A teus pés

09/02/2010

 

Muito antes de virar ícone pop, Che Guevara bem que tentou, mas não adiantava: era um péssimo teórico. A meia dúzia de livros que deixou confirmam que, como teórico, foi um ótimo guerrilheiro.

O que ele sabia era criar frases — algumas delas viraram clichês e estampam hoje milhões de camisetas. Há uma que me agrada muito, embora traga, à primeira vista, um sabor excessivo dos anos 60: Quando o quotidiano se torna extraordinário, é a revolução.

Claro que, naquele momento e na sua boca, a frase tinha um sentido mais restrito, revolução era revolução mesmo: transformação social & Cia.

Cinqüenta anos depois, ficou mais bonita, porque mais ampla.

Quando, afinal, conseguimos fazer do nosso quotidiano algo extraordinário? Algo que ultrapassa o comum e torna mais intenso e efusivo o território do dia-a-dia, da repetição, da inevitável monotonia?

No sábado passado, estava home alone. Pensei em dois ou três lugares onde queria almoçar antes de lembrar do pé de porco, servido no Ici só nesse dia da semana. Não hesitei. Nem minha mulher nem minha filha o comeriam; melhor aproveitar a solidão.

Cheguei, mal sentei à mesa e pedi o prato do dia. Durante meia hora o comi com todo o prazer possível. Preciso, saboroso, macio, delicado, categórico.

De sobremesa, para não abandonar o clima da refeição quotidiana, pedi pela enésima vez o pain perdu. Não sei se era meu enlevo pós-suíno, mas nunca o achei tão bom quanto nesse dia, nunca esteve tão crocante por fora, tão úmido por dentro, tão gostoso.

Saí do restaurante com a sensação de que de fato fizera um almoço prosaico e simples — pé de porco e pain perdu: é possível algo mais básico e quotidiano?

Só que o quotidiano, em raras e inesquecíveis situações, pode se tornar extraordinário.



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13 Respostas to “A teus pés”

  1. Joaquim Says:

    Cabra competente o Benny,meu último jantar lá ,foi uma sucessão de pratos ,entre eles ,uma barriga de porco,eu fico pensando por que se come pouco porco nos restaurantes ,será preconceito?Um pé de porco bem feito é delicioso ,mas eu sou tarado mesmo é num pé de galinha,já provou?

  2. Benny Says:

    Alhos,alhos….

    Tai mais uma vez voce conseguindo decifrar a essencia do ICI Bistro.
    Simplicidade.

    Abs

  3. alhos Says:

    Joaquim,
    tudo bem?
    Muito competente.
    Adoro porco e, se havia preconceito, hoje certamente diminuiu. Há bastante oferta de porco nos restaurantes. Caso ainda não tenha provado o trio do Pomodori, recomendo muito.
    Gosto de pé de galinha, mas não está na minha lista de favoritos…
    Abraços!

    Benny,
    que pé, meu caro, que pé. Obrigado.
    Abraços!

  4. Ricardo Oliveira Says:

    Alhos,
    ´
    Lendo seu post, aproveito o tema para parabenizar esta dupla, Benny e Renato.Estão contribuindo muito para a restauração paulista.Três casas(210 ainda não visitei), três cozinhas diferentes, com ótima regularidade, inovação(210 Diner),”criatividade clássica”.É o tipo de restaurante que indico para as pessoas sem preocupação alguma.

    Abs.

  5. Márcio Says:

    De vez em quando, percebo que comer desacompanhado aumenta a nossa percepção das qualidades e defeitos da comida. Uma ótima refeição quotidiana pode se tornar extraordinária, não?
    Belo texto!

  6. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Sim, calculo que seja uma tremenda empreitada a manutenção dos três casas. Torçamos para que o Diner, que ainda não conheço, mantenha o mesmo nível das outras duas.
    Abraços!

    Márcio,
    obrigado!
    Concordo: comer sozinho permite maior concentração na comida.
    E comer acompanhado é mais fiel ao ritual em si de um almoço ou jantar.
    Ou seja, as duas situações são boas – quando a comida é boa, claro.
    Abraços!

  7. Raquel Says:

    Pé de porco preciso, saboroso, macio, delicado, categórico, jamais poderia imaginar tantas qualidades num pé de porco, que aqui no interior do interior do Brasil,pé de porco é comida de 5ª categoria, que ningém da valor, quem dera que nós aqui pudessemos comer um pé de porco assim.

  8. alhos Says:

    Raquel,
    tudo bem?
    Pois é, pé de porco sugere, para muitos, algo prosaico, de restos.
    Não é; é fundamental. rs
    Abraços!

  9. o avestruz Says:

    alhos,

    lembrei dos meus tempos de estudante em barcelona, fuçando sozinho os restaurantes do raval e do bairro gótico.
    peu de porc a la catalana era uma iguaria para mim, trivial para os motoristas, vendedores e transeuntes que compartilhavam do prato no balcão ou em pequenas mesas.
    concordo que, almoçando sozinho, cada garfada era mágica e revelava nuances incríveis.
    bateu uma saudade danada daquele avestruz que hoje não existe mais.
    quem sabe não me encontro com ele no ICI num sábado?
    parabéns pelo post.
    deixo também um parabéns pro benny, pela belíssima casa. (o pain perdu é de outro planeta!)
    um abraço
    d’ o avestruz

  10. alhos Says:

    Avestruz,
    tudo bem?
    Essa contradição do pé de porco (e de tantos outros pratos) é fabulosa: o aparentemente banal tornado original.
    Vá, sim, dia desses, em busca dessa madeleine suína… E, claro, arremate com o pain perdu.
    Abraços!

  11. o avestruz Says:

    alhos,
    mudando de pato pra ganso: vou dar um giro por NYC na semana da páscoa.
    andei pesquisando, como bom glutão. Per Se, Lupa do Mario Battali, Noodle Bar do Chang, Burger Joint, Sea Grill, Katz Deli já estão no roteiro (mas ainda não reservados).
    a pergunta é: onde será o almoço inesquecível do avestruz no domingo de páscoa em NYC?
    obrigado e um abraço,
    d’ o avestruz

  12. alhos Says:

    Avestruz,
    tudo bem?
    Da sua lista, aposto no Per Se, embora nunca tenha comido lá.
    Dos que conheço, gosto muito do Aquavit e acho o Le Bernardin imbatível. Escolheria um deles, provavelmente o Bernardin.
    Uma volta pelo sul (para os lados do bom Lupa) também permite visitar o Prune, surpreendente.
    Abraços e boa viagem!

  13. o avestruz Says:

    alhos,
    obrigado pelas dicas.
    os favoritos são o Per Se e o Le Bernadin. vou checar no open table.
    grande abraço
    d’ o avestruz


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