Para ver a chuva fina

10/01/2013

 

Comer fora — por quê?

 

Calculo que haja dezenas, milhares de respostas.

 

Uns —os pragmáticos— poderiam dizer que comem fora para não ter que preparar a refeição.

 

Outros —os que se creem mais sofisticados— associariam a algum tipo de comportamento elegante. Outros, ainda, responderiam com um rápido ‘badalação’.

 

Mais recentemente surgiram aqueles que buscam novas experiências e que medem a qualidade das refeições em função das surpresas que encontram.

 

Mais ou menos caricaturais, algumas dessas respostas ajudam a compor um cenário em que o mundo das comidas é visto como espaço de celebração e celebridades, em que cozinhar vira performance e pleiteia a condição de arte ou de ciência.

 

Confesso que não gosto de nenhuma das associações, mas as respeito: a glamourização da gastronomia é, afinal, um fenômeno intenso e contemporâneo —fascinante como a chuva ácida ou o superaquecimento global. Além disso, move um incrível mercado de gentes e produtos.

 

Só que, em tempos de excessos e desmedidas, quero dar a minha resposta à pergunta: comer fora, por quê?

 

E é uma resposta prosaica: porque me permite ver a chuva fina lá fora.

 

Explico.

 

Saio do trabalho e entro no AK Vila, almoço de quinta-feira.

 

Do balcão de frutos do mar, em fase de experiência, escolho duas ostras e o ceviche de vieiras. Repito o par de ostras. Vieiras e ostras suculentas, saborosas, intensas. Merecem muitos adjetivos. Deixam, na boca, o gosto de mar.

 

Então peço, do cardápio, as lulas grelhadas com vinagrete morno, abacate e romãs. É uma entrada, que vira meu prato principal porque não quero perder o frescor salgado, nem deixar de sentir o mar que me rodeia.

 

Quero, sobretudo, continuar ali, olhando a rua úmida sob a garoa discreta.

 

Porque, para mim, comer fora se divisa sobretudo com divertimento, com prazer. Com um gesto tão cotidiano e simples quanto profundo e vital.

 

Quem dera, hora dessas, parem de conceituar, problematizar, ostentar, supervalorizar o mundo da gastronomia. Quem dera esqueçam as metáforas do laboratório e do ateliê quando quiserem falar de cozinha.

 

Quem dera descubram o prazer imenso de comer bem e, ao mesmo tempo, vejam a chuva fina, que cai lá fora.

 

 

AK Vila

Rua Fradique Coutinho, 1240, Vila Madalena, São Paulo

tel.  11  3231 4496

15 Respostas to “Para ver a chuva fina”

  1. ricamartini Says:

    Bonito texto, poético mas sem polir arestas, direto.
    Engraçado que antes de ver a atualização no Twitter eu estava exatamente pensando: “jantar fora hoje? Onde?” e me peguei conjeturando a respeito desse prazer de sentar à mesa e passar o dedo pelo cardápio procurando algo que apeteça.
    Pois fiquei pensando principalmente a que tipo de lugar gostaria de ir hoje e fazendo um paralelo com algo chato que aconteceu comigo ontem. No restaurante da moda dos foodies de SP fui barrado na porta pela segunda vez por causa do horário de funcionamento em primeiro momento publicado errado nos Veja/Época/Paladar da vida e depois por má informação passada por um dos garçons da casa.
    O lance é que ontem além de chegar tarde – que restaurante em SP fecha às 14h30 para o almoco em 2013? – ainda fui tratado rispidamente pelo atendente da casa. Sei que ele não é o chef ou proprietário nem nada porém ele os representa. A questão então é “comer fora porque…” a experiência da mesa para mim é muito prazerosa, mas vou atrás de lugar que no mínimo tenha prazer em me receber, sem semblantes blasés nem afetações.
    Abraço e se livre dessa redação que eu escrevi se assim o preferir.

  2. Roberta Malta Says:

  3. alhos Says:

    Ricamartini,
    obrigado.
    Fiquei curioso de saber onde foi.
    Cada vez mais, o bom atendimento é fundamental.
    Boa sorte nas próximas visitas.
    Abraços!

    Roberta,
    já falamos um pouco disso, não é?
    Beijos!

  4. Adriana Says:

    Delícia de texto. Especialmente vendo a chuva cair lá fora. Não é almoço, mas deu vontade de sair para jantar…

  5. lili Says:

    Quem me dera…

  6. alhos Says:

    Lilli,
    vá em busca…
    Abraços!

  7. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão,

    Grande sorte a sua, além da inspiração. Concordo, os ceviches são divinos mesmo. Gosto demais do de entrada com sementes de romã que acho uma combinação muito boa e feliz.

    Disse sorte no começo do texto por que, segunda- feira, fui almoçar no AK principalmente por causa do ceviche e não tinha por falta de peixe fresco. Um grande azar e o pior que nem chovendo estava.

    Grande e saboroso texto.

    Abraços

  8. alhos Says:

    Ricardo,
    obrigado.
    Dei sorte mesmo. Além da chuva, o balcão de frutos do mar só vai funcionar nos finais de semana, mas o colocaram em teste ontem. Uma delícia.
    Acho que Andrea Kaufmann tem um talento muito grande para encontrar boas combinações e soluções. Quando li a descrição dessa entrada, fiquei com sérias dúvidas se daria certo. Funcionou maravilhosamente.
    Abraços!


  9. Concordo plenamente. Faço, se me permite, das suas palavras, minhas.
    Infelizmente, tenho comido muito pouco fora, não por falta de vontade ou oportunidade, mas por contenção de gastos (esse ano eu caso!). Sinto uma falta tremenda, mas tenho suprido meus desejos, mesmo que parcialmente, cozinhando em casa, um cardápio variado e, se não tão sofisticado como em restaurantes de alta gastronomia, caseiro e aconchegante. Como esse sabor de mar e essa chuva fina aí…

  10. pris Says:

    vc escreve muito bem. poderia me dizer qual sua profissão? só por curiosidade, não precisa se não quiser.

  11. alhos Says:

    Juliana,
    tudo bem?
    É isso, o mesmo raciocínio vale para comer em casa. Comer, gesto vital e de prazer.
    Abraços!

    Pris,
    obrigado.
    Minha profissão envolve… escrever. Não apenas: ela também me faz ler muito, principalmente ficção, e é daí que saem algumas das opções narrativas a que recorro (e que eventualmente experimento) nos textos do blog.
    Abraços!


  12. Boa tarde,

    Gostaria de anunciar no site. Por favor, aguardo breve retorno.

    Obrigada desde já,
    Natalia


  13. perfeito texto. o excesso de glamurização deste universo as vezes atrapalha, a necessidade urgente de conhecer tal chefe ou tal restaurante pode obnubilar uma escolha menos óbvia porém mais surpreendente, mas sempre vale a pena ver a chuva lá fora.
    abraço, forte abraço.

  14. alhos Says:

    Natália,
    o email é alhospassas@uol.com.br
    Naturalmente, não poderia colocar nenhuma publicidade relativa a restaurantes ou que provoque conflito de interesses.
    Abraços!

  15. alhos Says:

    Wair,
    obrigado.
    Sempre vale a pena.
    Abraços!


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