Sucesso e desacertos

01/11/2010

 

Há restaurantes que descobrem a forma exata de atrair clientes. Mal abrem e imediatamente as filas crescem à porta, a espera se multiplica, não há quem não queira ir lá.

O Tre bicchieri é um desses casos. Com equipe oriunda do grupo Fasano, se tornou sucesso instantâneo de público e crítica.

Sujeito prudente e temoroso diante de aglomerações, aguardei uns meses para visitá-lo. Quando decidi ir, e fui duas vezes em outubro, tomei minhas precauções e reservei mesa com mais de uma semana de antecedência.

A decoração é discreta e elegante. As louças, das mais bonitas da cidade. A acústica do salão, porém, amplia os ruídos que, com a casa cheia, tornam difícil conversar à mesa. O atendimento, extremamente atencioso, faz lembrar a origem e a concepção que orientaram a montagem da casa. Diversos itens do cardápio também trazem imediatamente à memória pratos semelhantes experimentados no Gero ou Fasano.

Infelizmente, o grande sucesso e a boa inspiração não garantem céu de brigadeiro, muito menos uma refeição tranquila: o Tre bicchieri ainda precisa de muitos acertos para corresponder ao otimismo e à celebração que cercou seu nascimento. Duas visitas feitas e em ambas os deslizes superaram de longe os acertos.

A polenta com tallegio e pancetta é agradável. Em compensação, as massas — item fundamental num restaurante italiano — desafinaram. O bigoli no ragu de pato chegou no ponto certo, mas quase não se notava o gosto da ave. Já o tortellini com cavaquinha veio mole demais, muito além do correto, e o molho de tomate encobria completamente o crustáceo.

Minha filha, que tinha pedido o tortelini e não é boba, desistiu depois da terceira garfada; restou à pobre criatura paterna trocar de prato com ela…

As carnes mostraram melhor execução. O coelho e a galinha d’angola com legumes estavam corretos, sem merecer maiores adjetivos. A paleta de cordeiro assada, por sua vez, justificava, mesmo que parcialmente, o sucesso da casa: macia e saborosa. Seu acompanhamento (batata, cenoura, cebolinha, aspargo, couve-flor) se integrava bem com o caldo espesso e substancioso da carne.

O ‘petit gâteau de chocolate laranja’ é curioso, mas ilude quem espera encontrar o sabor do chocolate. A laranja prevalece, mas não fornece frescor ao doce. A pastiera di grano veio triplamente prejudicada: carecia dos grãos que a nomeiam, o forte sabor de trigo da massa se sobrepunha ao gosto da ricota e o aquecimento fora irregular: ponta quente, centro gelado.

A carta de vinhos privilegia rótulos da Toscana e traz poucas, mas boas sugestões de dois dígitos. A taxa de rolha é altíssima, praticamente inviável: os 80 sugerem que o restaurante prefere que o cliente não leve sua garrafa. Outra taxa, a de serviço, também ultrapassa o padrão de 10% a que os brasileiros se acostumaram: 13,82%.

O azar ou desacerto nas visitas se confirmou numa desagradável coincidência: nos colocaram duas vezes na mesa 15, bem à porta da cozinha e ao alcance dos cotovelos dos garçons, que mais de uma vez atingiram a minha mulher, sentada na linha de fogo.

Triste, porque o balanço final é negativo. O Tre bicchieri moveu mares e terras em São Paulo e é claro que tem potencial para se tornar um bom restaurante. Mas ainda há muita, muita coisa a ser corrigida.

Tre bicchieri

Rua General Mena Barreto, 765, Jardins, São Paulo

tel. 11 3885 4004

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Tre bicchieri


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15 Respostas to “Sucesso e desacertos”

  1. Ricardo Oliveira Says:

    Alhos,

    Na minha opnião, molho vermelho não casa com frutos do mar, em todas as pastas que comi, o molho encobre o gosto do crustáceo, acho uma combinação equivocada.

    Abs.

  2. jb Says:

    tudo bom?

    ainda não fui nesse.

    mas, pelo que cobram, acho que já deu tempo de acertar o serviço, não?

    sabe, tenho demorado cada vez mais para conhecer lugares onde se gasta um pouco a mais.

    pois sempre que me decepciono (e isso acontece em boa parte das vezes) me vem à cabeça que poderia ter investido a grana nos meus preferidos.

    no caso do tre bicchieri, as três vezes em que pensei em ir e até entrei na rua do restaurante, meio que por instinto, desviei o carro pro pomodori, que é bem perto.

    não me arrependi não. sempre como muito bem lá. a rolha, se não me engano, tá quarenta pilas.

    e, no final, ainda tomo como digestivo uma dose de cachaça de um alambique da cidade do chefe.

    desculpe pelo longo comentário.

    abraço!

  3. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Já comi bons e maus pratos que combinavam molho vermelho e frutos do mar. Depende, claro, da suavidade do molho. Neste caso, faltava equilíbrio e sobrava acidez.
    Abraços!

    Julio,
    tudo bem?
    Nenhum problema com comentários longos, fique à vontade.
    As contas no Tre bicchieri saíram na faixa de 350 reais, com vinho de 60, talvez o mais barato da carta. O equivalente a uma refeição no Pomodori, que é muitíssimo superior.
    Gostava muito do trabalho do chef no Gero e esperava encontrar uma cozinha de mesmo nível. Torço para que melhore.
    Abraços!

  4. APJ Says:

    Descobri seu blog por acidente e tenho adorado!

    Você escreve muito bem, não é pedante e não fica ostentando nada. (como um blog que eu costumava ler!)

    Me divirto com os seus posts, todos excelentes!

    Parabéns,

    A.

  5. alhos Says:

    A.,
    tudo bem?
    Obrigado pelo comentário e pela leitura.
    É uma pena que ‘comer fora’ muitas vezes seja associado à ostentação. Claro que há raízes históricas/sociológicas desse comportamento, mas creio que todos ganharíamos se tal lógica se alterasse.
    Abraços!

  6. chopp Says:

    Dica anotada!

  7. alhos Says:

    Obrigado pelos comentários, chopp.
    Abraços!

  8. Fritz Says:

    Uma coisa que poderiam melhorar: trocar o nome do restaurante. Tre Bicchieri é tão ridículo e provinciano quanto, sei lá, 3 Étoiles, Five Stars ou 100 Points.
    Abs!

  9. alhos Says:

    Fritz,
    tudo bem?
    O nome evoca o sistema de pontuação do Gambero Rosso e faz menção à tripla sociedade. Não acho ruim, não.
    Mas fica anotada sua discordância.
    Abraços!

  10. José Luiz Says:

    Alhos,
    Seguindo a indicação do “bicho”, que voltou à ativa depois de um longo inverno, fui jantar com minha esposa no Tre bicchieri. Já tinha ouvido falar do restaurante, que está indiscutivelmente na “moda”. Escolhi uma noite qualquer, bem tarde, para evitar as demoradas e longas filas. Quando cheguei haviam poucas mesas, ocupadas por nomes famosos, como o Boni, Armentano e até mesmo o Juscelino do Piseli. A comida estava boa. A polenta, infelizmente, sofrível. A oferta de vinhos em taça é lamentável, mas depois de aguardar uns bons minutos, o sommelier me sugeriu um taça de um bom Cairanne, importado pela Cellar (R$ 40,00)e que, no restaurante, custa, se não me engano, R$ 110,00. O serviço, talvez pelo adiantado da hora, pouco atencioso e até mesmo meio arrogante. Algo que nunca presenciei no Gero ou Fasano. Enfim, uma casa da moda, com preços dos vinhos nas alturas e cozinha regular. A decoração, por sua vez, me pareceu pouco original, tipo casa temática…

  11. alhos Says:

    José Luiz,
    tudo bem?
    Salvo engano, o Juscelino Pereira é consultor da casa.
    O serviço foi correto e gentil em nossas visitas, apesar de termos sido alojados provavelmente numa das duas ou três piores mesas da cidade – o que pode ser um efeito de não sermos pessoas ‘conhecidas’.
    O que desafinou mesmo foi a comida.
    Abraços!

  12. cadoria Says:

    Minha torcida é grande por esses restaurantes que são clones daqueles de onde saíram seus proprietários. Exceção feita para o Bela Sintra, raramente superam o original. E os preços nem são assim tão mais em conta, não acha?

  13. alhos Says:

    Carlos,
    tudo bem?
    Raramente os preços compensam.
    E, de fato, apenas o Bela Sintra ultrapassou, e hoje com folga, a origem.
    Abraços!

  14. wair Says:

    É um mistério que alguns restaurantes abram completamente abarrotados, considerando-se que o trabalho de cozinha e serviço pressupõe treino intenso, obtido geralmente através do sistema de “soft opening”, para evitar problemas. Estive recentemente no Serafina, para almoço, e todos os problemas recorrentes desta situação aconteram comigo. Pedi um carpano, e trouxeram Campari. Depois trocaram, alegando desconhecimento da bebida. A entrada, uma salada equivocada, imensa, com molho escasso. Finalizando com uma massa com cogumelos, cubos de frango e ervilha. A impressão é de que a massa pediu para sair da panela, estava exausta de ser cozida…Um prato estranho, monobloco, maciço, intragávavel. Decidi devolver o prato, que não dava para encarar mesmo, mas mesmo assim paguei a conta integral…Isto, sem contar as formigas que teimavam em picar meu tornozelo. E a fila aumentava enquanto isto. E ouço pessoas elogiando. Será que só eu tive esta experiÊncia traumática?

  15. alhos Says:

    Wair,
    tudo bem?
    Há muito mistério, sim, nos sucessos e insucessos de casas.
    Já falei mais de uma vez aqui no blog do restaurante da Cecilia, comida judaica, que foi, por alguns anos, meu favorito. Primeiro, no Bom Retiro; depois, em Higienópolis. Comida sempre excelente, bem mais barata do que a média paulistana, serviço gentil. Pouco público. Muitas vezes jantávamos sozinhos. Nunca compreendi. Um dia fechou. Hoje continuo a comer a comida da Cecilia, pois encomendo diretamente a ela, que não tem mais restaurante. Continua deliciosa, superior à da maioria dos restaurantes paulistanos e com excelente custo/benefício. Mas o restaurante não conseguiu sobreviver.
    Não fui ainda ao Serafina. É perto de casa, está sempre cheio, foi bem recebido pela crítica, mas tenho a má lembrança de quando comi no Serafina de Nova York, anos atrás. Um restaurante comum, mediano. Esperarei mais um pouco.
    Abraços!


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