Jantar no Theatro

30/01/2011

 

Quando entramos pela primeira vez no Theatro da Villa, de Tiradentes, nos surpreendemos.

 

O cardápio continha apenas a informação de que serviam degustação a 140 reais por pessoa, e não era isso que esperávamos.

 

Explicamos ao garçom que a noite, para nós, não era de degustação, e ele esclareceu que poderia, sim, servir apenas um prato — não seríamos, afinal, os únicos a preferir uma refeição mais simples.

 

Mesmo assim, achamos melhor voltar outro dia e fomos embora.

 

Dobramos a esquina, paramos numa casa de peixes e nos sentamos. A surpresa, então, foi maior: no menu, só bacalhau e salmão, a preços escorchantes.

 

Desistimos de novo e voltamos para o Theatro. Entramos lá pela segunda vez, agora para ficar.

 

Confirmamos a impressão anterior: tudo bonito e cheio de estilo. Muitos elementos visuais, mas articulados e obviamente relacionados ao universo teatral.

 

Havia três opções do dia. Cada um de nós ficou com uma.

 

Minha filha, com o ravioli de batata com molho de pecorino, azeite trufado e castanha de caju.

 

Minha mulher preferiu o magret de pato no molho de blueberry, acompanhado de risoto de pecorino e aspargos frescos.

 

Optei pelo mignon de cordeiro, cuscuz marroquino com passas, ‘pesto’ de hortelã e purê de damascos.

 

Enquanto esperávamos, o dono, bastante simpático, passou pela mesa, conversou um pouco, perguntou de onde éramos e avisou: ‘dizem que nossa comida não deve nada à dos melhores restaurantes de São Paulo’.

 

Aposta alta, expectativa ampliada.

 

E aposta paga. Os pratos chegaram e estavam exatos: técnica perfeita, precisão no conjunto (combinação de elementos, associação de sabores…) e no particular (qualidade dos ingredientes, ponto de cocção…).

 

Claro que o azeite trufado era dispensável — mas sempre achamos dispensável o azeite trufado.

 

Claro, também, que houve um prato superior aos outros, o destaque da noite: meu cordeiro, delicioso.

 

O orgulho do dono não era baldio: da decoração ao serviço e à comida salgada, o Theatro da Villa se equipara de fato a boas casas de São Paulo.

 

As sobremesas, porém, ficaram um ou dois degraus abaixo.

 

A terrine de chocolate amargo (‘70’) com calda de frutas vermelhas é agradável, mas comum. O ‘duo’ — sorvete de queijo de Minas com goiabada cascão amolecida e calda de goiaba — é mais interessante, mas tampouco chega a empolgar. Nos dois casos, porções pequenas demais.

 

Havia, porém, um detalhe de equivalência a São Paulo de que só nos demos conta no final e nos chocou: os preços. Lógico que foi um erro nosso não perguntar, logo na entrada, quanto custavam os pratos.

 

Até tinha feito uma estimativa a partir do preço da degustação e calculara um valor alto, em torno de 70 reais cada prato.

 

Errei longe. A conta indicou valores entre 85 e 90 para os principais e um total que bateu nos 500 (com um vinho de 120 e águas).

 

Caro demais. Pensei rapidamente e só me lembrei de três restaurantes em São Paulo que cobram nessa faixa — todos luxuosos, com chefs renomados, louças, cristais, atendimento e comida superiores à do Theatro da Villa.

 

Saímos de lá intrigados. Não havia dúvida de que havíamos feito uma ótima refeição. Mas que mercado é este que permite a manutenção, numa cidade pequena e de fluxo sazonal de turistas, de uma casa que cobra o que o Theatro da Villa cobra?

 

O restaurante existe há onze anos e eu não sei a resposta.

 

Theatro da Villa

Rua Padre Toledo, 157, Tiradentes, Minas Gerais

tel. 32 3355 1275

 

 

23 Respostas to “Jantar no Theatro”


  1. Alhos, que bom que pelo menos os pratos estavam ótimos!
    Que ruim saber que preços altos não são privilégio da nossa megalópole…infelizmente.
    E, com seu relato, mais uma vez eu constato que sobremesas são, na maioria dos restaurantes ao redor do mundo, apenas razoáveis. Acho que viverei 25 vidas e não entenderei isso…

    Beijo!

  2. Adrina Says:

    As cidades históricas de Minas tem este defeito de tentar explorar o turista a todo e qualquer custo. Nós pretendemos ir a Tiradentes no feriado de abril, e já estou com a indicação de um lugar onde não comer; não por não ser bom (pelo que li, parece ter sido bastante bom), mas por estar fora do meu alcance financeiro.

  3. alhos Says:

    Helena,
    tudo bem?
    Obrigado por seu comentário.
    Se formos comparar as sobremesas de restaurantes com seus doces, sobrarão dois ou três, e olhe lá…
    No geral, são bem inferiores, sim. Contam-se nos dedos os restaurantes em que é essencial comer sobremesa.
    Beijos!

    Adrina,
    tudo bem?
    O turismo facilita a exploração: é improvável que o cliente volte, ele está mais disposto a gastar, etc.
    Mas não me senti explorado no Theatro da Villa; acho que é a política de preços deles mesmo. Infelizmente. E, no geral, comi bem em Tiradentes (ainda virá o post do melhor lugar) e mal em Ouro Preto (farei também um post), mas sem grande exploração. Ufa.
    Fiquei curioso: que lugar é este que lhe indicaram?
    Abraços!


  4. Ah. A infindável questão dos preços…

  5. alhos Says:

    Gabriel,
    tudo bem?
    Na verdade, não.
    Acho que a discussão sobre preços de restaurantes tem sido tratada de forma bastante vaga, sem considerar uma imensa quantidade de elementos que os elevam e que passam muito longe do “aquecimento do mercado”. Também já escrevi que acho vago dizer que os preços em NY ou Paris são mais baixos do que em SP ou RJ. De que preços estamos falando: dos que estão no cardápio ou dos que você de fato paga no final da refeição? Tudo isso tem que ser balizado e considerado num país que cobra 58 reais por um livro que custa 9 dólares em NY.
    No caso específico do Theatro da Villa, a observação foi sobre preços maiores do que os de 99% dos restaurantes de RJ ou SP. Em SP, lembro apenas de Fasano, Vecchio Torino e DOM como casas que estabelecem valores próximos dos 90 reais para todos ou quase todos os seus pratos.
    E minha curiosidade foi imaginar o volume de clientela que, numa cidade pequena e de turismo sazonal como Tiradentes, consegue manter ativa a casa. Que – repito o que escrevi no post – serve ótima comida.
    Abraços!

  6. Daniela Says:

    O melhor lugar onde comemos em Tiradentes foi no Pau de Angú. Imperdível!

  7. alhos Says:

    Daniela,
    tudo bem?
    Infelizmente não fomos ao Pau de Angu. Está anotado para a próxima que, felizmente, não vai tardar.
    Abraços!

  8. kaki Says:

    Muuuito estranho, algo aconteceu sem dúvida.
    Já estive no Theatro mais de uma vez, pois não consigo estar em Tiradentes e deixar de fazer uma refeição por lá.
    Realmente é caro, mas nada comparável ao que você descreveu e apenas ligeiramente mais caro que outros semelhantes por lá ou em São Paulo.
    Uma triste notícia que pra mim tira parte do brilho do lugar.

  9. alhos Says:

    Kaki,
    tudo bem?
    Quer dizer que nem sempre os preços foram assim? Uma pena, então, a mudança.
    Achei estapafurdiamente caro. Mesmo a ‘degustação’, por 140 reais, é cara, uma vez que, na prática, não se trata de degustação, mas de um menu em três fases: entrada, principal e sobremesa.
    Abraços!


  10. Tem sido vaga, mas está sempre presente nos últimos meses.
    Vou abordá-la na próxima edição da revista que escrevo.

  11. kaki Says:

    Alhos,
    excepcionalmente já se vão quase 2 anos sem voltar a Tiradentes, mas sim , a média dos precos praticados no Theatro era bem inferior,cara para o local como um todo, mas condizente com a qualidade a apresentação e cuidado no prepraro de cada prato.
    Na ultima vez, conversamos com os irmãos(um cuida do salão e o outro da cozinha)proprietários que nos esmiuçaram as dificuldades de se manter aquele padrão em local tão ermo.
    Não me recordo da tal “degustação”, ou se ela já existia , nunca chegou a interessar, nem a mim nem às diferentes pessoas que me acompanhavam em vezes distintas.
    Talvez essa inflação seja mesmo eco do festival gastronomico que acontece anualmente e transborda a cidade com interessados, mas também curiosos, glutões e outas categorias mais.
    Abç

  12. alhos Says:

    Gabriel,
    mande notícias da revista, por favor.
    Abraços!

    Kaki,
    pode ser que o sucesso da cidade – festivais em geral: gastronômico, de cinema – tenha inflacionado.
    Se foi isso, só resta lamentar.
    Abraços!

  13. Semiramis Says:

    Estou com a Adrina, já anotei o nome desse restaurante para não ir…


  14. Alhos,
    Feliz 2011, inclusive à mesa. Olha, pelo que você descreve do restaurante eu apostaria que os proprietários não vivem dele; ao menos não vivem exclusivamente dele. Dai, pouco importam os preços e a quantidade de refeições, não acha?
    Abração
    Dória

  15. Daniela Says:

    Bom, já que vão novamente não perca também o Sabor Rural. Apesar do aspecto simples, não tenha dúvida, a comida é excelente e o preço honesto.
    E realmente o Pau de Angu é imperdível!
    Ora pro Nóbis, apesar de bem cotado foi uma decepção.

  16. Adrina Says:

    Olá, Alhos, o restaurante é justamente este, o Theatro da Villa. Comida boa mas cara para os meus padrões pessoais.

  17. alhos Says:

    Semiramis,
    vale a pena ir, sim. Desde que se esteja preparado para a conta.
    Abraços!

    Dória,
    tudo bem?
    Pode ser isso. Daí ficaria mais fácil entender.
    Abraços!

    Daniela,
    obrigado pela nova dica. Experimentaremos!
    Abraços!

    Adrina,
    ah, entendi. Acho que esse preço, hoje, é caro para os padrões de quase todo mundo.
    Abraços!

  18. Crisolda Says:

    Oi Alhos!
    Que feliz coincidência conhecer seu blog, e lendo justamente seus posts sobre “Tira”!
    Moro no Rio, mas sou de São João Del Rei, do ladinho de Tiradentes, uns 10 km. Comecei a trabalhar em restaurantes com 18 anos, e carreguei muita bandeja por aquelas bandas. A última casa que trabalhei antes de vir para o Rio, e que considero muito, é o Tragaluz. Não deixe de dar uma passadinha na próxima visita, nem que seja para admirar a casa, a decoração, ou testar as sobremesas. Já ouvi muitas comparações entre o Theatro e o “Traga”, mas claro que meu coração penderá sempre para aquele lugar aconchegante onde a dona desenha seus funcionários nos cardápios. Menos capitalista, sabe? rs..
    Enfim, nostalgia me define agora. Desculpe o comentário longuíssimo, mas foi um enorme prazer conhecê-lo!
    Abração,
    Cris

  19. alhos Says:

    Cris,
    tudo bem?
    Obrigado pelo comentário (não, não foi longo, foi ótimo!) e pela dica.
    Irei, sim, ao Tragaluz na próxima visita a Tiradentes. Fiquei curioso…
    Abraços!

  20. Frederico Dimas de Paiva Says:

    Acabo de voltar do restaurante e me senti lesado. Depois de mais de 2 horas de espera, o saldo final foi um carpácio servido congelado para a minha mulher, uma demora imensa entre um prato e outro, uma massa fria, além da ausência total de zelo pela qualidado do atendimento. No final, gastamos mais de 340 reais por uma das piores experiências que tive em restaurantes. Não nos pediram sequer desculpas pelo atraso e pelo descaso com tudo, principalmente com a qualidade dos ingredientes.

  21. alhos Says:

    Frederico,
    tudo bem?
    Desculpe-me a demora na liberação do comentário. Estava viajando.
    Lamento muito por sua experiência. Apesar do preço altíssimo, comemos bem lá e fomos bem atendidos.
    É sempre lastimável a irregularidade de alguns restaurantes brasileiros.
    Abraços!

  22. Juliana Says:

    Lendo hj seu artigo posso dar algumas respostas aos questionamentos das pessoas. Moro em Tiradentes ha quase um ano, faço faculdade em Sao Joao e trabalho em um restaurante em Tiradentes. O que percebi em pouco tempo é que ha uma enorme exploração do pessoal que trabalha aqui. Os tiradentinos e as pessoas que moram em São João del Rei e trabalham em Tiradentes são bem pobres em relação aos donos dos restaurantes. Fiquei assustada com os valores do Theatro, mas mais assustados devem ficar vcs ao saber que um garçon “extra” que trabalha quase dez horas por lá ( antes e depois do restaurante estar em funcionamento) recebe apenas R$60,00 – SEM 10%!!! Alias algo comum e clássico de Tiradentes e acredito que em outros cantos tb. OS 10% NAO SAO NOSSOS, SAO DO DONO!!!!! E em muitos desses lugares nem um almoço, ou jantar honesto recebemos. É arroz e feijão e o que sobrar da mesa dos clientes – um ou outro restaurante/bar nao tem este comportamento. mas é raro… Entao quando os turistas vem e comentam que nao sao bem atendidos ou que o garçon ta de ma vontade, nao passa na cabeça dele que este garçon recebe muito mal mesmo, a sua mesa Alhos, quase pagou o salario do MES INTEIRO do garçon… SEM OS 10%.. E claro que quase cliente nenhum vai deixar uma gorjeta, esta dividida entre todos os garçons que estiverem trabalhando, pois ja deu os 10% na nota… Sao dois enganados… Quantas vezes ja perguntaram pra mim, em vista do meu bom atendimento, se meus 10% tavam incluidos na conta, e eu, pra nao perder o emprego respondi que sim…. Ou seja… bem complicada a situação. Claro que o cliente nao tem nada com isso, mas é so um olhar do outro lado da mesa.

  23. alhos Says:

    Juliana,
    tudo bem?
    Obrigado por seu depoimento.
    De fato, os clientes não têm qualquer noção das relações de trabalho e assalariamento nos restaurantes.
    E é muito bom saber.
    Abraços!


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