listas do que temos de melhor por aqui. Vez ou outra ganha um prêmio – como o da Vejinha, no ano passado. Menos, porém, do que merecia.

Primeiro, o couvert gostoso, com pães, manteiga, creme de abóbora, beterraba, trouxinha de polvo e pastel de camarão.

Minha filha enlouqueceu com o pastel e pediu mais um ao garçom. Gentil, ele trouxe outros três; ela, sem titubear, deu cabo deles. Depois ainda enfrentou os dois saborosíssimos filés de truta com palmito pupunha grelhado e abobrinha em cubos e crisps.

Minha mulher e eu optamos pela “sinfonia de camarões”, uma degustação do crustáceo que quase provoca uma overdose das boas: camarão grande com fundo de alcachofra (puxada demais no limão, ficou com o sabor encoberto); o incomparável cuscus de camarão de lá (do qual andava com uma saudade brutal), com folhas verdes; sorvete de tangerina como tira-gosto; camarão rosa na grelha com shitake, acompanhado de azeite de alho com raspas crocantes de alho; camarão gratinado com ervilhas (frescas) e palmito; camarão grande com molho de tomate, azeitonas pretas e manjericão, acompanhado de arroz de azeitonas pretas.

O sabor do bicho era, em todos os pratos, intenso: camarão de primeira, com preparo cuidadoso e deixado no ponto de cocção exato, sem enrijecimento ou perda daquela maciez e textura de semi-cru. Meu preferido foi o grelhado com shitake e alho. Dispensaria o molho e acompanhamento do último prato (bem feitos e saborosos; o problema é comigo: não sou fã de azeitona preta).

O Muscadet de Sèvre et Maine sur Lie funcionou bem com os pratos e tinha preço razoável em meio à caríssima carta, que me impediu de pedir o Riesling em que fui pensando. Talvez valha mais a pena recorrer à opção de vinho em taça, extraído das máquinas.

A sobremesa de nossa degustação era um straciatelli (com frutas secas, castanha, mel e sorvete sem-graça de creme) crocante e com doçura na medida. Minha filha preferiu o ótimo prato de morangos flambados com nêspera e sorvete.

Para fechar, Nespresso acompanhado de uvas cobertas de chocolate, telha e chantilly. Tudo muito bom.

O serviço, de resto, deve ser dos melhores de São Paulo: desde a gentileza de quem atende o telefone para a reserva até o cuidado de quem orienta o cliente ao estacionamento (gratuito, diga-se de passagem) e a atenção curiosa de colocarem um saquinho de lixo no carro. Sem contar que, pela primeira vez na minha vida, ouvi um garçom oferecer a nota paulista.

Chegamos em casa e corri para o espelho. Será que, além de guelras, escamas, não estavam surgindo em meu rosto longos bigodes e olhos protuberantes?

Será que uma casca rosada se formava ao redor do meu corpo, decretando minha definitiva metamorfose em animal marinho?

Não notei nada de diferente. Até agora, continuo humano, demasiadamente humano. Meia-idade, humanidade integral. Mesmo assim, preferi escrever e publicar o comentário logo. Para dizer como é bom, como é muito bom, como é ótimo, o Amadeus.

A única coisa que não entendo é por que estou sentindo uma vontade imensa de imergir.

Amadeus

Rua Haddock Lobo, 807, Cerqueira César, SP

Tel. (11) 3061 2859

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Amadeus

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Anita

Foi um amigo que recomendou que eu voltasse ao Anita. Ele me disse que a instabilidade do começo já tinha passado e que a casa achara seu rumo.

Apesar das mal sucedidas visitas anteriores, fui.

Cheguei sem reserva para um almoço no meio da semana e encontrei o salão com meia ocupação. Nem lotado, nem às moscas. Bom sinal.

Pedi, para começar, uma morcilla. Boa e saborosa, bastante adocicada. Quase valia por uma sobremesa, mas funcionou muito bem para abrir o apetite (isso é forma de dizer, leitor: meu apetite está sempre aberto).

Como principal, um prato bem montado de frango com pesto, legumes e trouxinha de cabra. O pesto, corretamente separado num potinho, para que o dosássemos, estava bem saboroso e com consistência correta. No papel de legume, mini-cenouras muito bonitinhas, mas com sabor talvez suave demais.

O frango chegou em dois belos pedaços de peito, no ponto exato, macios e bem, bem úmidos. O único problema era o sabor, quase inexistente. Não se fazem mais frangos como antigamente: todos sabemos disso. Cada vez mais me convenço de que só quem tem um fornecedor 100% confiável é que devia correr o risco de servir frango.

O forte do prato estava na trouxinha, de massa fina e crocante, recheada de queijo macio e bastante saboroso de cabra. Um pequeno deslize, originado provavelmente na sincronização, apareceu na parte superior da trouxinha, que veio seca e torrada – na aparência e no sabor.

A sobremesa decepcionou. Escolhi o que parecia envolver mais conceito: uvas assadas no azeite de baunilha, com creme e telha de alecrim. Feitas com antecedência (o que foi fácil de notar: chegaram à mesa em menos de um minuto após o pedido), as uvas traziam o sabor desagradável de geladeira e o creme já ultrapassara sua consistência adequada. Salvou-se a bem pensada e gostosa telha de alecrim. Mas nem de longe valia os exagerados 14 reais.

No final, uma conta honesta de 59 reais (só água), por um almoço agradável, com serviço atencioso e simpático.

A má impressão que eu tinha da casa de fato se desfez. Mas Anita ainda não deixa saudades. Pequenos problemas aqui e ali impedem a decolagem.

A boa notícia é que o pior já passou. Meu amigo estava certo – aliás, como sempre: os maus dias do início foram felizmente deixados para trás. Mais alguns saltos e honrará uma rua que já teve um ótimo restaurante e tem outro.

Anita

Rua Mato Grosso, 154, Higienópolis, SP

tel. (11) 2628 3584

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Anita

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O convite do Jun

Não me escondo, nem me revelo. Gosto desse relativo anonimato.

De um ano e pouco para cá, quando comecei a levar mais a sério essa história de blog de comidas, nunca mais reservei restaurante em meu nome.

Ou melhor, reservei, sim. Uma vez, ganancioso, para aproveitar um desconto de aniversário. E, outra vez, fizeram uma reserva em meu nome. Só soube depois e lamentei.

Fora isso, gosto – repito – desse relativo anonimato. Relativo porque soube que duas ou três vezes me associaram ao blog. Fazer o quê? Não fico bem com aquelas perucas da Ruth Reichl.

E gosto porque assim não corro o risco de ter algum privilégio – prática anti-republicana que os brasileiros adoram.

Sem contar que sou tímido e fico constrangido com freqüência inadequada para minha idade.

Por isso levei um susto quando tocou o telefone aqui em casa e me chamaram pelo nome. Depois soube como descobriram, e não houve nenhuma pirotecnia.

Era do restaurante Jun Sakamoto, que pedia desculpas pelo dia em que fomos e ele, não (vide Lost in Lisbon). E nos convidava para jantar.

Minha mulher e eu confabulamos, analisamos se devíamos ou não. Aceitamos.

Mas que fique claro desde aqui, leitor, que dessa vez não houve anonimato e pode ter havido algum privilégio. Só que, se houve, não percebi. Os demais clientes do balcão foram servidos identicamente a nós.

No dia certo, descemos do táxi e atravessamos a rua, meio ressabiados. A porta nos foi aberta e minha mulher e eu fomos tratados pelo nome. Mais estranheza.

Sentamos no balcão e, enquanto esperávamos a entrada do Jun, nos foi servido um meca com creme de mandioquinha e aspargos. Uma delícia, que combinou com o Veuve Cliquot que havíamos escolhido para acompanhar os sushis.

Então Jun entrou, cumprimentou os sete clientes que estavam à sua frente e empunhou uma das facas. Começou a fatiar os animais que estavam na vitrine, na ordem exata em que estavam posicionados. E eram maravilhosos.

A seqüência foi a seguinte: atum, toro, salmão (com limão siciliano), olho de boi, meca, robalo (com shissô), linguado (com limão japonês), pargo (com shissô), arenque (também com shissô), cavalinha marinada, lula (daquela arredondada, mais espessa, com sal negro do Havaí e limão), vieiras (com sal trufado), enguia (com tarê), camarõezinhos (com limão e sal), uni (com limão e sal) e ovas de salmão.

Ufa…

Movimentos obviamente exatos. Apresentação impecável dos dezesseis sushis. Coreografia precisa com o auxiliar que fazia a finalização. Poucas palavras. Apenas um esclarecimento sobre a lula e outro sobre o quadro com malaquitas na parede.

Sabores intensos, maravilhosos, às vezes incomparáveis. Meus favoritos foram o arenque, a cavalinha e a lula. Mas o que dizer do uni ou do toro, que se desfez na boca? E dos demais? Peixe, afinal, é peixe e, quando é bom, vira um sonho.

Jun saiu de cena e nos serviram ainda um tartare de atum com foie e ovas (muito bom, mas, infelizmente, não senti o foie) e um par de ostras (carnudas e com sapore di mare, como as boas ostras sabem ser e ter) num caldo de saquê. Para minha sorte, minha mulher não gosta de ostra e só comeu uma; logo, fiquei com três. Mas comeria mais três dúzias com tranqüilidade.

Para fechar, o sorvete de maçã verde com gelatina de saquê, que é das melhores sobremesas de São Paulo – inclusive pela simplicidade.

Na hora da conta, novo pedido de desculpas e a oferta do jantar. Pagamos apenas o champagne e o serviço. Correto, profissional, gentil.

Saímos para a rua certos de que às vezes podemos abrir do anonimato. Desde que isso fique claro para quem ler o blog.

E que Jun continua a ser o melhor sushiman de São Paulo. De longe.

Jun Sakamoto

Rua Lisboa, 55, Pinheiros, SP
tel.  11  3083 0510

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Jun Sakamoto

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Pura teimosia

Só para provar que sou um sujeito teimoso, resolvi tomar café da manhã na Deli Paris, na segunda-feira passada.

Mesmo depois de um sem-número de insucessos.

E adivinhe? Fora o clássico atendimento péssimo, iniciado por um “O que qué?”, recebi um croissant massudo e parcialmente cru no interior. E a habitual enxurrada de canela no cappuccino.

Será que foi a última vez ou reincidirei no erro?

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Pato & Caipirinha

Não sei se é falha genética ou de caráter. O fato é que não gosto de cachaça.

Nem do cheiro, que me parece excessivo, invasivo. Que parece que vai me imergir num mar de doçura meio pegajosa.

Por isso, fujo de caipirinhas e similares como o diabo da cruz. E não adianta minha irmã e meu cunhado insistirem que boa cachaça é boa e que caipirinha bem feita, também.

Só que tudo – até minha ojeriza à cachaça – tem um “até que”.

Até que… eu comentasse, de passagem, com minha irmã, que as caipirinhas do Sinhá eram elogiadas. Daí para frente, ela queria, de qualquer jeito, ir lá. Inclusive porque sabia que estava fora de cogitação irmos a um bar para tomar caipirinha. Num restaurante, pelo menos (eu pensava e ela entendia), dava para encobrir logo o gosto da cachaça.

Demorou algumas semanas para que conciliássemos nossos horários de todos. Fomos, finalmente, no domingo passado.

A idéia, claro, era começar pela caipirinha. Ainda oscilei, aventei pedir com vodka, mas sucumbi. Propus à minha mulher que dividíssemos e pedi uma caipirinha de lima da Pérsia. Com cachaça.

A garçonete me perguntou com qual cachaça queria. Não tinha a menor idéia. Me vieram à mente alguns produtores de vinho e algumas marcas de whisky. De cachaça, bulhufas. Meu cunhado veio em meu socorro e foi categórico: Selecta. Ok, Selecta.

Minha irmã preferiu a de tangerina com pimenta rosa.

E, les voilà, chegaram os copos altos, bonitos e coloridos, com quantidade imensa de frutas. Menos mal. Em último caso, secaria cuidadosamente as fatias de lima e chuparia.

A surpresa é que estava boa, muito boa. A cachaça, suave, teve a boa idéia de apagar aos poucos seu aroma e manter sua presença discreta no paladar. A da minha irmã, ainda melhor, combinava a fruta com a especiaria e contrastava ambas com o sabor da cachaça. Claro que ela não ficou numa só.

Eu fiquei. Mas gostei. Claro que devo demorar para repetir (literalmente) a dose. Afinal, por melhor que possa ser uma caipirinha, continuo preferindo um vinho ou, ocasionalmente, whisky. Mas é uma opção. E considerá-la já é um grande passo – ainda mais para alguém que (por falha genética, de caráter, ambas, ou seja o que for) prefere uma certa distância daquele cheiro.

As surpresas do almoço, porém, não haviam acabado.

O bufê estava muito bom, como sempre, e o serviço muito atencioso. É difícil – exceto pela Tenda do Nilo – imaginar uma melhor refeição em São Paulo a esse preço (30 por pessoa; minha filha: 15). Queria o Sinhá perto da minha casa. Queria não ter que enfrentar, ao ir lá, a angústia de estar nas imediações da Rebouças 2659 (e não vou, claro, explicar porque esse lugar me angustia: exposição da privacidade tem limite).

Não, não foi a qualidade que me surpreendeu, nem foram os chips de abobrinha, que minha filha devora, nem os legumes crocantes, no ponto, ou o escondidinho e os grelhados bem feitos. Nem o ovo pochê, a costela macia ou o pãozinho de tapioca com chutney de abacaxi.

Foi o arroz com pato. E toca de novo a lidar com a memória, agora das inúmeras vezes em que comi o fabuloso arroz com pato que meu pai preparava – talvez a origem mais explícita de minha adoração definitiva por carne de pato.

O do Sinhá não tinha o gengibre, nem as raspas de casca de laranja que meu pai usava na receita dele, mas vinha úmido na dose certa, com o sabor do pato prevalecendo e dialogando com o restante. Muito bom.

Depois, pelo Twitter, Julio Bernardo, o chef, esclareceu que a receita do arroz de pato é da Talitha Barros, cuja comida só experimentei uma vez, no Boa Bistrô, há tempos. Bom saber.

Num almoço só, descobri que caipirinha é bebível e comi um arroz de pato muito bom. Até dispensaria o tiramisù de rapadura. Claro que não dispensei.

Na saída, o álcool da cachaça potencializava uma certa turbulência na memória – arroz de pato, avenida Rebouças. Mas eu estava feliz.

Tudo certo, afinal, na prova dos nove do sorriso pós-refeição.

Sinhá

Rua Antonio Bicudo, 25, Pinheiros, São Paulo

Tel.  11  3081 4627

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Sinhá

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