Pato & Caipirinha

10/06/2009

Não sei se é falha genética ou de caráter. O fato é que não gosto de cachaça.

Nem do cheiro, que me parece excessivo, invasivo. Que parece que vai me imergir num mar de doçura meio pegajosa.

Por isso, fujo de caipirinhas e similares como o diabo da cruz. E não adianta minha irmã e meu cunhado insistirem que boa cachaça é boa e que caipirinha bem feita, também.

Só que tudo – até minha ojeriza à cachaça – tem um “até que”.

Até que… eu comentasse, de passagem, com minha irmã, que as caipirinhas do Sinhá eram elogiadas. Daí para frente, ela queria, de qualquer jeito, ir lá. Inclusive porque sabia que estava fora de cogitação irmos a um bar para tomar caipirinha. Num restaurante, pelo menos (eu pensava e ela entendia), dava para encobrir logo o gosto da cachaça.

Demorou algumas semanas para que conciliássemos nossos horários de todos. Fomos, finalmente, no domingo passado.

A idéia, claro, era começar pela caipirinha. Ainda oscilei, aventei pedir com vodka, mas sucumbi. Propus à minha mulher que dividíssemos e pedi uma caipirinha de lima da Pérsia. Com cachaça.

A garçonete me perguntou com qual cachaça queria. Não tinha a menor idéia. Me vieram à mente alguns produtores de vinho e algumas marcas de whisky. De cachaça, bulhufas. Meu cunhado veio em meu socorro e foi categórico: Selecta. Ok, Selecta.

Minha irmã preferiu a de tangerina com pimenta rosa.

E, les voilà, chegaram os copos altos, bonitos e coloridos, com quantidade imensa de frutas. Menos mal. Em último caso, secaria cuidadosamente as fatias de lima e chuparia.

A surpresa é que estava boa, muito boa. A cachaça, suave, teve a boa idéia de apagar aos poucos seu aroma e manter sua presença discreta no paladar. A da minha irmã, ainda melhor, combinava a fruta com a especiaria e contrastava ambas com o sabor da cachaça. Claro que ela não ficou numa só.

Eu fiquei. Mas gostei. Claro que devo demorar para repetir (literalmente) a dose. Afinal, por melhor que possa ser uma caipirinha, continuo preferindo um vinho ou, ocasionalmente, whisky. Mas é uma opção. E considerá-la já é um grande passo – ainda mais para alguém que (por falha genética, de caráter, ambas, ou seja o que for) prefere uma certa distância daquele cheiro.

As surpresas do almoço, porém, não haviam acabado.

O bufê estava muito bom, como sempre, e o serviço muito atencioso. É difícil – exceto pela Tenda do Nilo – imaginar uma melhor refeição em São Paulo a esse preço (30 por pessoa; minha filha: 15). Queria o Sinhá perto da minha casa. Queria não ter que enfrentar, ao ir lá, a angústia de estar nas imediações da Rebouças 2659 (e não vou, claro, explicar porque esse lugar me angustia: exposição da privacidade tem limite).

Não, não foi a qualidade que me surpreendeu, nem foram os chips de abobrinha, que minha filha devora, nem os legumes crocantes, no ponto, ou o escondidinho e os grelhados bem feitos. Nem o ovo pochê, a costela macia ou o pãozinho de tapioca com chutney de abacaxi.

Foi o arroz com pato. E toca de novo a lidar com a memória, agora das inúmeras vezes em que comi o fabuloso arroz com pato que meu pai preparava – talvez a origem mais explícita de minha adoração definitiva por carne de pato.

O do Sinhá não tinha o gengibre, nem as raspas de casca de laranja que meu pai usava na receita dele, mas vinha úmido na dose certa, com o sabor do pato prevalecendo e dialogando com o restante. Muito bom.

Depois, pelo Twitter, Julio Bernardo, o chef, esclareceu que a receita do arroz de pato é da Talitha Barros, cuja comida só experimentei uma vez, no Boa Bistrô, há tempos. Bom saber.

Num almoço só, descobri que caipirinha é bebível e comi um arroz de pato muito bom. Até dispensaria o tiramisù de rapadura. Claro que não dispensei.

Na saída, o álcool da cachaça potencializava uma certa turbulência na memória – arroz de pato, avenida Rebouças. Mas eu estava feliz.

Tudo certo, afinal, na prova dos nove do sorriso pós-refeição.

Sinhá

Rua Antonio Bicudo, 25, Pinheiros, São Paulo

Tel.  11  3081 4627

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Sinhá

17 Respostas to “Pato & Caipirinha”

  1. Benny Says:

    Conheci Julio Bernardo através de Talitha, ou melhor ….André Razuk grande alfaiate gatronomico, me liga um dia e diz…Bennão , entra ai num blog de um chef vc vai gostar…entrei e fiquei P…issimo, porra que audacia desse cara metendo o pau em todo mundo..Através de Razuk conheci Talitha, e atraves de Talitha como ja disse, Julio.
    Acabei conhecendo o Sinhá. Restaurante agradavel , comida simples e saborosa,caipirinhas otimas,serviço sempre atencioso,sobremesas muito simples, mas muuuuiiitto boas..pudim de leite,mousse de chocolate,e a minha falha genetica..o meu preferido, brigadeiro de colher.
    Não comi ainda o arroz de pato, mas ja to com vontade…agora nada bate o meu franguinho empanado, digo meu pq ja adotei…um sabor que me lembra os bolinhos de frango da minha avó. Bom não vou fazer do meu comentario um post. Em poucas palavras, Julinho é um cara bacana,divertido,acido…e o Sinhá …bom me sinto em casa la !!! bjs Julião

  2. talitha Says:

    poxa, alhos! obrigada!
    texto muito bem escrito.
    agradeço demais a lembrança.
    tremenda honra.
    um abração!

  3. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão,

    O tiramissú de rapadura é um deleite. Ainda não fui no almoço de domingo só durante a semana quando aproveito alguma janela de negócio em SP. Também confesso que tinha preconceito em relação a cachaça mas descobri, como qualquer bebida, que existem “cachaças” e Cachaças. É sempre bom quebrarmos preconceitos ou sismas. Quem sabe um dia você não se interesse por rock.

    Abraços

  4. Benny Says:

    Bom e por falar em cachaça….Julinho, CADE A MINHA CACHAÇAAAAAAA!!!!!

  5. alhos Says:

    Talitha,
    obrigado.
    O elogio ao arroz de pato é, claro, merecido.
    Beijos!

    Ricardo,
    é bom, sim, descobrir outras coisas.
    Mas acho que estou mais próximo da cachaça do que do rock…
    Embora continue a preferir vinho e música barroca. Ou um bom jazz.
    Avise um dia em que estiver por aqui; quem sabe almoçamos juntos?
    Abraços!

    Benny,
    obrigado pelo comentário.
    Conheci o blog do Julio Bernardo por um amigo, há cerca de um ano. Me espantei com a crueza da crítica. Muitas vezes concordei, outras tantas discordei e até me irritei. Acho que esse é o jogo da razão: perceber os espaços e as formas de expressão, as lógicas pessoais, compartilhadas ou não.
    O curioso da coisa é que, quase sempre muito distraído, demorei um pouco para associar o blog ao restaurante, que conhecia anteriormente.
    Nunca comi o brigadeiro de colher, nem o frango empanado (dele, seu, de todos?), mas, na próxima vez, experimento os dois.
    Abraços!

  6. Julinho Says:

    Alhos,
    Muitíssimo obrigado pelos elogios e citações. Mesmo.
    Seu post me pegou meio de surpresa. E o franguinho do Benny é de todo mundo! É só pedir! E combina bem com caipirinha!
    Coincidentemente (mesmo) cito seu blog no meu hoje em um post sobre críticos gastronômicos.

    Ricardo,
    A receita do tira é da Talitha também, que é bem melhor cozinheira e escritora que eu.

    Benny,
    Sua cachaça tá aqui!

    Abraçoss e obrigado a todos!

  7. alhos Says:

    Julinho,
    foi muito bom mesmo.
    Vão achar que combinamos cruzar posts.
    Abraços!

  8. Julinho Says:

    Rarararara…
    Não espero ler comentários do tipo ‘você só falou bem porquê ele fala bem de você e blablabla…’
    Valeu!

  9. paolanp27 Says:

    O Sinhá é excelente mesmo!

    Ingredientes normais são usados com criatividades e resultam em ótimos pratos.. adoro!!!

    Da próxima vez tb arriscarei uma caipirinha, não sou mto chegada, mas vou provar…

    http://localdagula.wordpress.com

  10. andrea Says:

    Olá Alhos,
    O Julio é um moço admirável; escreve bem e leva a sua sinceridade e independência até as últimas consequências, tenho respeito por ele ser autêntico e coerente.
    No domingo também fui surpreendida por um saboroso, úmido e leve (!) arroz de pato no Sinhá.
    abçs,
    Andrea K.

  11. alhos Says:

    Julinho
    Obrigado pela indicação no post.
    Acho que não. Até porque já tinha escrito sobre o Sinhá aqui no blog e você já tinha falado no seu.
    De resto, sabemos que não.
    Abraços!

    Paola,
    pois é, no meu caso valeu a pena. Torço para que prove e goste.
    Abraços!

    Andrea,
    não conheço o Julio pessoalmente, mas imagino como o texto se traduz em gesto.
    E o arroz de pato estava bom mesmo.
    Agora preciso provar seus novos vareniques…
    Boa sorte com eles.
    Abraços!

  12. Ricardo Reno Says:

    Comilão,

    Aviso sim, com prazer, quem sabe eu não comece a ouvir música barroca com outros ouvidos.

    Bom feriado e cuidado, pois os últimos não te deixaram boas lembranças.

    Abraços

  13. alhos Says:

    Obrigado, Ricardo.
    Abraços!

  14. Joaquim Says:

    Alhos ,estou indo a S.Paulo e o Sinhá está na lista ,o Julinho vem me preparando dizendo que sua comida é simples, sem pretensões ,etc e tal.É bom que ele esteja lá no dia e que a comida seja boa como vc. e o Benny apregoam ,quero ver se ele sabe cozinhar ou só fazer críticas deliciosas.Vou também no Tappo do Benny ,recomendação da Alexandra Forbes .

  15. alhos Says:

    Joaquim,
    boa estadia por aqui.
    E aproveite os almoços e jantares.
    Certamente comerá bem no Sinhá e na Tappo.
    Uma sugestão: se gostar de entranhas, prove a entrada de moela e fígado da Tappo. Uma delícia.
    Abraços!

  16. Joaquim Says:

    Alhos ,adoro visceras ,aliás como de tudo ,vou provar sua sugestão .Falam também excepcionalmente bem de uma lazanha. O Deco ,o pensador gastronômico do grupo Bráz ,derrama-se em elogios sobre o restaurante do Benny.É hora de conferir.Também vou ao Sub do Astor,não sei se vc. já conhece ,mas ontem recebi e-mail de uma amiga daí que me disse que só encontrou coisas parecidas em N.Y e Londres.Também vou conferir.Um abraço ,sou seu fã.

  17. alhos Says:

    Joaquim,
    obrigado.
    A lasanha é boa mesmo. Mesmo para quem não é tão fã de lasanha, como eu.
    Ouvi falar do SubAstor, mas não conheço. Aproveite!
    Abraços!


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