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No País Basco

28/02/2009

 

O País Basco é aqui pertinho de casa: a quatro quarteirões do meu prédio.

E se localiza num espaço que já abrigou outros restaurantes. O interessante, mas mal resolvido, Cadalunga, de comida lombarda, e o brevíssimo Rafaelle, que nem tive tempo de conhecer.

Os bascos (que não pertencem, ufa!, ao ETA) tomaram o lugar e lá abriram o Bilbao.

É uma casa gostosa num quarteirão tranqüilo da José Maria Lisboa, com uma área ao ar livre, coberta por uma parreira. Muito agradável. Só não precisavam deixar uma escada e uma vassoura por ali, quase do lado das mesas.

O menu valoriza bastante os peixes e oferece, também, algumas carnes vermelhas – por exemplo, um curioso coelho defumado. Traz, ainda, uma lista de pintxos, versão basca das célebres tapas.

Provamos dois pintxos: o de bacalhau e o de polvo, que vieram no couvert. Ambos bem preparados, com ingredientes frescos e de boa qualidade (os ingredientes, me disse o garçom, são daqui mesmo, e não do País Basco), embora o de polvo estivesse um pouco mais salgado do que deveria.

Nos pratos principais, optamos por peixes. Um bacalhau na brasa com molho de limão e um lombo de tamboril negro. Todos os peixes recebem acompanhamento de arroz puxado no azeite ou legumes cozidos com azeite. Os peixes são finalizados com alho e (adivinhe!) azeite.

O tamboril tinha textura agradável, mas sabor inexpressivo. O molho basco se impunha e o peixe (que devia ser mais forte) não se manifestava. Uma pena. Ainda mais porque tamboril é um dos meus peixes preferidos.

Estava melhor, porém, do que o bacalhau, claramente mal executado. O interior estava rijo e excessivamente fibroso. A brasa não chegou até o centro da posta e deixou seu cozimento irregular e a textura, desagradável.

Os legumes também careciam de gosto – confirmando que a falta de sabor é um problema geral da cozinha.

Pedimos uma “desgustação” (sic) de sobremesas: três, à escolha do cliente. Queríamos a torta de trufa e chocolate branco, mas ela “estava sendo preparada”; logo, ainda inacessível. Escolhemos, então, um canudo de queijo de ovelha, o “molho de chocolate com banana assada” e a torrija de laranja e queijo azul.

A torrija – um equivalente da rabanada – era interessante, embora a laranja (também ela) não se manifestasse. O canudo de queijo de ovelha tinha massa folhada muito boa, mas o queijo exalava sabor amanteigado forte e comprometia o conjunto. O molho de chocolate era agradável e a banana assada… Epa, cadê a banana? Não veio! Comentamos com o garçom, que se surpreendeu e pediu desculpas pelo erro.

Fazer o quê? O chef esqueceu, ora. Mas eu não podia me esquecer de pagar os 26 reais pelo prato incompleto.

Tomamos o café e pedimos a conta: 209, sem serviço. Incluindo um Rioja básico, Razón (56 reais; sobrepreço de aproximadamente 80%, padrão geral da carta). O garçom nos explicou que o serviço era “grátis”. Como achamos que serviço nunca deve ser grátis, pagamos 230.

Caro.

Caro porque os pratos giram entre 50, 60. O tamboril é pouco menos de 50; o bacalhau, pouco mais de 60. Por quê?

As sobremesas ultrapassam, na maioria, os 20 reais – o que é um absurdo para uma casa que, pelo visto, não tem chef pâtissier. Se tivesse, a torta de trufa teria sido preparada a tempo de servi-la no jantar e ele não teria esquecido da banana e servido apenas a calda.

Caro porque falta conceito e execução na cozinha do Bilbao. A repetição dos acompanhamentos revela a falta de conceito. O sabor inexpressivo dos pescados demonstra os problemas de execução.

Caro porque, pelo mesmo preço, é possível comer bem melhor em São Paulo.

Caro porque vivemos uma terrível padronização de preços dos restaurantes na faixa dos 150-250 por casal, que nem sempre se justificam na qualidade da comida servida.

Pode ser que o Bilbao melhore? Pode, mas os quase cinco meses de vida da casa já deveriam ter trazido alguma solidez para a cozinha.

Voltaremos lá? Dificilmente.

A única coisa que merece destaque é o serviço. O garçom soube explicar todos os pratos, foi atencioso sem ser pegajoso, abriu o vinho com correção e até perguntou quem o provaria – algo que o machismo predominante na maioria das casas nem lembra de fazer.

Faltou, porém, o essencial de um restaurante: comida memorável, prazerosa. Uma pena.

Bilbao

Rua José Maria Lisboa, 1065, Jardim Paulista, SP

tel. 11 2592 3480

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Bilbao

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