Esse comboio de corda

15/08/2014

 

Quem escreve sobre restaurantes é um fingidor. Porque poucas coisas são mais fugazes do que uma refeição e tudo aquilo que ela nos oferece ou sonega.

 

No texto, posso sugerir uma impressão, um sabor, o conforto de uma poltrona, a vista aquém e além da janela do salão. Não poderei jamais ceder o lugar ao leitor e fazê-lo reviver aquela hora.

 

O impasse, a rigor, começa antes: tal impressão ou sabor sugeridos já são, por si, evocações, abstrações: o tempo da escrita é outro, o tempo da experiência é inacessível.

 

Não por acaso, o famoso poema de Pessoa que parodiei na primeira frase traz uma estrofe de que muitos se esquecem: ‘E os que leem o que escreve, / Na dor lida sentem bem, / Não as duas que ele teve, / Mas só a que eles não têm.” Viver, narrar, ler: instâncias que se comunicam, entranham-se na profundeza, mas diferem.

 

Talvez por isso sempre hesitei em escrever sobre um restaurante a que vou com alguma regularidade: o Bazzar. Nos últimos dois ou três anos, não houve viagem ao Rio que não incluísse uma ou mais refeições por lá.

 

O almoço tardio ou o jantar precoce, após a primeira jornada de trabalho naquela cidade tão linda, virou quase um ritual. Sento-me no balcão (jamais utilizei as mesas), peço água e uma taça de jerez —vez ou outra, rara, troco o jerez por um dos bons vinhos do dia—, olho o cardápio, faço minha escolha, descanso.

 

Poderia contar de alguns pratos que já comi e de que gostei um pouco mais ou um pouco menos. Dos aviús com ovas de tainha e creme de cará, gostei bastante, assim como do tartare de cavaquinha com azeite de baunilha, da moquequinha de ostras no dendê e do mix de folhas com feijão de Santarém. Já da costeleta de cordeiro com purê de cará, cebola caramelizada e redução de vinho do Porto, gostei menos. O excessivo alho —vejam que ironia— se impunha aos demais sabores. Tampouco me agradou o peito de pato com couve, banana da terra e mandioquinha. Pato além do ponto, rígido demais, pouco suculento.

 

Poderia dizer que a melhor coisa que provei foi a torta de galinha d’angola, com massa ligeiramente adocicada, ervilha, milho, cenoura e pinhão —item do atual cardápio de inverno. E que a pior coisa que comi foi a sobremesa do mesmo cardápio: um suflê de tangerina que chegou ao balcão com erro básico de execução, totalmente murcho e afundado.

 

Poderia dizer, ainda, que o serviço é gentil e a sommelière Flávia é de atenção incomum e de afetação nula: orienta, sugere, comenta, não excede. E poderia falar da incrível possibilidade de tomar em taça —indicação da restauratrice Cristiana Beltrão— um vinho tão delicioso como o Pietra Nera, obviamente siciliano.

 

Mas nada do que dissesse explicaria as seguidas voltas, a sensação de prazer diante daquele balcão. Porque, no fim das contas —eis aqui outro paradoxo—, não é a comida que me leva ao Bazzar. É uma percepção fugidia, afetiva e inexprimível, de que ali me sinto bem, de um jeito que o quotidiano normalmente não permite.

 

Deve ser por isso que o mesmo poema de Pessoa se encerra com uma estrofe que nos faz lembrar que é o coração, esse comboio de corda, que nos move, a entreter a razão.

 

Bazzar
Rua Barão da Torre, 538, Ipanema, Rio de Janeiro
tel. 21 3202 2884

 

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8 Respostas to “Esse comboio de corda”

  1. jr campos Says:

    Está entre as top5 de suas críticas! Congrats! Essa sensação de estar num lugar e voltar, mesmo sem saber porque, simplesmente deixando seu instinto decidir, é sensacional!


  2. Caríssimo Alhos, peço desculpas pelos desvios do comboio, pois a rota que segue um restaurante de 84 lugares e cardápio extenso é sempre um pouco mais tortuosa, mas fico feliz por ver na sua vontade de voltar um espelho da nossa firme vontade de acertar. Obrigada pela contribuição e agora volto ao timão!

  3. alhos Says:

    jr campos,
    muito obrigado.
    Abraços!

    Cris,
    obrigado pelo comentário e pela atenção.
    Calculo a dificuldade.
    E sei do prazer de me sentar àquele balcão…
    Abraços!

  4. Pleno Says:

    Bacana ler um texto assim.

  5. Dri Says:

    Moro no Rio, saio para comer fora (especialmente por essa região do Bazzar) pelo menos duas vezes por semana. O Bazzar, apesar do grande reconhecimento da “crítica especializada” é, sem dúvida, um dos lugares que menos recomendo e que não tenho a menor intenção de revisitar. Vou me ater a última tentativa:

    -Ausência de sommelier. Os dois primeiros vinhos que eu escolhi estavam esgotados, as sugestões de troca apresentadas eram completamente sem sentido. Queria um Pinot Noir primeiro, depois um Merlot. Me sugeriram um Cabernet Sauvignon…

    – O tal pato. Sou uma “patomaníaca” e posso afirmar que o meu pato estava exatamente como descrito aqui, apesar de ter enfatizado que queria ele mal passado (como se eu precisasse explicar o ponto de um magret…)

    – O sofá/poltrona da mesa. Terrivelmente desconfortável para pessoas de qualquer tamanho, a mesa fica muito mais elevada que o normal, tornando a experiência incômoda.

    Tudo isso pra dizer que esse texto (assim como o da Constance, que me trouxe até aqui) é perfeito. Uma refeição é um momento único, especial, impossível de ser repetido. E com interferências das particularidades/preferências de cada um…

  6. alhos Says:

    Pleno,
    obrigado.
    Abraços!

    Dri,
    obrigado por seu comentário.
    Constance aponta, em seu texto, a principal questão dos frequentadores de restaurantes, hoje, no Brasil: a irregularidade. É impossível prever, mesmo em restaurantes justamente celebrados, como o prato chegará à mesa.
    No caso do Bazzar, sempre me sentei ao balcão; talvez por isso, sempre fui atendido diretamente pela sommelière.
    E temos um ponto em comum: a absoluta, total e avassaladora paixão pelos patos… São animais extraordinários. Parece que o Altísssimo os criou no oitavo dia, quando já tinha muita experiência, já fizera a autocrítica quanto à sua criação do sexto dia e estava descansado; por isso a ideia deu tão certo.
    Abraços!

  7. Ana Paula Baumgarten Krebs Says:

    Alhos,
    Me chamo Ana Paula Krebs e sou diretora do grupo de restaurantes Bazzar.
    Gostaria do contato da Dri, caso possível, para me desculpar e reverter a experiência que teve conosco.

    Estendo a você o meu pedido de desculpas, reafirmo a vontade de conhece-lo pessoalmente e reforço que é sempre bem vindo nos nossos restaurantes.
    Obrigada.

  8. alhos Says:

    Ana Paula,
    obrigado por sua atenção.
    Vou entrar em contato com a Dri. Caso ela autorize, passo-lhe o endereço eletrônico dela.
    Abraços!


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