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Perfeito

07/05/2009

 

A Gael Green diz que é o melhor restaurante de Nova York. O Anthony Bourdain, também.

As quatro estrelas dadas pelo New York Times confirmam – uma delas, nos tempos da Ruth Reichl. Aliás, é o único restaurante que recebeu as quatro estrelas três vezes.

Le Bernardin, claro.

Nos despedimos da cidade, em janeiro, com um almoço lá.

O Bernardin é dedicado aos frutos do mar e o chef, Eric Ripert, um dos mais respeitados da cidade.

Salão bonito, discreto, florido e elegante. Louça, cristais e talheres excelentes.

Uns três sommeliers circulando entre as mesas. Atendimento de dois garçons por mesa: atentos e precisos, sem o desagradável estilo pegajoso e bajulador de alguns restaurantes chiques de São Paulo.

A casa propõe preço fechados por pessoa, com direito a escolher, dentre as opções do cardápio, uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. No almoço, 68 dólares; no jantar, 109. Algumas das escolhas implicam acréscimos (por exemplo, se você quiser acompanhamento de caviar iraniano…).

Compare com os preços dos melhores restaurantes de São Paulo e tire suas conclusões.

O couvert trouxe manteiga, variedade de pães (da casa, obviamente) e torradas e um tartare de salmão sem equivalente. Pensei até em perguntar se preparariam um container para que eu trouxesse para o Brasil.

A entrada que minha filha escolheu tinha salmão orgânico defumado, agrião, aipo e maçã, acompanhados por uma emulsão de jalapeño, que atenuava o picante sem eliminá-lo. Ótima.

Minha mulher pediu um atum sobre torrada com um filete de foie. O peixe e o fígado, diversamente gordos e de sabor intenso, combinavam maravilhosamente.

Mas – modéstia de lado – a melhor entrada foi a minha: um conjunto de seis ostras, com variação de tempero e de picante. Cada uma delas era um caso de polícia de tão fresca e gostosa. Tem algum adjetivo acima de maravilhoso? Se lembrarem, por favor, encaixem nesse espaço __________.

E os pratos principais?

Minha filha pediu a arraia com noodle e cogumelos secos, no molho de broto de bambu. Muito gostosa, mas picante demais para um paladar de nove anos: o prato ficou com minha mulher.

E ela então cedeu seu robalo com lagostim (ligeiramente assado), confit de tomate, consommé de bouillabaisse e emulsão (suave) de curry. Você consegue imaginar, leitor, o que é esse prato? Digo-lhe apenas que cedê-lo à filha comprova uma velha máxima: mãe é mãe.

Eu fiquei com o tamboril na panela, com tabule de cuscus israelense, alho negro e molho de lima da Pérsia. O prato valeria a pena só pelo conjunto de aromas que soltava. A lima, o peixe e o alho levam os aromas da acidez da fruta (sim, sei que acidez é sabor, não aroma, mas você sabe do que estou falando) ao discreto cheiro de cogumelo provocado pelo alho e à maresia do peixe.

Meu Deus… Na boca, o alho adoça o paladar e dialoga com a acidez (agora, sim) da lima. O preparo na panela concentra mais o sabor suave do tamboril, cuja textura firme faz subir o tom e deixa a síntese de sabores para as bolinhas de cuscus. Well…

E ainda tinha a sobremesa. Sorvete simples de baunilha para Lia. Gi preferiu a pannacotta à base de iogurte, com sorbet de romã, sorvete de limão, hortelã, raspas de laranja e bolinhas de romã. Dá certo. Muito certo. Minha sobremesa também parecia, pelo cardápio, um pouco rocambolesca. Mas era maravilhosa: tortinha de chocolate amargo, amendoim e caramelo, acompanhada de sorbet de limão com crocante de amendoim e purê de limão-meyer.

Nada a dizer, fora o fato de que tínhamos acabado de fazer uma das melhores refeições da nossa vida.

Ripert circulou pelo salão, trocou meia-dúzia de palavras com cada comensal, confirmou sua boa fama.

Tomamos um expresso e saímos à rua deliciados, após pagar a conta de 238 dólares (só água e, claro, suco de cranberry para Lia), acrescidos da habitual gorjetinha novaiorquina: mais 42.

Caro, é claro. Porém não para os padrões da cidade e, a bem da verdade, nem para os paulistanos, se considerarmos a qualidade de tudo: dos ingredientes ao serviço, da louça ao conceito, da execução ao respeito absoluto ao cliente.

Não tenho gabarito para dizer, nem conhecimento suficiente (há centenas de restaurantes novaiorquinos a que obviamente nunca fui e, entre eles, o Per Se e o Masa), mas acho que Gael Greene, Anthony Bourdain e Ruth Reichl têm razão.

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Na boca da Loba

12/03/2009

 

Mario Batalli tem um monte de restaurantes, espalhados por meia-dúzia de cidades.

Em Nova York, o mais famosos deles é o Babbo, caro e famoso, que chegou a ganhar quatro estrelas da Ruth Reichl em 98.

Mas não fomos lá. Fomos jantar no Lupa, a “trattoria dos sonhos” – segundo Gael Greene. Comida romana tradicional, bem executada.

Casa relativamente pequena, com decoração que evoca, de maneira elegante, a Itália. Não, nada de camisa pendurada no teto ou cacho de garrafas vazias. Nem latão em profusão.

O menu da Restaurant Week só funcionava para o almoço; então, recorremos ao cardápio regular.

O primeiro garçom era um tanto blasé. Felizmente, se mandou e foi substituído por uma moça atenciosa e simpática. Garçom blasé – espécie que prolifera aqui em São Paulo – é dose.

Não pedimos entrada – para desespero de minha filha, que viu chegar uma porção linda de prosciutto crudo à mesa ao lado, justamente quando nossos pratos estavam para vir.

Ela esticou os olhos, quase os braços. Por pouco não caiu da cadeira e escorregou na saliva farta que lhe escorria pelos cantos da boca.

Minha mulher comeu uma perca com lentilhas e espinafre. A potência da cozinha italiana com a precisão da execução.

Preferi uma rabada com polenta, salsão e passas. O salsão, crocante. A polenta, com queijo, era leve e saborosa. A carne conciliava delicadeza com consistência e sabor intenso. Das melhores.

Minha filha, após a decepção do prosciutto não-pedido, teve que se conformar com o spaghetti no molho de tomate sugerido pela garçonete. Se conformou?

Não. O molho era um pouco picante e ela não tolerou.

Trocamos de prato. Ela comeu até o fim a rabada, sob o olhar espantado da garçonete, que a parabenizou pelo paladar.

Obrigado. Só que eu fiquei com o spaghetti… Bom? Claro. Saboroso e obviamente no ponto exato. Mas não era um oxtail…  O que não se faz por uma filha?

O bom sorvete de tangerina da sobremesa perdia apenas para os cantuccini com vinsanto. Excelentes.

Para acompanhar a refeição um Salice Salentino (um toque sulista sempre cai bem) típico e intenso.

Conta? 150 dólares, incluído o suco de cranberry , as taxas e a gorjetinha de 20%.

O jantar valeu cada um deles.

Pena, apenas, que não nos deixaram levar o estoque restante de vinsanto, cantuccini e oxtail… E uma porção tamanho orca do prosciutto que nem provamos, mas que devia estar ótimo.

Lupa

http://www.luparestaurant.com/restaurant.html

Ao norte do norte

02/03/2009

 

Tem restaurante que vale por um prato. Pode até ter mais, mas aquele já justifica a visita e a conta. É o caso do quarteto de arenques do Aquavit.

O Aquavit serve comida escandinava preparada sob o comando de um chef etíope, Marcus Samuelsson.

O restaurante já ganhou três estrelas do New York Times duas vezes. Samuelsson – filho adotivo de um casal sueco – foi eleito o melhor chef da cidade em 2003.

A julgar pelo almoço que fizemos lá, é pouco.

O lugar é bonito, elegante e discreto. O serviço, simpático e atencioso – um pouco cool demais.

A comida? Leia e salive.

Bem, aproveitamos a New York Restaurante Week e o menu de US$ 24,07.

Dentre as entradas, minha mulher preferiu a velutata de cenoura com uma massinha adocicada e um pouquinho de… aquavit, o destilado escandinavo.

Minha filha e eu pedimos o Herring Sampler. Tudo que comi daí para frente foi ótimo, mas nada chegou aos pés desses quatro tipos de arenques crus ou defumados, servidos sem nada que desviasse a atenção da incrível variação de sabores.

Uns eram macios, quase derretiam na boca; outros eram fibrosos e resistiam deliciosamente às dentadas. Uns tinham sabor delicado, ligeiramente adocicado; outros eram amargos ou fortemente salgados. Uns pareciam ter acabado de sair da água; outros davam a impressão de que a fumaça os alterara drasticamente. Uns passavam rapidamente pela boca; outros persistiam. Tudo isso reunido, combinado. Separados no prato, reunidos no paladar. Ai.

Provei um pedacinho de cada e, voltando à infância, tentei deixar o melhor para o final. Não consegui. Todos tinham que ficar para o final. A mistura de todos tinha que ficar para o final.

É, ingrediente é tudo. Quando fabulosamente combinado, é mais ainda. E se for simples, nem se fala.

Mas tive que acabar de comer porque o prato principal nos esperava.

De novo, minha filha e eu coincidimos: salmão defumado com legumes, beterraba e cebolinha. Dois tipos de beterraba: a clássica vermelha e a branca (que os americanos chamam de amarela). Molho de mostarda e laranja. Não surpreendeu como a entrada, mas era um salmão e tanto.

Minha mulher preferiu as almôndegas suecas, acompanhadas de lingonberries (berry vermelhinha, que está em quase todo molho escandinavo e normalmente acompanha carne de caça), purê de batata e pepino em conserva. Mais escandinavo do que isso, só smorgasbord (que o casal da mesa do lado comeu; nós apenas salivamos). E bom para burro – digo, para alce.

Acabou? Não! Faltava a sobremesa.

E nós três mandamos brasa num Arctic Circle. O nome, meio óbvio, encobre algo absolutamente fabuloso: um gelado de queijo de cabra acompanhado de sorvete de blueberry e calda de maracujá. Não vou nem descrever para não atiçar ainda mais a sua inveja, leitor. Saiba apenas que quase desmaiamos.

Para acompanhar tudo isso, minha filha tomou (adivinhe!) um suco de cranberry. Minha mulher e eu aproveitamos uma promoção extra do restaurante: um espumante da Borgonha pelos mesmos 24,07 do menu.

Conta total, incluindo os expressos: 150 dólares. Isso se chama seriedade.

Agora, me diga: você conhece algum lugar em São Paulo onde três pessoas comam tanto e tão bem, com ingredientes dessa ordem e espumante francês de boa qualidade por esse preço? Eu não.

E olhe, se tivessem me servido o quarteto de arenques e apresentado em seguida a conta, sem mais delongas, eu já teria ido embora satisfeito…


Aquavit

http://www.aquavit.org/flash.html



Ele, o pato

26/02/2009

 

Sempre que vou à Nova York janto pelo menos uma vez no Pongsri.

Por quê? Por muitas razões.

Primeiro (mas não mais importante): a proximidade. Ele fica na mesma rua e a menos de cem metros do hotel em que me hospedo.

Segundo (e bem mais importante): a memória. Na minha primeira visita a Nova York, em 93, entrei lá por acaso e comi uma refeição maravilhosa. Ganhou pontos e, sobretudo, afeto.

Terceiro (e decisivo): a comida. Continua ótima.

Nesses dezesseis anos, muita coisa mudou. O salão está no mesmo endereço, mas ao rés do chão; não fica mais numa sobreloja meio sombria e enevoada. Não ficou chique, mas está mais arrumado e cuidado.

As garçonetes também a se vestir melhor, embora continuem olhando torto quando você chega. É fácil de explicar. O lugar é freqüentado basicamente por orientais. Quando entra um ocidental, elas devem achar que é bom se precaver…

E elas se tornam gradativamente mais simpáticas a medida que a refeição avança e notam que você come bem e parece satisfeito. No final da refeição, até sorriem.

Dessa vez começamos o jantar com rolinhos primavera. Pode parecer falta de imaginação, mas foi um pedido de minha filha – junto com o indefectível suco de cranberry.

Os rolinhos estavam um pouquinho mais engordurados do que deveriam, mas muito saborosos. Só vegetais, temperados na medida –picante ma non troppo – e com molho de laranja, mel e alho. Uma delícia.

E seguimos com patos. Ah, os patos do Pongsri… Assados, fatiados e depois fritos.

Crocantes como devem ser os patos servidos no céu – ou será que são os do inferno?

Um deles mais simples, acompanhado de brócoli. O outro, com echalotas e tamarindo. Este é o que não pode ser dispensado jamais. Este é o que dá vontade de pedir mais cinco e levar para casa. É deste o sabor que vem à boca quando vejo a placa do Pongsri. Este.

Tudo acompanhado de Singha, cerveja tailandesa delicada e saborosa.

Antes de caminhar os quase cem metros de volta para o hotel, uma honestíssima conta de 77 dólares.

Sabe de uma coisa? Quando voltar a Nova York, vou jantar de novo no Pongsri!

Pongsri

http://www.pongsri.com/

Tiros na Nona Avenida

20/02/2009

 

Tem restaurante que vale pela sensação que provoca, e não pela comida.

Foi assim com a Trattoria Casa di Isacco.

Voltávamos de um passeio cinco cocares: completo e absoluto programa de índio.

Exaustos e com fome, caminhando pelo frio e pela Nona Avenida, olhávamos aqui e ali, em busca de um lugar para comer.

O vento começou a bater mais forte e não resistimos: entramos no primeiro lugar que pareceu razoável. Era a tal Casa di Isacco, em plena Hell’s Kitchen – lugar que já foi barra pesada e que manteve o nome, mas hoje é tranqüilo.

O nome da trattoria nos fazia pensar em comida italiana e judaica. Nem tanto. Prevalecia a entonação espanhola – sabe lá Deus por quê. Sangria e jamón por todo lado. Jamón, não prosciutto.

Mas o melhor era o ambiente – esse, sim, bem italiano. Italiano de filme americano. Parecia o restaurante em que Michael Corleone matou os que tramaram o atentado contra Don Vito.

Ou um pouco mais lúgubre. Tudo bem escuro. O garçom, simpático, mas com uma cara meio suspeita. O salão, absolutamente vazio.

Certo, eram cinco e pouco da tarde e recém começara o serviço noturno. Mas que dava a impressão de que, de repente, começaria um tiroteio, dava.

Na dúvida, fui ao banheiro para ver se não tinha uma arma escondida atrás da caixa de descarga.

Voltei à mesa, enquanto aguardávamos os pedidos: massas (afinal, estávamos numa trattoria), uma recheada de lagosta, outra de ricota.

E eis que a porta da frente se abriu. Por um instante paramos e o tempo pareceu se interromper.  Entrou um casal. Ele, com um jeito para lá de suspeito. Ela, não: seu estilo era facilmente identificável, e talvez até a profissão.

Íntimos da casa, sentaram-se ao fundo. Depois descobriríamos que ele era o dono do lugar, e gentil. E aprenderíamos que não se deve julgar alguém pela aparência.

De qualquer forma, almoçamos com a expectativa do tiroteio iminente ou da irrupção da polícia.

A comida não era boa, mas não era ruim. A sangria da casa – bem feito: quem mandou pedir um negócio desses? – era horrorosa. Mas pelo menos foi o mais próximo de sangue que encontramos por lá.

Pagamos a conta – cara para a comida: os indefectíveis 140 dólares de quase sempre, coma bem ou coma mal. Mas ninguém ali ia questionar nada.

Na saída, ajeitei o sobretudo. O chapéu ficou assim meio inclinado. E seguimos para o hotel sem olhar para os lados.

Le petit Daniel

12/02/2009

 

Daniel Boulud tem, se não me engano, nove restaurantes. Quatro deles estão em Nova York. Os outros, em Vancouver, Pequim, Las Vegas e Palm Beach.

No dia 21 de janeiro desse ano, Frank Bruni, crítico de gastronomia do New York Times, atribuiu quatro estrelas ao principal deles, o Daniel de Nova York. A resenha era gloriosa. Falava de precisão, intensidade, inventividade, acolhimento.

Foi a segunda vez que o Daniel recebeu a cotação máxima do NYT. Na história do jornal, só outros dois restaurantes conseguiram as quatro estrelas mais de uma vez (o Jean Georges, que também foi duplamente quatro-estrelado, e o Le Bernardin, triplamente quatro-estrelado).

No mesmo 21 de janeiro, coincidentemente, estive em outro restaurante novaiorquino de Boulud: o db Bistro Moderne.

A proposta do db, claro, é outra. Não tem o luxo, a sofisticação e a formalidade do Daniel. E se propõe a servir a qualidade da casa principal.

Seguimos o menu da New York Restaurante Week (entrada, principal e sobremesa pro US$ 24,07, fora as taxas e a gorjeta).

De entrada, minha mulher e eu escolhemos um pot au feu; minha filha preferiu a torta Oliviers alsaciana de queijo branco flambado com bacon e cebolas.

Soa um pouquinho absurdo dizer que o pot au feu, apesar de saboroso, estava meio inexpressivo e menos espesso do que seria desejável.

Afinal, é um restaurante francês. É um bistrô. É o Daniel Boulud, ora! Tem que estar muito bom e na consistência exata.

Mas não estava.

A torta alsaciana de minha filha, em compensação, era ótima. Nem consideramos o fato de que não foi flambada à nossa vista.

Na hora do prato principal, optamos pelos grelhados do mar com trofie. A massa da Liguria e, entre os peixes, o tamboril foi o destaque. Salmão e camarões cumpriam, sem estardalhaço, sua função. Bom, enfim.

De sobremesa, uma pannacota de coco com calda de abacaxi e sorvete de limão estava correta. O trio de chocolates (sorvete, bolo e torta) ostentava a qualidade do chocolate (ao leite).

Nada de vinho. A carta era cara. Águas, o habitual suco de cranberry da minha filha e a gorjetinha de 20% fecharam a conta de 130 dólares.

O atendimento era simpático desde a porta até a mesa, embora tenhamos sido esquecidos na saída, após recebermos os casacos de volta.

Tudo bom? Tudo bom. Mas nada empolgante. Em bom português, pas trop. Tudo correto, tudo burocrático.

Claro que o Daniel deve ser diferente – e muito mais caro. Claro que deve superar bastante seu irmão-bistrô. Claro que deve merecer as quatro estrelas que Frank Bruni lhe atribuiu.

Mas, sem a precisão, a intensidade, a inventividade e o acolhimento do Grand Daniel, o db Bistro Moderne decepcionou. Decepcionou mesmo.

db Bistro Moderne

http://www.danielnyc.com/dbbistro.html

Questão de preço

10/02/2009

 

Preço importa, é óbvio.

Mas é preciso evitar julgamentos apressados. O Jun é caro e vale? Vale. O D.O.M. é caríssimo e vale? Vale.

A cantina da minha rua cobra 20 reais por uma massa molenga e encharcada de molho acidíssimo. Vale? Não.

E, em tempos bicudos como os atuais, o preço pesa bastante.

No domingo à noite fomos ao Hideki.

Pedimos ostras de entrada. Elas estavam carnudas, frescas, saborosas.

Em seguida, comemos sashimis interessantes – especialmente o robalo, o polvo e o toro. Frescos e saborosos, muito bem fatiados.

As vieiras recém descongeladas, porém, estavam inexpressivas.

E sushis bem preparados. De novo, o toro foi o destaque, junto com as ovas de peixe-voador.

O atendimento foi simpático e o lugar… Bem, o lugar é razoável, sem maiores delongas. A televisão, com a graça do Altíssimo, estava desligada e a baixa freqüência impedia que os ruídos atrapalhassem.

Tudo ok? Tudo ok.

Mas a conta bateu nos 350 reais (duas pessoas, sem bebida alcoólica). Vale tudo isso? Não, não vale.

Sem querer comparar (mas comparando), isso é o que pago no Aizomê, meu vizinho, que usa ingredientes tão bons ou mais e oferece mais conceito, mais elaboração e ambiente mais agradável.

Por que uma refeição sem qualquer destaque sai tão cara? Não devia.

Preço importa, é óbvio.

Hideki

Rua dos Pinheiros, 70, Pinheiros, SP

tel. 11 3083 7744

Como Chegar lá (Guia 4 Cantos): Hideki

 

Stripper?

06/02/2009

 

Foi num dos livros de Anthony Bourdain que li sobre o Prune.

Ele elogiava o restaurante, destacava sua releitura da comida americana tradicional, a ótima relação custo-benefício.

Principalmente lembrava que a chef, Gabrielle Hamilton, havia feito de tudo na vida, antes de trabalhar na cozinha. Isso incluía – sempre segundo Bourdain – uma temporada como stripper e alguns crimes de pequeno e médio porte.

Irresistível.

Reservamos e fomos. O restaurante, no East Village, é minúsculo. Apertadinho. O salão é menor que a sala da minha casa e a cozinha, muito menor que a minha. Mesas e pessoas quase se sobrepõem. Até onde vimos, fora o barman, só mulheres trabalham lá.

Chegamos às 19 e às 19h30 estava abarrotado de gente. Americanos, aliás, vão a restaurante em hora decente. Almoçam ao meio-dia e jantam às 19. Muito restaurante fecha às 22. Nada dessa mania paulistana de comer às 2 da manhã.

Veio o couvert. Simples e promissor: pão fino frito com kümmel. Picante na medida.

De entrada, timo de porco empanado com bacon e alcaparra. Papagaio! Uma das melhores coisas da viagem, da vida. Minha mulher, minha filha e eu disputamos cada pedacinho. Assim, cada um de nós ingeriu cerca de vinte mil calorias – das melhores calorias do mundo. E antes do prato principal.

Minha mulher pediu, como principal, um capão assado com croutons de alho e especiarias. Forte, picante. O alho ficou na memória por uns dias, mas o capão estava saboroso, tenro, maravilhoso.

Minha filha e eu dividimos fatias de cordeiro cozido, acompanhado de batatas grelhadas (inteiras, com casca) em molho de cordeiro e alho-porró. Meu Deus… O alho (não só o porró) se manifestava e também deixou marcas fundas na memória. Mas o cordeiro era uma delícia.

Para a sobremesa, minha filha quis o sorbet de limão com coco e suspiros; minha mulher, o creme de Earl Grey com biscoito de gergelim e caramelo cristalizado. Ambos ótimos. Mas o meu bolo de gengibre com chocolate era demais…

Bebemos um Rhône simples e agradável por 48 dólares.

A conta ficou nos 140, incluindo o expresso, o suco de cranberry de minha filha (isso virou um vício; agora, toca achar suco de cranberry por aqui) e a gorjetinha de 20%.

O único lado ruim da visita é que, em meio ao ajuntamento e à tremenda confusão do salão e da cozinha, não consegui – vejam que coisa! – identificar a chef. Mas acho que ela fez bem em mudar de carreira.


Prune

http://www.prunerestaurant.com/


Primeiro, a boa surpresa

02/02/2009

 

Nunca tinha ouvido falar do Sea Grill. Nem do chef Jawn Chasteen ou do chef pâtissier Michael Gabriel.

Estava fazendo minhas reservas em restaurantes, por meio do OpenTable, e bati o olho na lista dos que participariam da New York Restaurant Week.

Acho que foi o nome que me atraiu – associado, provavelmente, ao fato de que minha filha é uma pequena orca no que se refere ao consumo de peixes.

Resolvi reservar. Minha mulher e eu ainda combinamos: vamos ver como é e, conforme for, desmarcamos. Ok.

Vimos o lugar e achamos bonito. Fica num piso inferior, no meio do Rockefeller Center. Você chega a ele por um elevador.

O salão, discreto, bonito e elegante, dá para a famosa pista de patinação do Rockefeller. Caso você vá lá, inclusive, previna-se: sua filha vai querer patinar depois do almoço e você, claro, vai deixar.

Lá dentro, executivos. Mais executivos. E, ainda, executivos. Nenhum casal. Nenhuma criança. Fora minha mulher e eu, fora minha filha. Era nosso primeiro restaurante decente em NY e não sabíamos ainda que as crianças novaiorquinas não freqüentam restaurantes.

Pedimos o menu da Restaurante Week: entrada, prato principal e sobremesa por US$ 24,07 – uma referência ao ritmo da cidade, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.

O restaurante, no espírito da semana, oferecia 25% de desconto nas garrafas de vinho. Claro! Pedimos um pinot grigio básico, que não fez feio.

De entrada, minha mulher quis o cappuccino de cogumelos selvagens; minha filha e eu ficamos com o tartare de salmão curado com iogurte e pepinos.

O cappuccino era delicioso – mesmo para quem não é muito fã de sopas e cremes em geral (meu caso). Denso, forte, intenso.

E o tartare de salmão, coberto por wasabi fresco, foi a primeira grande surpresa que o Sea Grill ofereceu. Muito, muito saboroso. Muito. Muito mesmo. O iogurte e o pepino, suaves e frescos, o wasabi, picante na medida, dialogavam com o salmão e pareciam intensificar o sabor dele.

A coisa prometia.

Vieram os pratos principais.

Truta sobre cama de abobrinha crua ralada e couve-de-bruxelas para minha mulher. Grelhada (afinal, grill está no nome da casa), úmida, gosto de fogo – este estágio primal, a que tanto retornamos. Deliciosa, macia. No ponto preciso (ou seja, ela saiu da grelha vários minutos antes do ponto em que a maioria dos restaurantes brasileiros, pródigos em torrar peixes, costuma servi-los).

Um combinado de sushi e sashimi para minha filha. Nada demais, mas os peixes eram variados e saborosos.

Mas o meu (há, há!) era o melhor: hake na chapa com escarola e molho vermelho ligeiramente picante e fresco (red curry, segundo o menu; mas um amigo indiano já me ensinou que curry não existe).

Você sabe o que é hake? Pois é, eu também não sabia. O garçom me explicou que tinha sabor próximo do bacalhau (fresco, claro) e eu resolvi arriscar. Só depois descobri que hake é merluza. E que merluza! Digo, que hake! De novo, o wasabi fresco dava o tom no diálogo com a carne forte e delicada do peixe. Ai, ai. Queria trazer um estoque de hake para casa, mas acho que a alfândega não autorizaria.

Para sobremesa, uma boa torta de limão com sorvete de baunilha (da casa e de verdade: feito com a fava) e um ótimo, ótimo (ótimo!) ganache de chocolate amargo com sorvete de laranja assada, acompanhado de peras cozidas no mel.

Serviço corretíssimo e gentilíssimo e conta final de US$ 150 (com vinho, suco de cranberry para minha filha e a gorjeta de 20% – para não apanhar do garçom), o que é caro para os padrões paulistanos, mas bastante razoável em Nova York – você gasta isso em qualquer biboca.

Saímos do calor do salão e da comida para os cinco graus negativos da cidade e, enquanto minha filha patinava no gelo, eu ainda sentia o gosto de começar nossas peripécias gastronômicas com uma boa surpresa.

Dias depois chegaria à conclusão de que devia ter cancelado a reserva no db bistrot moderne, de Daniel Boulud, e voltado ao Sea Grill. Pena que não fiz isso. Mas essa é outra história.


Sea Grill

http://www.patinagroup.com/east/seaGrill/